O colapso que não começou nos terminais: por que o Brasil está perdendo passageiros e o que fazer para recuperá-los
Por Alex Carreiro, gestor público e especialista em mobilidade
Publicado em 15/06/2026 por Redação

Durante muito tempo, o debate sobre transporte coletivo no Brasil concentrou-se nos sintomas do problema. Falou-se sobre tarifas, frota, contratos, gratuidades, subsídios e infraestrutura. Todos esses temas são importantes, mas nenhum deles explica sozinho por que milhões de brasileiros deixaram de utilizar o ônibus nas últimas décadas.
A questão central é mais profunda: o transporte coletivo brasileiro perdeu competitividade e, em muitos casos, perdeu a confiança do passageiro. Os números mostram a dimensão desse processo. Em diversas cidades brasileiras, o Índice de Passageiros por Quilômetro (IPK), um dos principais indicadores de desempenho do setor, caiu de forma consistente ao longo das últimas décadas. Em termos práticos, isso significa que os sistemas passaram a transportar menos pessoas para a mesma estrutura operacional. O resultado foi um desequilíbrio progressivo que atingiu tanto a sustentabilidade financeira quanto a qualidade percebida pelos usuários.
Durante muito tempo, a explicação dominante foi a concorrência do automóvel, das motocicletas e, mais recentemente, dos aplicativos de transporte. Embora esses fatores tenham influência, eles não explicam integralmente o fenômeno. Em muitos casos, o passageiro não abandonou o ônibus porque encontrou uma alternativa mais barata. Ele abandonou porque encontrou uma alternativa mais previsível, mais confortável ou mais compatível com suas necessidades.
O problema se agravou porque a maioria dos sistemas brasileiros permaneceu dependente de um modelo de financiamento baseado quase exclusivamente na tarifa paga pelo usuário. Quando a demanda cai, a arrecadação diminui. Quando a arrecadação diminui, cresce a pressão para reajustar tarifas ou reduzir a oferta. E quando a oferta piora ou a tarifa aumenta, mais passageiros deixam o sistema. Forma-se, assim, um ciclo de deterioração que se retroalimenta.
A consequência é conhecida por gestores públicos, operadores e usuários. Ônibus mais vazios financeiramente, mas mais lotados nos horários de pico. Menor capacidade de investimento. Perda de atratividade. E um sistema que passa a transportar principalmente os passageiros que não possuem outra alternativa de deslocamento.
O transporte coletivo deixa de ser uma escolha e passa a ser uma imposição. É justamente nesse ponto que surge a necessidade de uma mudança de paradigma. A pergunta que deve orientar o setor não é apenas como financiar o transporte. A pergunta é como reconquistar o passageiro.
Reconquistar o passageiro significa compreender que a decisão de utilizar o transporte coletivo não depende exclusivamente do preço da passagem. Tempo de viagem, frequência, confiabilidade, conforto, integração, informação ao usuário e qualidade da experiência são fatores igualmente determinantes.
As experiências mais bem-sucedidas no Brasil e no exterior mostram que sistemas eficientes combinam três elementos fundamentais: fontes de financiamento mais diversificadas, prioridade operacional para o transporte coletivo e foco permanente na experiência do usuário. Isso significa reconhecer que o transporte coletivo não é apenas um serviço. É infraestrutura urbana essencial. É um instrumento de acesso ao trabalho, à educação, à saúde e às oportunidades econômicas.
O desafio colocado para as cidades brasileiras não é apenas recuperar indicadores de demanda. É reconstruir a relação de confiança entre o sistema e o cidadão.
A reconquista do passageiro não acontecerá por uma medida isolada, nem por uma única inovação tecnológica. Ela dependerá da capacidade de governos, operadores e sociedade compreenderem que o transporte coletivo precisa voltar a ocupar uma posição central na estratégia de desenvolvimento urbano.
O futuro do setor não será definido apenas pelo número de ônibus em circulação, mas pela capacidade de tornar o transporte coletivo novamente relevante para quem pode escolher.
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