Fim da escala 6x1 traz mudança estrutural para todo o setor de transporte de passageiros
Representantes dos setores urbano, metropolitano, rodoviário, de fretamento e transporte escolar avaliam que a mudança poderá provocar impactos operacionais, financeiros e trabalhistas significativos
Publicado em 19/06/2026 por Alexandre Asquini

Após a palestra de Wan Yu Chii, “Fim da Escala 6x1 – Impactos, Desafios e Perspectivas para o Transporte de Passageiros”, promovida pela Fetpesp, houve um espaço para debate do tema. Ficou evidente que a possível substituição da jornada de trabalho em escala 6x1 pela escala 5x2 tem gerado preocupação entre empresas de transporte de passageiros de diferentes segmentos.
Representantes dos setores urbano, metropolitano, rodoviário, de fretamento e transporte escolar participantes do encontro avaliaram que a mudança poderá provocar impactos operacionais, financeiros e trabalhistas significativos, embora ainda não existam respostas definitivas sobre a forma como a transição ocorreria na prática.
A percepção predominante foi que a alteração representaria uma mudança estrutural para todo o setor. Apesar de haver consenso sobre a relevância do tema, as empresas ainda estão em fase de diagnóstico e tentam compreender com maior precisão os efeitos da redução da jornada sobre suas operações.
Os impactos tendem a variar conforme o tipo de serviço prestado. No transporte urbano e metropolitano, a expectativa demonstrada é de que a oferta de viagens tenha de ser mantida, independentemente da redução da jornada dos trabalhadores. Nesse cenário, a consequência mais provável seria a necessidade de ampliar o quadro de motoristas para garantir o mesmo nível de atendimento à população.
No segmento de fretamento, as incertezas são consideradas ainda maiores. Como a demanda está diretamente ligada aos horários de funcionamento de indústrias, empresas, escolas e outros clientes, eventuais mudanças nas jornadas desses contratantes poderão alterar significativamente a operação do transporte. Dessa forma, os participantes do setor avaliaram que ainda é cedo para medir com exatidão os impactos que poderão ocorrer.
Já quanto ao transporte escolar, entendeu-se que os efeitos podem ser mais limitados em razão das características próprias da atividade. Como grande parte das operações não ocorre aos fins de semana, a adaptação às novas regras tende a ser menos complexa do que em outros segmentos.
Novas metodologias
Um dos principais desafios apontados pelos participantes do debate é a necessidade de desenvolver novas metodologias de escalas de trabalho. Os modelos atualmente utilizados foram concebidos para uma realidade operacional diferente e podem não ser suficientes para atender às exigências de uma eventual jornada reduzida.
Nesse contexto, defendeu-se a criação e o teste de novos arranjos de folgas e jornadas. Também foi destacada a importância do conceito de “escala padrão”, entendido como uma forma de organizar a força de trabalho de maneira mais eficiente e otimizar o uso dos recursos disponíveis.
Durante o debate, também foi observado que ainda não existe um modelo de escala considerado ideal para uma eventual realidade de jornada 5x2. Empresas operadoras, fornecedores de tecnologia e especialistas do setor já vêm desenvolvendo e testando diferentes alternativas, mas o entendimento predominante é que o processo ainda se encontra em fase de experimentação e aperfeiçoamento.
Outro aspecto destacado foi a possível necessidade de revisão de convenções coletivas de trabalho. Dependendo das regras atualmente vigentes para folgas dominicais, ciclos de trabalho e descansos, os impactos operacionais poderão variar significativamente entre empresas e regiões, exigindo negociações específicas entre empregadores e representantes dos trabalhadores.
A tecnologia foi apontada como uma ferramenta essencial para enfrentar esse novo cenário. Sistemas de gestão de escalas e plataformas de simulação permitem testar diferentes configurações operacionais antes de sua implantação efetiva, reduzindo riscos e auxiliando na tomada de decisões.
Segundo os participantes, essas ferramentas possibilitam avaliar cenários, estimar custos, distribuir jornadas de forma mais equilibrada e identificar alternativas que minimizem os impactos da nova legislação sobre as operações.
Gestão dos motoristas
Outro tema que surgiu foi a necessidade de humanizar a gestão dos motoristas. A adoção de escalas mais previsíveis e personalizadas foi apresentada como uma oportunidade para aumentar a satisfação dos trabalhadores e melhorar sua qualidade de vida.
Debatedores defenderam modelos que levem em consideração preferências individuais, horários desejados e características pessoais dos profissionais. A avaliação é que uma gestão mais flexível pode contribuir para reduzir a rotatividade e tornar a profissão mais atrativa.
Também foi ressaltada a importância de oferecer maior previsibilidade aos trabalhadores, permitindo que conheçam antecipadamente seus horários e períodos de descanso. Segundo participantes do debate, escalas mais transparentes e ajustadas às características individuais dos profissionais podem contribuir para melhorar o ambiente de trabalho e fortalecer a retenção de mão de obra.
A dificuldade de atrair e reter motoristas foi apontada como um dos principais problemas já enfrentados pelo setor, independentemente da discussão sobre a escala de trabalho. Entre os fatores citados estão a remuneração considerada insuficiente, a utilização de veículos frequentemente antigos ou inadequados, o trânsito intenso dos grandes centros urbanos, a precariedade da infraestrutura viária, a pressão exercida pelos passageiros e as condições gerais de trabalho.
Nesse cenário, diversos participantes destacaram que a redução da jornada poderá ampliar a necessidade de contratação de profissionais justamente em um momento em que as empresas encontram dificuldades para preencher vagas.
Mais custos
O aumento dos custos operacionais foi tratado como praticamente inevitável caso a mudança seja implementada. A necessidade de ampliar quadros de pessoal para manter os níveis atuais de serviço tende a elevar despesas trabalhistas e operacionais em praticamente todos os segmentos do transporte de passageiros.
Os debatedores observaram ainda que os impactos não deverão se restringir aos motoristas. Equipes de manutenção, segurança, operação e outras áreas de apoio também poderão ser afetadas por eventuais reduções de jornada, ampliando a necessidade de contratações e os custos associados à operação dos sistemas de transporte.
Essa preocupação se torna ainda maior diante da forte dependência de subsídios públicos observada em diversas operações de transporte coletivo. Representantes do setor afirmaram que muitas empresas já operam com níveis de subsídio considerados insuficientes e questionaram a capacidade financeira das prefeituras para absorver novos aumentos de custos.
Demanda e articulação
Também foram levantadas dúvidas sobre os impactos indiretos da mudança na demanda por transporte. Como ainda não se sabe de que forma comércio, indústrias e demais empregadores reorganizarão suas jornadas de trabalho, permanece incerta a evolução futura dos fluxos de passageiros, especialmente no segmento de fretamento.
Participantes do encontro observaram que a reorganização das jornadas em outros setores da economia poderá alterar padrões de deslocamento hoje consolidados. Mudanças nos horários de funcionamento de empresas, indústrias, escolas, comércio e serviços podem produzir novos comportamentos de demanda, dificultando a previsão dos impactos que serão efetivamente sentidos pelos operadores de transporte.
Diante desse cenário, os participantes defenderam a necessidade de ampla articulação institucional. Federações, sindicatos, associações empresariais e entidades nacionais já acompanham as discussões e avaliam que qualquer mudança exigirá negociação envolvendo empresas, trabalhadores, governos e usuários dos sistemas de transporte.
“Perde-perde-perde”
Ao longo do debate, consolidou-se a percepção de que os impactos poderão atingir todos os envolvidos. Alguns participantes sintetizaram essa preocupação por meio da expressão “perde-perde-perde”, argumentando que as empresas enfrentarão custos maiores, os governos poderão ser obrigados a ampliar subsídios, os passageiros poderão absorver parte desses custos por meio de tarifas ou redução de serviços, e os próprios motoristas talvez não obtenham todos os benefícios esperados caso necessitem buscar fontes complementares de renda.
Representantes de entidades do setor destacaram ainda que a discussão ultrapassa a questão do aumento de custos. Na avaliação apresentada durante o debate, a mudança poderá afetar a competitividade do transporte coletivo como um todo, exigindo a revisão de modelos de financiamento, subsídios e mecanismos de equilíbrio econômico das operações para garantir a manutenção da oferta de serviços.
Apesar das preocupações levantadas, os debatedores reconheceram que ainda não existem respostas definitivas sobre qual modelo operacional, financeiro ou regulatório será adotado caso a mudança venha a ser aprovada. O entendimento predominante é que o setor ainda se encontra em fase de avaliação e construção de cenários.
A conclusão geral do encontro foi que a possível substituição da escala 6x1 pela 5x2 exigirá uma profunda reestruturação das escalas de trabalho, maior utilização de tecnologia para planejamento operacional, renegociação de contratos e mecanismos de financiamento, além de novos esforços para atrair e reter motoristas em um mercado que já enfrenta dificuldades de mão de obra.
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