ENTREVISTA: Fernando Prado, CEO da ClickBus
A ClickBus realizou, no dia 15 de setembro, a segunda edição do ClickBus Academy. A Technibus acompanhou o encontro e traz uma entrevista com o CEO da empresa, abordando o uso da IA no dia a dia das empresas de transporte rodoviário
Publicado em 18/09/2026 por Márcia Pinna

Technibus - Como foi a segunda edição do ClickBus Academy e quais as novidades que a empresa apresentou?
Fernando Prado - Este é um evento em que juntamos a maioria dos nossos parceiros de operadoras de transporte, de diferentes áreas dessas empresas e níveis hierárquicos. É uma oportunidade para fazermos muita troca do que temos pensado e lançado, e também entender um pouco do dia a dia das viações, as necessidades e os maiores desafios. Com base nisso, replanejamos tudo o que fazemos "dentro de casa." Como marketplace, às vezes somos mais conhecidos pela parte do B2C, em que o viajante acessa a ClickBus para comprar a sua passagem. Mas este evento é exatamente o outro lado da moeda: é quando nos encontramos com os operadores, para quem fazemos todo este trabalho de tecnologia e de marketing, para encher cada vez mais os ônibus deles.
Falando de novidades, temos uma série de produtos e serviços novos para as viações, a grande maioria ligada à inteligência de dados. Na ClickBus temos uma quantidade gigantesca de dados e trabalhamos todos os dias para os analisar e trazer insights para as viações: ideias e sugestões que vão desde questões menos operacionais até questões bem práticas, como em quais rotas deveriam aumentar ou diminuir o número de serviços, preços, descontos ou dias da semana.
Para melhorar ainda mais todo este enredo, já faz dois anos que usamos inteligência artificial (IA) de forma muito profunda na ClickBus, por isso todo este processo foi acelerado. Se há dois anos precisávamos de semanas para fazer uma análise interessante, hoje conseguimos fazê-la em um dia. A quantidade de serviços e produtos que desenvolvemos potencializa-se com o uso da inteligência artificial.
Technibus - Sobre a inteligência artificial, do ponto de vista prático, como ela pode ajudar esse operador no dia a dia?
Fernando Prado - Um dos produtos que mais utilizamos com os operadores atualmente chama-se Click Oferta. Trata-se de, em conjunto com o operador, fazer um planeamento de quais lugares a ClickBus pode comprar com antecedência para trabalhar a venda ao longo de um certo período, com o objetivo de garantir uma venda super antecipada e caixa para a viação.
Antes da inteligência artificial, para cada proposta de Click Oferta, debruçávamo-nos sobre dados e demorávamos dias para chegar a uma proposta bem-feita. Hoje conseguimos gerar propostas em questão de minutos, e elas saem ainda mais interessantes porque acessam não só dados internos da ClickBus, mas também a dados externos, como buscas, tendências e eventos. A inteligência artificial otimizou tanto a precisão como a velocidade do Click Oferta, que é uma das nossas principais ofertas para as viações.
Technibus - Você acredita que os operadores do setor rodoviário estão abertos a utilizar de forma efetiva a inteligência artificial? Ainda há muito potencial para ampliar seu uso, mas a adesão está na velocidade esperada?
Fernando Prado - A adoção dos operadores, como vimos noutras tecnologias, é um pouco mais lenta, mas claramente todos já se deram conta do poder e da velocidade que isto traz. A implementação ainda não está na velocidade em que estará em alguns meses, mas esse é o nosso papel: ser o desbravador de novas tecnologias, colocá-las em prática e demonstrar o valor para as viações. Como consequência, elas vão entender isso de forma mais prática e acelerar a adoção. Daqui a alguns anos, todos estarão a utilizar isto de forma bastante efetiva.
Technibus - E quanto ao índice do setor rodoviário, lançado em maio deste ano em parceria com a Fipe, como está a ser a procura das empresas por esses dados? Elas estão fazendo uso dele para o planejamento das operações?
Fernando Prado - Com certeza. As empresas estão o tempo todo a acessar e a questionar, não somente sobre o índice em si, mas sobre as diversas divisões que fazemos. Uma coisa é o índice geral que publicamos, mas dele temos várias divisões, como o índice específico de rotas intermunicipais versus rotas interestaduais e várias outras segmentações. O uso vai além do setor: vemos outros segmentos a utilizar o índice, inclusive o segmento da aviação. Para dar um dado, o nosso índice de julho mediu que os preços das passagens de ônibus. Comparando julho deste ano com julho do ano anterior, os preços cresceram cerca de 5,1%. Já esse mesmo índice, aplicado às passagens aéreas, superou os 42%. Isto mostra a discrepância de como cada segmento reage aos aumentos do combustível. O segmento aéreo acaba por repassar tudo para o consumidor final, enquanto o rodoviário faz um trabalho muito forte para compensar internamente esse aumento, pois não tem como repassar o valor. O índice deixa isso muito claro: 5% versus 42%, sendo que todos passaram pelo aumento do combustível. Este índice dá mais clareza em relação à elasticidade do valor da passagem de ônibus e mostra como o setor é resiliente a essas crises.
Technibus - O passageiro do rodoviário é mais sensível aos aumentos de preço do que o passageiro do aéreo. O preço faz muita diferença no setor.
Fernando Prado - Com certeza. Mas também vemos um movimento no último ano, exatamente por essa discrepância de aumento de preços: muitos viajantes do modal aéreo estão a migrar para o modal rodoviário. O interessante é que essas pessoas já são 100% digitais, então acabam por ir para a ClickBus para fazer essa mudança. Vemos comportamentos diferentes dos utilizadores habituais, destacando dois deles: primeiro, uma antecipação de compra muito maior do que a média, pois quem viaja de avião tem esse hábito e mantém no rodoviário - o que é ótimo para as empresas de ônibus no planeamento de frota e de motoristas. Segundo, uma mudança no mix de classe de serviço: vemos estas pessoas a escolher classes premium (leito cama, leito ou executivo) versus a média geral, que varia entre o convencional e o executivo.
Technibus - E as companhias aéreas consultam o índice para fazer esse paralelo e entender o mercado rodoviário como concorrente?
Fernando Prado - Exatamente. Lembrando que no Brasil existem cerca de 150 aeroportos comerciais versus 4.000 a 5.000 rodoviárias, pelo que as possibilidades de rotas no rodoviário são imensamente maiores. Mas nas rotas onde o aéreo é muito forte, conseguimos fazer uma comparação completa entre os valores. Vemos as companhias aéreas a usar isso para adaptar estratégias ou definir onde devem fazer mais promoções.
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