Miguel Setas defende superciclo de investimentos para destravar infraestrutura

CEO da Motiva aponta estabilidade institucional, maturidade regulatória e mercado de capitais robusto como bases de um novo ciclo de investimentos em rodovias e trilhos no Brasil

Alexandre Asquini

Durante seminário realizado em 9 de fevereiro de 2026, na sede do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), o CEO da Motiva, Miguel Setas, apresentou uma leitura estratégica sobre o atual momento da infraestrutura brasileira, defendendo a existência de um superciclo de investimentos sustentado por estabilidade institucional, amadurecimento regulatório, disponibilidade de capital e um pipeline consistente de projetos. A manifestação ocorreu em painel que reuniu autoridades governamentais, representantes do setor privado e lideranças institucionais do setor de transportes e concessões.

Ao iniciar sua fala, Setas destacou a parceria histórica entre a Motiva — antiga CCR — e o BNDES, agradecendo o convite da diretoria do banco e ressaltando o papel da instituição como agente estruturante do financiamento de longo prazo no país. Segundo ele, a atuação coordenada entre banco de fomento, mercado de capitais, bancos comerciais e organismos multilaterais tem sido decisiva para viabilizar projetos de grande escala e reduzir riscos sistêmicos.

Rodovias e trilhos

Um dos pontos centrais da exposição foi a decisão estratégica da Motiva de concentrar seus investimentos em rodovias e trilhos, deixando o segmento aeroportuário. Setas explicou que a alienação da plataforma de aeroportos não representa um desinteresse pelo setor, mas uma escolha de foco em áreas nas quais a companhia é líder e onde as oportunidades de crescimento são mais abundantes. Além disso, a operação permitirá o repatriamento de capital atualmente investido no exterior, reforçando a capacidade de investimento da empresa no mercado brasileiro.

“Há hoje tanta coisa para fazer no Brasil que estar disperso em três segmentos deixou de fazer sentido”, afirmou. Segundo o executivo, cerca de 60% dos ativos aeroportuários da empresa estavam fora do país, e a venda permitirá direcionar recursos para projetos estruturantes de infraestrutura nacional.

Setas contextualizou esse movimento dentro de um cenário mais amplo de expansão dos investimentos em infraestrutura. Em 2025, o volume de investimentos no setor teria alcançado R$ 280 bilhões, com expectativa de chegar a R$ 300 bilhões em 2026. Para ele, esse ambiente favorável decorre de cinco fatores principais: a estabilidade macroeconômica relativa do Brasil em comparação ao cenário internacional; a segurança e previsibilidade institucional; a consolidação regulatória; os mecanismos consensuais de resolução de conflitos; e a crescente profundidade do mercado de capitais.

Destino de investimentos

Na avaliação do CEO da Motiva, o Brasil se destaca hoje como destino de investimentos em infraestrutura em um mundo marcado por conflitos geopolíticos e instabilidade. “Estamos em uma região sem guerra, com inflação controlada e com um arcabouço institucional que oferece previsibilidade ao investidor”, afirmou.

Ele destacou ainda a qualidade crescente dos projetos ofertados, resultado de uma visão mais estruturada e intencional do poder público. Esse fluxo contínuo de projetos, segundo Setas, permite ao investidor privado planejar-se no médio e longo prazos, aproximando o país de uma lógica de políticas de Estado, e não apenas de ciclos de governo.

No campo regulatório, Setas apontou a maturidade das agências do setor de transportes como elemento-chave para a atração de capital privado. Com experiência anterior no setor elétrico, ele comparou o atual estágio de instituições como a ANTT a benchmarks internacionais, destacando sua capacidade técnica e previsibilidade decisória.

Outro tema recorrente foi o consensualismo como instrumento para destravar investimentos. Setas defendeu a renegociação estruturada de contratos desequilibrados, especialmente no setor rodoviário, evitando judicializações longas e onerosas. Segundo ele, a combinação entre negociação institucional e novos processos licitatórios reduz riscos de moral hazard e acelera a retomada dos investimentos.

Mercado de capitais e a infraestrutura

A disponibilidade de capital também foi enfatizada como diferencial do momento atual. Setas lembrou que, há uma década, o mercado de capitais tinha participação limitada no financiamento de infraestrutura, cenário que mudou significativamente. Como exemplo, citou a emissão da maior debênture de infraestrutura já realizada no país, no valor de R$ 10,7 bilhões, destinada a um projeto estratégico de ligação entre São Paulo e Rio de Janeiro.

O crescimento da Motiva reflete esse contexto. Quando Setas assumiu o comando da empresa, há três anos, a carteira de projetos somava cerca de R$ 30 bilhões. Hoje, esse volume ultrapassa R$ 65 bilhões. Olhando adiante, a companhia mapeia aproximadamente R$ 190 bilhões em projetos potenciais, sendo cerca de R$ 120 bilhões em rodovias e R$ 60 bilhões em trilhos.

Referências do exterior

A fala também incorporou referências internacionais. Setas relatou recente missão da empresa à China, Hong Kong e Singapura, destacando elementos do modelo asiático que considera inspiradores: planejamento de longo prazo, visão integrada entre transporte e urbanismo e digitalização intensiva da infraestrutura. Para ele, conceitos como o desenvolvimento orientado ao transporte (TOD) e o uso de gêmeos digitais apontam caminhos para tornar os sistemas mais eficientes e resilientes.

Além disso, o executivo destacou a ênfase desses países na formação técnica como fator decisivo para sustentar ciclos prolongados de investimento. Segundo Setas, o investimento massivo na qualificação de profissionais em áreas como engenharia, tecnologia e ciências aplicadas cria uma base técnica capaz de dar suporte à expansão da infraestrutura, à incorporação de novas tecnologias e à elevação da produtividade. Para ele, o fortalecimento da formação técnica é condição essencial para que o Brasil consiga transformar volume de investimentos em projetos efetivamente entregues.

Lei de concessões e PPPs

No encerramento, Setas destacou a importância da aprovação da nova lei de concessões e PPPs, em tramitação no Senado, considerada fundamental para atualizar o marco jurídico do setor, fortalecer a segurança contratual e aprimorar a gestão de riscos. Defendeu ainda a manutenção dos incentivos às debêntures de infraestrutura.

Nesse contexto, ressaltou também a necessidade de fortalecimento do setor nacional de engenharia e construção. Segundo o executivo, a existência de projetos bem estruturados, financiamento disponível e segurança regulatória precisa ser acompanhada por capacidade técnica instalada no país, capaz de executar obras complexas, desenvolver soluções de engenharia e sustentar ganhos de eficiência. O fortalecimento desse ecossistema — que envolve empresas de engenharia, construtoras, projetistas e fornecedores tecnológicos — é visto como elemento-chave para sustentar o volume de investimentos projetado.

Sustentabilidade

Por fim, o executivo reiterou o compromisso da Motiva com inovação e sustentabilidade, ressaltando que as mudanças climáticas impõem uma incorporação definitiva dessa agenda aos modelos de negócio, ao lado do investimento contínuo em tecnologia, qualificação técnica e capacidade de engenharia. “Sustentabilidade deixou de ser opcional. É parte da equação para projetar o Brasil como líder global em infraestrutura nas próximas décadas”, concluiu.

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