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Carroceria diferente, mesmo motor: o que os números do TRIP escondem atrás da marca

Por Ilo Löbel da Luz, especialista em Regulação da ANTT para o Transporte Rodoviário Interestadual de Passageiros (TRIP)

Publicado em 05/08/2026 por Redação

Ilo Löbel da Luz , advogado e consultor Jurídico especializado no setor de transportes (Divulgação)
Ilo Löbel da Luz , advogado e consultor Jurídico especializado no setor de transportes (Divulgação)

Quem olha uma frota de ônibus na rodoviária vê marcas diferentes, cores diferentes, letreiros diferentes. Parece um mercado cheio de concorrentes. Os dados oficiais da ANTT para 2024 e 2025 mostram outra coisa: por trás de boa parte dessas carrocerias distintas, o motor é o mesmo. Dez grupos econômicos concentram 61% de toda a demanda nacional do Transporte Rodoviário Interestadual de Passageiros. Dois deles sozinhos, JCA e Guanabara, somam 27,5%, mais do que qualquer empresa isolada consegue sozinha, já que nenhuma passa de 8%. 

O setor soma perto de 200 empresas em operação, dependendo do recorte temporal. Esse número, olhado sozinho, sugere um mercado pulverizado. Só que contar empresa é como contar carroceria: informa a variedade visível, não revela quem projeta o motor.

 

Quatro motores, várias carrocerias

Consolidando empresas pelo grupo econômico que efetivamente as controla, quatro conjuntos aparecem com composição confirmada nesta análise. Auto Viação Catarinense, Auto Viação 1001 e Viação Cometa competem entre si no letreiro, mas respondem ao mesmo motor, identificado aqui como grupo JCA. Juntas, somam 15,30% do mercado nacional, quase o dobro da líder isolada do ranking individual, a Viação Águia Branca, com 7,44%. 

O mesmo padrão aparece no grupo Guanabara, que reúne Consórcio Guanabara de Transportes, Expresso Guanabara, UTIL, Rápido Federal e Real Expresso, somando 12,24% da demanda nacional. Cinco marcas na estrada, um motor no comando.

 

Nem todo motor grande roda igual

A tentação é achar que motor grande aguenta qualquer estrada. Os dados desmentem isso. No ano em que o mercado nacional recuou 9,42% em passageiros transportados, o grupo JCA recuou pouco, 5,43%, o grupo GBS cresceu 18,23%, na contramão da retração, enquanto Guanabara caiu 26,66% e Comporte, 42,73%. Dentro do próprio grupo Guanabara, a maior queda absoluta de todo o mercado está concentrada numa única marca, o Consórcio Guanabara de Transportes, que foi de 1.797.695 passageiros em 2024 para 613.638 em 2025. Nenhuma dessas variações tem explicação disponível nos dados agregados. O motor grande não é sinônimo de suspensão que absorve todo buraco da estrada. 

O próprio número de empresas em operação confirma esse relevo desigual. O Panorama TRIIP 2025, publicação oficial da ANTT, contabiliza 176 empresas ativas em 2025, contra 197 que tiveram passageiro transportado em algum momento do biênio completo. A diferença, 21 empresas, é frota que saiu de circulação, incluindo ao menos um caso de recuperação judicial, contra apenas 11 que entraram na estrada.

 

O que os índices de concentração confirmam

A economia da concorrência usa métricas específicas para medir isso, as mesmas aplicadas pelo CADE, pela Comissão Europeia e pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos. Aplicadas aos quatro grupos identificados aqui, JCA, Guanabara, GBS e Comporte, o CR3 chega a aproximadamente 35%, o CR5 alcança 47,5%, e o CR10, já publicado pela própria ANTT, atinge 61%. 

Vale um alerta técnico. O terceiro lugar do CR3 é ocupado pela Águia Branca, empresa sem grupo econômico identificado nesta análise. Se ela também integrar um conglomerado ainda não mapeado, o CR3 real é maior que 35%, não menor. Os números aqui representam o piso da concentração, não o teto.

 

Três categorias de veículo na mesma frota nacional

A consolidação revela uma estrutura em três níveis. No topo, grandes grupos nacionais, com presença em múltiplas regiões e capacidade de redistribuir frota entre marcas conforme a demanda de cada corredor. No meio, grupos regionais de médio porte, que dominam corredores específicos sem ambição de escala nacional. Na base, empresas independentes, que sobrevivem pela especialização e pela proximidade com o mercado que atendem. 

Cada categoria compete numa pista diferente. Uma empresa independente que tenta rodar na pista de um grupo nacional gasta combustível tentando parecer maior do que é. Um grupo regional que abandona sua vantagem de proximidade para copiar estratégia de escala nacional sai da única pista onde já lidera.

 

A pergunta que fica para quem dirige a operação

Concorrência no TRIP não se mede pelo número de letreiros na garagem. Mede-se pelo número de motores que realmente decidem para onde a frota vai. Antes de comparar sua operação com a empresa que estaciona ao lado na rodoviária, vale checar embaixo do capô: ela é dona de si mesma, ou é só mais uma carroceria de um motor que você ainda não identificou?


Fonte dos dados: informações estatísticas elaboradas pela Gerência de Monitoramento de Serviços e Projetos Especiais do Transporte de Passageiros (Gemon), vinculada à Superintendência de Serviços de Transporte Rodoviário de Passageiros (SUPAS) da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), constantes dos autos do Processo Administrativo SEI/ANTT nº 50001.144013/2026-03, e no Panorama TRIIP 2025 – Dados Estatísticos, publicação oficial da ANTT. A consolidação de empresas por grupos econômicos, os indicadores de concentração e as análises interpretativas são de autoria de Ilo Löbel da Luz. Este trabalho possui natureza analítica e não representa manifestação institucional da ANTT.

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