“Demanda por ônibus elétricos será cada vez maior”

Afirmação é da diretora da Eletra, Iêda de Oliveira, que alerta: infraestrutura e financiamento têm dificultado a aceleração do mercado de elétricos, mas soluções estão sendo criadas por cidades e entidades financeiras

Valeria Bursztein

O ano de 2024 foi de grandes conquistas para a Eletra, fabricante de ônibus e agora também de chassis elétricos, e uma das grandes players na liga do transporte urbano de passageiros. A diretora da companhia, Iêda de Oliveira, conversou com a Technibus para detalhar os avanços da empresa, inaugurada oficialmente em 2.000. No ano passado, a Eletra alcançou a liderança no mercado de ônibus elétricos com tecnologia de tração elétrica desenvolvida in-house, com 250 veículos vendidos só na cidade de São Paulo e um portfólio de 11 modelos de ônibus elétricos.

Technibus – Em 2024, a Eletra anunciou a entrada na produção de chassis próprios para ônibus elétricos. Como está esse projeto?

Iêda de Oliveira – O principal investimento no momento é no lançamento da linha de chassis eletrificados Eletra, utilizando a plataforma produzida pelas montadoras. Essa decisão altera o nosso processo produtivo e o modelo de comercialização. Estamos ampliando a área de produção para a instalação da nova fábrica de integração de chassis elétricos. Embora a produção do chassi se inicie na planta atual, a expectativa é que, em meados de 2026, a nova unidade esteja operacional. Já temos o primeiro CAT, emitido em janeiro de 2025, para chassi articulado elétrico Eletra, já com cadastro no BNDES e código Finame, com índice de nacionalização superior a 86%. Hoje, nossa fábrica tem capacidade para integrar nossa tecnologia de tração em 1.800 ônibus elétricos por ano. Com a mudança para chassis elétricos Eletra, pulamos para 2.500 unidades/ano na planta atual. Já a nova fábrica terá capacidade para integrar, sozinha, 3.500 chassis/ano.

Technibus – Como o mercado reagiu à entrada da Eletra na produção de chassis? Há demanda crescente por essa solução no Brasil e na América Latina?

Iêda de Oliveira – A Eletra mantém a parceria com as montadoras na utilização das plataformas produzidas e consolidadas no mercado brasileiro. Acreditamos que não há conflito, já que não há amarras na atuação no mercado. A eletrificação da frota de ônibus urbanos é uma realidade sem volta. A demanda será cada vez maior. Eu diria que a “roda girou”. À medida que os elétricos entram em operação, tanto os operadores quanto os clientes do transporte público vão demandar cada vez mais ônibus elétricos.

Technibus – Quais foram os principais negócios fechados pela Eletra no Brasil e no exterior nos últimos meses? Há novos mercados internacionais sendo explorados?

Iêda de Oliveira – A maior venda de ônibus elétricos no Brasil hoje está concentrada na cidade de São Paulo, onde temos a maior frota Eletra. Estamos também em tratativas para fornecer 400 ônibus que irão circular na cidade de São José dos Campos. A expansão para o mercado externo, principalmente América Latina, sofre a pressão dos produtos chineses com preços incentivados e subsidiados pelo governo de origem. Com o lançamento do chassi elétrico Eletra 100% brasileiro, queremos ampliar a produção, ganhar escala, reduzir custos e aumentar a competitividade em preço, já que, em qualidade e pós-vendas, já temos reconhecida a nossa vantagem.

Technibus – A eletrificação do transporte coletivo avança no Brasil, mas ainda há desafios, como infraestrutura de recarga e financiamento. Como a Eletra tem trabalhado para superar essas barreiras?

Iêda de Oliveira – Infraestrutura e financiamento têm dificultado a aceleração do mercado de elétricos, mas soluções estão sendo criadas por cidades e entidades financeiras. A infraestrutura gera muita desinformação no mercado: não falta energia, por exemplo, na cidade de São Paulo. Os ônibus serão recarregados majoritariamente à noite, quando há uma baixa no consumo e disponibilidade de energia. A questão é a infraestrutura para levar essa energia até aquela garagem ou endereço. Algumas concessionárias de energia venderam facilidade e agora cobram dificuldade, o que atrasa o processo. Soluções como hubs de recarga compartilhada, instalados onde existe maior disponibilidade de energia, ou mesmo “recarga em movimento”, devem ganhar espaço em um futuro próximo.

O financiamento também é uma barreira que requer criatividade para elaborar modelos sustentáveis. A subvenção com antecipação de 2/3 do investimento em frota elétrica, feita pela cidade de São Paulo, mostrou-se eficiente para os contratos de concessão e economicamente melhor para os cofres públicos. A criação de linhas com taxas atrativas, considerando os benefícios da tecnologia, também precisa avançar e ser menos burocrática. Outras instituições estudam modelos de consórcio para eletrificação e sistemas de locação de ônibus. Com a pressão crescente de demanda, as soluções virão.

Negócios em São José dos Campos

Mencionado na entrevista pela diretora da Eletra, Iêda de Oliveira, outro grande negócio relacionado à Eletra, mas que ainda não saiu do forno, envolve a empresa Green Energy S.A., que venceu a licitação para locação de 400 veículos elétricos para transporte de passageiros em São José dos Campos, no interior paulista. Ao que tudo indica, a Eletra será a empresa que fornecerá os 400 ônibus, uma frota zero quilômetro, composta por 400 ônibus, 100% elétricos (divididos em três modelos), com ar-condicionado e carregador USB.

A licitação é somente para os veículos, sendo que a operação e o sistema de carregamento serão definidos pela prefeitura de São José dos Campos em outro edital. As empresas envolvidas esperam pela próxima fase, que é a de homologação do certame e, em seguida, a assinatura do contrato.

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