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Setor automotivo cresce no início de 2026, mas Anfavea prega cautela e mantém foco nos próximos meses

O presidente da entidade, Igor Calvet, adota um tom cauteloso ao avaliar o cenário marcado por fatores macroeconômicos adversos

Publicado em 09/04/2026 por Alexandre Asquini

Igor Calvet, presidente da Anfavea (Divulgação)
Igor Calvet, presidente da Anfavea (Divulgação)

O setor automotivo brasileiro iniciou 2026 com desempenho robusto, impulsionado principalmente pelo resultado de março. No primeiro trimestre, os emplacamentos superaram 620 mil unidades, um crescimento de 13,3% em relação ao mesmo período do ano passado, quando haviam sido registradas 552 mil unidades. Parte desse avanço é atribuída à intensificação da oferta e ao aumento da pressão competitiva no mercado, fatores que contribuíram para dinamizar as vendas no período.

Apesar do resultado positivo, o presidente da Anfavea, Igor Calvet, adotou um tom cauteloso ao avaliar o cenário. Segundo ele, “o desempenho surpreende, mas ainda não é tempo de nós comemorarmos”. A principal mensagem é que os próximos meses serão decisivos. “Março surpreende, mas o foco é abril. São os próximos meses que vão definir como vamos lidar com o restante do ano”, afirmou.

A cautela se explica por fatores macroeconômicos ainda adversos. Mesmo com uma leve redução, a taxa básica de juros permanece elevada, em torno de 14,75%, impactando diretamente o crédito ao consumidor. Além disso, o ambiente internacional segue marcado por incertezas geopolíticas, incluindo conflitos e tensões comerciais, que podem afetar custos — especialmente com a volatilidade do petróleo e do câmbio, influenciando a cadeia automotiva.

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Diferentes segmentos

No campo tecnológico, o trimestre trouxe sinais importantes de transformação. Os veículos eletrificados já representam cerca de 15% dos emplacamentos e mantêm crescimento consistente. Nos últimos 12 meses, houve avanço de 5,4 pontos percentuais nesse segmento. Além disso, a produção nacional desses modelos evoluiu significativamente: passou de cerca de 23% no primeiro trimestre de 2025 para mais de 40% em 2026, indicando a consolidação dos investimentos anunciados pelas montadoras. Em números absolutos, os emplacamentos desses veículos praticamente dobraram, passando de cerca de 54 mil para 100 mil unidades no comparativo anual.

Igor Calvet observou que outro movimento relevante foi a mudança na origem das importações. A China consolidou-se como principal fornecedora de veículos ao Brasil, respondendo por mais de 50% dos importados — um crescimento expressivo frente ao ano anterior. O país já lidera esse ranking há oito meses consecutivos, superando a Argentina, cuja participação recuou de mais de 50% para cerca de 40%. Apesar disso, o volume total de veículos importados permanece relativamente estável, em torno de 17% a 18% dos emplacamentos.

Programas de incentivo também tiveram impacto relevante. O chamado carro sustentável já acumula cerca de 370 mil unidades vendidas desde sua implementação e elevou as vendas desse segmento em aproximadamente 30% em comparação ao período anterior sem incentivos. O destaque foi o varejo, que cresceu 67%, evidenciando maior aproximação com o consumidor final e reativação da demanda

No segmento de caminhões, os dados mostram recuperação na margem, especialmente de fevereiro para março, com crescimento expressivo em algumas categorias, como os pesados. Ainda assim, o setor permanece abaixo dos níveis registrados em 2025, indicando um cenário de melhora gradual, porém ainda preocupante. Parte da reação recente pode estar associada aos efeitos do programa Mover Brasil, cujos impactos começaram a aparecer nos emplacamentos com alguma defasagem.

No comércio exterior, março também apresentou reação positiva nas exportações, com crescimento relevante frente a fevereiro. No entanto, o acumulado do ano ainda registra queda de 18,5% em relação ao mesmo período anterior. Entre os destinos, a Argentina segue como mercado relevante, embora com perda de participação — o Brasil passou de cerca de 45% para 43% do mercado local. A Colômbia, por sua vez, se destaca com crescimento superior a 20%, mas ainda cercada por incertezas políticas e comerciais, como eleições e negociações de acordos. Já o México apresenta dinâmica mais complexa, influenciada por mudanças na produção e pelo ambiente econômico da América do Norte.

A produção industrial acompanhou o aquecimento do mercado interno e a melhora pontual das exportações. Em março, foram produzidas 264 mil unidades, alta de 27% sobre fevereiro e o melhor resultado para o mês desde 2018, além de representar o melhor nível desde o período pré-pandemia. No acumulado do ano, a produção já soma cerca de 634 mil unidades, acima do registrado no mesmo período de 2025.

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Projeções mantidas

Mesmo diante dos sinais positivos, a Anfavea decidiu manter suas projeções para 2026. A expectativa é de crescimento de 2,7% no mercado interno, com produção total estimada em aproximadamente 2,74 milhões de veículos. A decisão reflete a avaliação de que o desempenho de março pode ser pontual, em meio a um cenário global ainda volátil, marcado por incertezas geopolíticas, pressões inflacionárias e dúvidas sobre a trajetória dos juros.

“Não posso, pelo mês de março, fazer uma relação sobre o que vem dentro desse ano”, afirmou Calvet. Segundo ele, uma eventual revisão das projeções deve ocorrer apenas em julho, quando haverá maior clareza sobre o comportamento do mercado.

Em síntese, o setor automotivo brasileiro vive um momento de recuperação, sustentado por maior oferta, novos produtos, programas de incentivo e avanço tecnológico. Ainda assim, o cenário exige cautela: março surpreendeu — mas é o desempenho dos próximos meses que confirmará se o ritmo veio para ficar.


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