Banco Mercedes-Benz negocia com ministério do Turismo linha de crédito para ônibus rodoviários
Instituição busca levar ao Fungetur modelo semelhante ao Refrota, hoje restrito ao transporte urbano; proposta ainda depende de orçamento, credenciamento e ajustes na operação
Publicado em 17/08/2026 por Aline Feltrin

O Banco Mercedes-Benz negocia com o ministério do Turismo e a Caixa Econômica Federal uma alternativa de financiamento para ônibus rodoviários baseada no modelo do Refrota, programa voltado atualmente à renovação da frota de transporte coletivo urbano. A proposta é utilizar o Fundo Geral de Turismo (Fungetur) para criar uma linha permanente com condições competitivas para operadores rodoviários.
A iniciativa ganhou força após o fim do Move Brasil, programa temporário que concentrou parte relevante da demanda por financiamento de ônibus rodoviários. Segundo Leonardo Piccinini, presidente e CEO do Banco Mercedes-Benz, o segmento ficou sem uma linha equivalente ao Refrota depois do encerramento do programa.
“O rodoviário não tem nada”, afirmou o executivo, ao comparar as opções disponíveis para os dois segmentos. Segundo ele, quando o Move foi lançado, os operadores rodoviários recorreram à linha justamente porque não havia uma alternativa permanente com características semelhantes.
A proposta em discussão ainda está em fase preliminar. O Fungetur já existe, mas o produto enfrenta questões de orçamento e de operacionalização. Os bancos de montadoras ainda não foram credenciados para operar a linha. O Banco Mercedes-Benz afirma estar discutindo com a Caixa e o ministério do Turismo a possibilidade de participar da operação.
A instituição pretende usar como argumento a experiência acumulada na operação do Refrota. O banco foi um dos pioneiros no produto e afirma ter desenvolvido conhecimento específico sobre a estrutura de financiamento de ônibus e sobre o perfil dos operadores.
“Estamos levantando a mão” para mostrar ao governo a experiência adquirida na operação do Refrota, disse o executivo.
Rodoviário ficou dependente de programa temporário
A ausência de uma linha permanente para o transporte rodoviário ganhou relevância com o encerramento do Move Brasil. No primeiro semestre, o mercado brasileiro de ônibus recuou 12%, segundo dados apresentados pelo Banco Mercedes-Benz. Mesmo assim, a instituição ampliou seus financiamentos no segmento. De janeiro a junho, o banco desembolsou R$ 1,4 bilhão para ônibus. Desse total, R$ 865 milhões vieram do Refrota, enquanto o restante foi financiado pelo Move Brasil.
O desempenho mostra a importância das linhas com condições diferenciadas para sustentar a renovação das frotas. Desde 2024, o Banco Mercedes-Benz afirma ter desembolsado R$ 2,3 bilhões por meio do Refrota. Apenas em 2026, foram R$ 865 milhões, o equivalente a cerca de 65% dos desembolsos do produto no ano.
No caso do rodoviário, entretanto, o Move ocupou um espaço que o Refrota não consegue atender. O programa voltado ao transporte urbano não contempla ônibus rodoviários. Segundo o executivo, essa diferença levou os operadores rodoviários a recorrerem ao Move enquanto a linha esteve disponível.
No Move Brasil 2, o Banco Mercedes-Benz afirma ter realizado mais de R$ 2 bilhões em operações. Desse montante, R$ 2,3 bilhões foram mencionados pelo executivo como desembolsos para ônibus, enquanto nos 45 dias anteriores à apresentação o banco havia protocolado R$ 800 milhões somente em operações de ônibus.
Modelo permanente
Para o Banco Mercedes-Benz, a principal diferença entre o Move e uma eventual linha baseada no Fungetur está na previsibilidade. O executivo defende um mecanismo permanente, com orçamento definido, que permita ao operador planejar a renovação da frota em vez de correr para aproveitar uma janela temporária de financiamento.
“O operador de ônibus sabe que o Refrota está lá. Ele se programa”, afirmou. Na avaliação do executivo, o mesmo modelo poderia ser aplicado ao transporte rodoviário, criando uma linha disponível para o empresário quando chegar o momento de substituir os veículos.
A experiência do Move também mostrou, segundo ele, os riscos de programas temporários. O executivo citou o caso de um cliente que contratou financiamento com taxa subsidiada, mas posteriormente enfrentou dificuldades para honrar os pagamentos. A taxa do Move chegou a cerca de 13,5%, enquanto a do Refrota está em 11,5%, segundo os números apresentados pelo banco.
Fungetur ainda tem obstáculos
O Fungetur, porém, ainda não está pronto para funcionar como um “Refrota do rodoviário”. Segundo o Banco Mercedes-Benz, o programa enfrenta problemas burocráticos e de orçamento. Além disso, os bancos de montadoras ainda não foram credenciados para operar a linha. Na fase inicial, foram habilitados bancos públicos e entidades de fomento.
O Banco Mercedes-Benz afirma que a Caixa Econômica Federal já procurou a instituição para discutir a experiência operacional acumulada com o Refrota. A ideia é contribuir para a construção de um modelo que possa ser utilizado também pelos bancos de montadoras.
O executivo reconhece que o mercado rodoviário representa uma parcela menor das vendas totais de ônibus — estimada por ele entre 5% e 8% —, mas considera estratégico criar uma linha específica para o segmento.
A proposta, portanto, ainda depende de decisões do governo sobre orçamento, regras e credenciamento das instituições financeiras. Caso avance, poderá criar uma alternativa permanente de crédito para um segmento que, depois do fim do Move, voltou a não contar com uma linha de financiamento específica nos moldes do Refrota.
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