O histórico teste do primeiro double-decker brasileiro

Iniciativa da Marcopolo e da Scania, o double-decker trouxe no final de 1995 um avanço significativo no transporte rodoviário, combinando inovação técnica e luxo, e transformando a mobilidade no país

Alexandre Asquini

Nos últimos meses de 1995, um marco significativo para a indústria de transportes rodoviários brasileira foi registrado com o início dos testes do primeiro ônibus brasileiro de dois andares. A edição número 27 da Revista Technibus, datada de novembro daquele ano – em reportagem assinada pela jornalista Carmen Lígia Torres – destacou a colaboração entre a Marcopolo e a Scania para criar um modelo de ônibus inédito para o país.

O veículo, que ganharia o nome de Double-Decker, trazia inovações tecnológicas e de design para o setor de transporte rodoviário, e seu impacto seria imediato nas empresas de turismo e fretamento.

A parceria inédita entre Marcopolo e Scania

O ônibus desenvolvido pela Marcopolo e a Scania recebeu, no final de 1995, uma autorização especial do Departamento Nacional de Estradas de Rodagem (DNER) para realizar os testes rodoviários nas estradas brasileiras.

Embora o modelo fosse ainda uma novidade e superasse as dimensões e especificações técnicas previstas pela legislação brasileira da época, os especialistas acreditavam que a legalização das novas características do modelo seria apenas uma questão de tempo.

Isso porque o ônibus de 14 metros de comprimento ultrapassava o limite de 13,20 metros estabelecido para veículos comerciais no Brasil e possuía um quarto eixo, simples e dianteiro, uma adaptação inédita no país.

O Double-Decker representava um grande desafio normativo, mas, para muitos envolvidos no desenvolvimento, era esperado que acordos bilaterais do Mercosul ajudassem a regularizar as divergências entre os padrões nacionais e internacionais de veículos. Para antecipar-se a essa mudança, a Scania, com o apoio de fornecedores selecionados, criou uma adaptação de seu chassi K 113 TL, um modelo com motor de 360 cv, suspensão a ar e sistema de freios ABS.

A evolução técnica e o conforto do Double-Decker

O novo ônibus não era apenas uma inovação em termos de tamanho e potência, mas também em termos de conforto e segurança. O chassi K 113 TL possuía uma caixa de transmissão Scania GR 801, equipada com o sistema comfort shift, que facilitava a mudança de marchas, além de proporcionar maior proteção ao motorista.

A direção hidráulica com dois eixos dianteiros direcionais também era um destaque, pois oferecia um ângulo de manobra de até 52 graus, o que garantia maior agilidade nas estradas. Este sistema permitia que o veículo operasse com maior facilidade em manobras e curvas fechadas, um requisito essencial para as estradas brasileiras, muitas delas tortuosas e de difícil acesso.

Outro aspecto importante foi o design do interior, que foi desenvolvido para oferecer conforto e sofisticação ao passageiro. O primeiro ônibus Double-Decker brasileiro foi adquirido pela Agência Costa, uma empresa especializada em turismo de luxo. Este modelo contava com um barzinho aconchegante e até um pequeno restaurante para cerca de 16 pessoas na parte inferior, enquanto o andar superior acomodava até 46 assentos.

O veículo, que podia ser adaptado para até 70 passageiros, também se destacava pelo bagageiro posicionado na parte traseira do ônibus, aproveitando o espaço disponível e mantendo o conforto dos passageiros. Com a capacidade de transporte de bagagens otimizada, o Double-Decker era perfeito para viagens longas e turísticas.

O desenvolvimento de um novo padrão

Para a Marcopolo, a fabricação do Double-Decker representava o auge de sua linha de rodoviários GV, que já era sinônimo de sofisticação e inovação. Segundo José Carlos Bohrer, então responsável pela engenharia da Marcopolo, o projeto foi lapidado com o estilo e a identidade da marca, mantendo o alto padrão de qualidade que a empresa sempre se empenhou em oferecer.

O modelo não foi apenas uma inovação local, mas também teve repercussão internacional. Além das unidades que circulavam no Brasil, a Marcopolo iniciou a produção de 30 unidades para exportação para países como Argentina, Peru, Uruguai e Paraguai. Com uma linha de produção adaptada, a empresa conseguia produzir duas unidades por dia.

Expectativas para o mercado de transporte rodoviário

José Antonio Fernandes Martins, então vice-presidente corporativo da Marcopolo, compartilhava suas perspectivas sobre o futuro do transporte rodoviário. Ele acreditava que o transporte rodoviário de passageiros no Brasil passaria a adotar modelos mais luxuosos e confortáveis, como o Double-Decker, em resposta à crescente concorrência do transporte aéreo. Passados trinta anos, é possível perceber que o vaticínio se confirmou.

O aumento das exigências dos passageiros e a busca por alternativas de transporte mais convenientes e confortáveis eram tendências globais que também começavam a ganhar força no Brasil. Segundo Martins, o ônibus de dois andares poderia ser utilizado tanto para turismo quanto para linhas regulares de maior demanda, ampliando as possibilidades do setor.

O desenvolvimento do Double-Decker não foi apenas um avanço técnico, mas também um reflexo da adaptação das empresas brasileiras às novas demandas do mercado de transporte rodoviário e turístico.

O modelo de dois andares trouxe não só inovação, mas também maior conforto, segurança e eficiência, elementos essenciais para atrair passageiros mais exigentes. A Marcopolo e a Scania, com sua parceria, marcaram um ponto de virada na história do transporte rodoviário no Brasil, pavimentando o caminho para o desenvolvimento de novos modelos de ônibus e estabelecendo um novo padrão de qualidade para o setor.

Confira na Technibus nº27

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