Uma política nacional para evitar atrasos na eletromobilidade

Daniel Caramori, gerente sênior de assuntos governamentais da GM do Brasil e dirigente da Associação Brasileira do Veículo Elétrico (ABVE), afirma que a falta de uma direção clara pode atrasar a adoção da eletromobilidade no país.

Alexandre Asquini

“O Brasil precisa de uma direção clara sobre a eletromobilidade. A falta de uma política pública nacional coordenada gera um ambiente de incerteza, o que pode atrasar a adoção em larga escala”, disse Daniel Caramori, gerente sênior de assuntos governamentais da General Motors do Brasil e dirigente da Associação Brasileira do Veículo Elétrico (ABVE), durante um recente seminário sobre o tema, realizado em São Paulo pelo Grupo Lide.

Ele destacou a importância de um plano estratégico que envolva tanto o governo federal quanto os estados e municípios, além de investimentos em pesquisa, desenvolvimento e inovação para diminuir a dependência de mercados externos, especialmente na produção de baterias e minerais críticos essenciais para a fabricação de veículos elétricos.

Quadro de desafios

Caramori apresentou uma lista de desafios enfrentados pelo setor. Um deles é a persistência de incertezas regulatórias, que dificultam os investimentos em eletromobilidade. Outro, a existência de políticas públicas de incentivo isoladas e fragmentadas.

O gerente sênior também voltou a mencionar a ausência de um plano nacional para a eletromobilidade, com metas claras e de longo prazo, visando à descarbonização. Ele citou ainda a resistência à eletromobilidade em alguns setores do Congresso Nacional, do governo federal, governos estaduais e até mesmo na indústria.

Outros desafios destacados por Caramori incluem a escassez de investimentos em pesquisa tecnológica e desenvolvimento industrial, e o fato de o desenvolvimento industrial estar dividido em três grandes estratégias: eletromobilidade, etanol/biocombustíveis e petróleo/gás.

Crescimento do setor

A ABVE, que completará 20 anos em 2026, tem se consolidado como um pilar fundamental para o desenvolvimento da mobilidade elétrica no Brasil, com mais de 140 associados (eram 42 em 2020) incluindo grandes corporações como a General Motors, empresas médias e pequenas, além de startups.

De acordo com Caramori, o aumento significativo no número de associados da ABVE reflete o crescimento do setor, que abrange desde a fabricação de veículos elétricos até a infraestrutura de recarga e a inovação em serviços de mobilidade.

Segundo o dirigente, o mercado de veículos eletrificados está passando por rápidas transformações. Ele informou que havia 224 mil veículos leves eletrificados no país em 2025, o que representa um crescimento de 26% em relação a 2024 e de 20.400% em comparação a 2016. Em janeiro de 2026, a produção de veículos leves eletrificados foi de 23,7 mil unidades, o que representa 20% a mais que toda a produção de 2020.

Esse crescimento está diretamente relacionado ao aumento da infraestrutura de recarga. Caramori informou que, em agosto de 2025, havia 16.800 eletropostos no país, com uma projeção de 20 mil unidades para fevereiro de 2026, representando um crescimento de 20% em apenas sete meses.

“Esses números representam uma verdadeira transformação no mercado”, afirmou Caramori, acrescentando: “A eletromobilidade não é apenas sobre veículos; é sobre um ecossistema completo que envolve componentes, infraestrutura e serviços”, destacando a importância da colaboração entre diferentes segmentos para o sucesso dessa revolução.

Avanço dos ônibus elétricos

Daniel Caramori também destacou o crescimento da frota brasileira de ônibus elétricos. O Brasil já possui a terceira maior frota da América Latina, com 1.471 ônibus elétricos registrados até 2025, representando 16,08% do total, segundo levantamento atualizado da plataforma especializada E-Bus Radar.

No final de 2025, a frota de ônibus elétricos na América Latina era de 9.144 unidades. O Chile lidera, com 4.448 unidades (48,64%), seguido pela Colômbia, com 1.590 unidades (17,38%). O México ocupa o quarto lugar, atrás do Brasil, com 849 unidades (9,28%). Esses quatro países concentram 91,38% da frota latino-americana de ônibus elétricos.

O papel do Brasil

Outro aspecto destacado por Caramori é o potencial do Brasil como líder na produção de energia renovável, o que coloca o país em uma posição privilegiada para o avanço da eletromobilidade. “O Brasil tem a matriz energética mais renovável do planeta, o que torna a mobilidade elétrica aqui ainda mais estratégica”, ressaltou. A utilização de veículos elétricos no país contribuiria significativamente para a descarbonização do setor de transportes, especialmente em um cenário global de crescente preocupação com as mudanças climáticas.

A adoção de veículos elétricos também seria favorecida pela crescente demanda dos consumidores por tecnologias mais limpas, que estão cada vez mais interessados em soluções sustentáveis. “O consumidor está pronto, e quando a infraestrutura e os produtos estiverem disponíveis em maior escala, a curva de adoção será ainda mais acelerada”, afirmou.

Sobre o futuro

A ABVE, segundo Caramori, tem trabalhado ativamente para unir os diferentes players do setor e garantir que o Brasil aproveite seu potencial estratégico para se tornar um líder global na transição para a mobilidade elétrica.

Ele ressaltou que a eletromobilidade não é uma questão de escolha entre combustíveis fósseis ou biocombustíveis, mas uma necessidade que deve ser incentivada por políticas públicas eficazes. “Os carros serão eletrificados em breve. Não haverá mais opção de escolher um veículo não eletrificado”, concluiu.

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