Rio de Janeiro inicia virada inédita no transporte intermunicipal

Nova licitação no Rio de Janeiro troca outorga por frota limpa, reorganiza linhas e promete elevar o padrão de qualidade

Márcia Pinna, com Podacst do Transporte

Depois de mais de dez anos de contratos precários, o Rio de Janeiro está prestes a lançar a nova licitação do transporte intermunicipal. O modelo troca a cobrança de outorga e  em troca, exige que as empresas invistam diretamente em ônibus elétricos ou a gás, infraestrutura de abastecimento e renovação completa da frota. A proposta do governo fluminense estabelece:

  • 100% da frota com ar-condicionado;
  • 10% de veículos zero emissão;
  • Idade média máxima de seis anos;
  • Nenhum ônibus com mais de 12 anos;
  • Reorganização de mais de 100 linhas sobrepostas;
  • Divisão da região metropolitana em oito lotes;
  • Concessões de 15 anos, renováveis por mais 15 mediante metas de qualidade. A Semove, federação das operadoras, reconhece a importância da transição energética, mas alerta: sem recuperar passageiros, não há sustentabilidade.
  • Richele Cabral reforça que o setor está aberto a novas tecnologias, mas lamenta que o edital não contemple subsídios que reduzam o peso da tarifa para o usuário — algo que, segundo ela, seria a verdadeira revolução.

Sem possibilidade de subsídios diretos — devido ao regime de recuperação fiscal do estado do Rio— o presidente do Detro, Raphael Salgado, prevê um reajuste tarifário moderado, mas afirma que o ganho para o passageiro será imediato: frota nova, climatizada e com maior confiabilidade.

Contrato moderno e alinhado às melhores práticas

O especialista William Aquino, representante da  ANTP no Rio de Janeiro, destaca que o modelo proposto se aproxima das diretrizes defendidas pela entidade: contratos baseados na oferta, custos transparentes, avaliação contínua de qualidade e reajustes condicionados ao desempenho.
Para ele, a licitação corrige a fragilidade atual do poder concedente, que tem o papel passivo de autorizar as linhas solicitadas pelas empresas, e cria um ambiente de concorrência pelo mercado.

África acelera nos ônibus elétricos — e o Brasil observa

Na sua coluna, Márcia Pinna, da Technibus, mostra como o mercado africano de ônibus elétricos cresce rapidamente, impulsionado por fabricantes chineses e iniciativas locais. O avanço preocupa a indústria brasileira, especialmente diante das discussões sobre importação de veículos desmontados (CKD/SKD) e da competição com produtos subsidiados.

Roubo de cabos de trens e metro: problema nacional

Adamo Bazani, do Diário do Transporte, mostra  que o furto de fios e equipamentos — que já causa transtornos no Metrô de São Paulo — é um fenômeno nacional. Quadrilhas especializadas atuam em diferentes estados, afetando a segurança operacional e interrompendo serviços. Para enfrentar a onda, a ANPTrilhos tem trabalhado em nível nacional com resultados como a  aprovação do aumento da pena para este tipo de furto.

Abrati News: nova rodoviária de Salvador

A Abrati destaca a transferência das operações rodoviárias para a Nova Rodoviária da Bahia, em Águas Claras, com estrutura moderna, integração ao metrô e sistemas de segurança avançados. Com a mudança em pleno período de férias e carnaval, as empresas devem reforçar a de comunicação clara com os passageiros.

Ilegalidade não se disfarça com ar-condicionado

No editorial desta semana, Alexandre Pelegi faz um alerta: qualidade operacional não transforma um serviço ilegal em legal. Ele critica a tentativa de relativizar o conceito de clandestinidade no transporte rodoviário e reforça que:

  • não existe clandestino premium,
  • não existe ilegal “com bom atendimento”,
  • ônibus novo não substitui autorização,
  • aplicativo bonito não substitui outorga,
  • e simpatia do motorista não substitui a lei.

Pelegi lembra que a clandestinidade prejudica quem opera corretamente, fragiliza o Estado e coloca o passageiro em risco — inclusive sem cobertura de seguro. O editorial é um chamado à responsabilidade: segurança jurídica no transporte não é detalhe — é questão de vida ou morte.

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