Pilares de uma política de Estado para sustentar um novo ciclo de investimentos

Autoridades e executivos convergem em torno de segurança jurídica, planejamento integrado, financiamento estruturado e sustentabilidade como bases permanentes para consolidar o superciclo da infraestrutura

Alexandre Asquini

O debate sobre a sustentabilidade do atual ciclo de investimentos em infraestrutura revelou mais do que avaliações conjunturais positivas. Ao reunir representantes do governo federal, operadores privados e investidores institucionais, o painel coordenado por George Santoro, secretário-executivo do ministério dos Transportes, consolidou um diagnóstico convergente: o Brasil vive um momento de inflexão, mas sua consolidação dependerá da preservação de pilares estruturais capazes de transformar o chamado “superciclo” em política de Estado.

Ao lado de Santoro, participaram Tomé Barros Monteiro de França, secretário-executivo do Ministério de Portos e Aeroportos, além de executivos como Miguel Setas (CEO da Motiva), Marcos Almeida (head da Brookfield para a América do Sul), Radamés Casseb (CEO da Aegea), Santiago Yus (CEO da Aena Brasil) e Guilherme Caixeta (head de infraestrutura para a América Latina da GIC).

Embora partindo de perspectivas distintas, os debatedores reiteraram fundamentos comuns. Segurança jurídica, previsibilidade regulatória, qualidade dos projetos, financiamento de longo prazo, planejamento integrado e compromisso socioambiental emergiram como eixos centrais para sustentar um novo ciclo duradouro de investimentos.

O painel aconteceu durante o seminário Superciclo de Investimentos em Infraestrutura – Avanços e Desafios, realizado em 9 de fevereiro de 2026, na sede do BNDES, no Rio de Janeiro.

Segurança jurídica e estabilidade institucional

George Santoro destacou que a infraestrutura exige horizonte longo — contratos de 30, 60 ou até 99 anos — e, portanto, depende de estabilidade institucional. Para ele, a superação de passivos históricos, como concessões desequilibradas e insegurança jurídica, foi determinante para recolocar o Brasil no radar de investidores globais.

A mesma ênfase apareceu nas falas do setor privado. Miguel Setas, da Motiva, afirmou que inflação sob controle e ambiente institucional previsível reforçam a confiança do investidor de longo prazo. Na mesma linha, Guilherme Caixeta, da GIC, observou que quanto menor a incerteza contratual, menor o prêmio de risco exigido e maior a competitividade nos leilões.

A convergência indica que a estabilidade regulatória não é apenas condição formal, mas variável econômica concreta, com impacto direto no custo do capital.

Contratos estruturados e consensualismo

Outro ponto reiterado foi o avanço dos mecanismos de resolução consensual de conflitos. Santoro citou as câmaras de consenso e os processos de reequilíbrio contratual como instrumentos capazes de evitar paralisações e judicializações prolongadas.

Marcos Almeida, da Brookfield, reforçou essa avaliação ao defender o consensualismo como política permanente de Estado — e não como solução episódica. Para ele, a previsibilidade na renegociação e a transparência na realização de novos leilões após reequilíbrios demonstram maturidade institucional.

Também Caixeta destacou a importância de contratos robustos, com alocação clara de riscos e mecanismos eficazes de resolução de disputas. A convergência é evidente: a sustentabilidade do ciclo depende menos da ausência de conflitos e mais da existência de instrumentos institucionais capazes de resolvê-los com rapidez e segurança.

Qualidade dos projetos e padronização

A qualidade da modelagem foi apontada como pilar estruturante. Santoro defendeu a padronização de parâmetros regulatórios e econômico-financeiros, reduzindo incertezas decorrentes de contratos excessivamente distintos entre si.

Setas acrescentou que a existência de um pipeline consistente de projetos estruturados oferece visão de médio e longo prazo ao investidor. A previsibilidade do fluxo é tão relevante quanto a qualidade individual de cada ativo.

No setor de saneamento, Radamés Casseb, da Aegea, reforçou que a universalização exige projetos tecnicamente sólidos e planejamento estruturado, sob pena de comprometer metas de longo prazo. A convergência sugere que o superciclo não se sustenta com improvisação: depende de engenharia institucional e técnica consistente.

Planejamento sistêmico e integração

Outro eixo recorrente foi a necessidade de planejamento integrado. Santoro afirmou que não é mais possível tratar rodovias, ferrovias, portos, aeroportos, energia e saneamento de forma isolada.

No campo portuário e aeroportuário, Tomé Barros Monteiro de França destacou que a consolidação do superciclo depende de estabilidade institucional e planejamento permanente, especialmente em um cenário de restrições fiscais.

Representando a Aena Brasil, Santiago Yus reforçou a necessidade de coordenação entre infraestrutura aeroportuária e políticas públicas complementares, como acessos e saneamento, além do aperfeiçoamento contínuo dos contratos ao longo das rodadas de concessão.

Setas ampliou a perspectiva ao mencionar a importância de horizontes que ultrapassem ciclos governamentais, integrando transporte, urbanismo e desenvolvimento imobiliário. A previsibilidade estratégica, segundo ele, permite organizar balanços e ampliar capacidade de investimento.

Financiamento e mercado de capitais

O financiamento estruturado apareceu como condição indispensável para a continuidade do ciclo. Santoro reconheceu o papel do BNDES na ancoragem e inovação financeira, mas defendeu maior protagonismo do mercado de capitais.

Setas destacou a complementaridade entre banco público, bancos privados, mercado de debêntures e organismos multilaterais. Marcos Almeida ressaltou o efeito multiplicador do BNDES na alavancagem de recursos privados, sobretudo em projetos com componente climático.

Radamés Casseb enfatizou que, no saneamento, a redução do custo financeiro e a mitigação de riscos são essenciais para garantir justiça tarifária e sustentabilidade dos contratos. Caixeta, por sua vez, observou que a evolução da estruturação financeira brasileira contribuiu para manter estável o apetite de investidores institucionais internacionais ao longo da última década.

Sustentabilidade, inovação e setor produtivo

O compromisso socioambiental foi apontado como pilar incontornável. Tomé Barros Monteiro de França ressaltou que critérios ambientais, sociais e de governança são hoje determinantes para ampliar o acesso a capital.

Santiago Yus destacou metas de descarbonização e o uso de tecnologias como inteligência artificial para elevar eficiência e segurança operacional. Setas acrescentou que inovação, digitalização e uso de ferramentas como digital twins deixaram de ser diferenciais para se tornar exigências estruturais.

Também emergiu a preocupação com o fortalecimento da engenharia e da construção nacional. Para diversos participantes, sem capacidade produtiva interna, o volume crescente de projetos pode encontrar limites na execução.

Política permanente de Estado

Ao final do painel, a convergência foi inequívoca. A manutenção do superciclo não depende apenas de anúncios ou volumes pontuais de investimento, mas da consolidação de um arcabouço institucional estável, técnico e previsível.

Segurança jurídica, contratos bem estruturados, consensualismo, planejamento integrado, financiamento de longo prazo, inovação tecnológica e compromisso socioambiental formam um conjunto coerente de fundamentos.

Como sintetizou Santoro, o desafio agora é assegurar que esses pilares atravessem governos e se consolidem como política permanente de Estado — condição indispensável para que o atual ciclo de investimentos se transforme em trajetória estrutural de desenvolvimento.

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