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Por um transporte mais diversificado e empático

À frente da Associação dos Transportadores de Passageiros (ATP) de Porto Alegre, que representa as 11 empresas da capital do Rio Grande do Sul, e diretora da Viação Teresópolis Cavalhada, Tula Vardaramatos se destaca como uma das mais importantes lideranças no setor de transporte coletivo e mobilidade. Em entrevista à Technibus 179, a empresária apresenta um panorama do transporte por ônibus em Porto Alegre e comenta os principais assuntos que norteiam as discussões sobre mobilidade no Brasil, além de contar suas próprias experiências como dirigente feminina no mundo dos transportes

Publicado em 19/03/2026 por Márcia Pinna

Tula Vardaramatos, presidente da ATP (Divulgação)
Tula Vardaramatos, presidente da ATP (Divulgação)

Technibus - Quais as principais novidades no transporte coletivo de Porto Alegre em 2025?

Tula Vardaramatos - O último ano consolidou uma etapa fundamental de modernização e transformação digital. Avançamos na renovação da frota com veículos de menor impacto ambiental e implementamos melhorias robustas no sistema de bilhetagem. O grande diferencial tem sido o uso estratégico de dados para a gestão da operação, o que permite ajustes mais ágeis. Um exemplo disso, foi o lançamento do Tri GPS, em novembro de 2025, desenvolvido para apoiar o planejamento de viagens no transporte público de Porto Alegre, utilizando dados de geolocalização para informar ao cliente da forma mais ágil e simples, sobre o tempo de chegada e de deslocamento da linha selecionada. Além disso, investimos na confiabilidade: hoje, o passageiro conta com monitoramento em tempo real e canais de informação mais transparentes, como a presença frequente nas redes sociais do @cartaotri, aproximando a tecnologia da rotina das pessoas.

Technibus - Há previsão de renovação de frotas para 2026 ou de outros investimentos?

Tula Vardaramatos - Nossa perspectiva para 2026 é otimista, mas ancorada na estabilidade regulatória. O planejamento para novos veículos prioriza eficiência energética e acessibilidade plena. No entanto, o ritmo desses investimentos depende diretamente do equilíbrio econômico-financeiro do sistema. Paralelamente à frota, nosso foco está na tecnologia embarcada e na qualificação da infraestrutura. Queremos investir, mas precisamos de previsibilidade contratual e fontes de financiamento sustentáveis.

Technibus - Como a senhora avalia o processo de descarbonização em Porto Alegre? A eletrificação é o melhor caminho?

Tula Vardaramatos - A descarbonização é uma jornada irreversível e necessária. A eletrificação é, sem dúvida, um pilar, mas não deve ser vista como a única solução imediata. Precisamos de um pragmatismo ambiental: enquanto a infraestrutura para elétricos amadurece, os biocombustíveis e as misturas de transição oferecem resultados imediatos e economicamente viáveis. O melhor caminho é uma transição planejada e tecnicamente diversificada, que reduza emissões sem comprometer a continuidade do serviço.

Technibus - Sobre a sua atuação na Viação Teresópolis Cavalhada, quais as maiores dificuldades enfrentadas pelo empresário de ônibus?

Tula Vardaramatos - O maior desafio é equilibrar uma equação complexa: custos operacionais em ascensão (como combustível e manutenção), queda histórica na demanda e a urgência de elevar o padrão de qualidade. Operamos em um cenário de insegurança jurídica e escassez de linhas de crédito para longo prazo. Ser empresário de transporte hoje é, acima de tudo, um exercício de resiliência e compromisso social, já que gerimos um serviço essencial sob regras que nem sempre acompanham a velocidade das mudanças do mercado.

Technibus - Como a senhora se sente como uma liderança feminina em um setor tradicionalmente masculino?

Tula Vardaramatos - Sinto uma responsabilidade imensa e, ao mesmo tempo, um grande orgulho. Ocupar esse espaço exige a construção de uma credibilidade inquestionável, pautada em entrega técnica e gestão de resultados. No meu caso, tive o privilégio de participar de todos os setores da empresa, desde jovem, com o estímulo de meu pai e o apoio de minha mãe, uma oportunidade que nem todas as mulheres tinham na ocasião.  Minha presença — e a de outras mulheres — quebra paradigmas e humaniza o setor. Acredito que a liderança feminina traz um olhar mais empático e multifacetado, essencial para modernizar ambientes corporativos que, por muito tempo, foram excessivamente rígidos.

Technibus - Como as mulheres podem contribuir para a melhoria da mobilidade? Como abrir mais oportunidades?

Tula Vardaramatos - Na minha percepção, as sucessoras mulheres necessitam de um ambiente familiar favorável para ascensão nos cargos de liderança. Também é importante procurarem qualificação e prática dentro da área. As mulheres possuem uma percepção refinada sobre a experiência do usuário, especialmente em temas como segurança, acolhimento e acessibilidade. Para ampliar esse protagonismo, precisamos ir além do discurso: é necessário investir em programas de formação técnica para mulheres e criar políticas de ascensão que valorizem o mérito e a diversidade. Quando o transporte é pensado também por mulheres, ele se torna mais inclusivo para toda a sociedade. Por este motivo, foi anunciada no ultimo Seminário da NTU, em Brasília, a criação do programa NTU Mulher, projeto desenvolvido para fomentar o interesse feminino no setor de mobilidade urbana.

Technibus - Qual a sua expectativa para o setor em 2026? As eleições devem ter impactos positivos?

Tula Vardaramatos - Espero um ambiente de diálogo mais amadurecido entre o poder público e os operadores. O ano de 2026, por ser eleitoral, naturalmente coloca a mobilidade no centro do debate. Minha expectativa é que esse período sirva para consolidar discussões sérias sobre subsídios e fontes alternativas de financiamento. O transporte não pode ser usado como plataforma política de curto prazo, mas sim como um projeto de Estado, focado na recuperação da demanda e na dignidade do passageiro.

Technibus - Qual a importância da aprovação do Marco Legal do Transporte Público?

Tula Vardaramatos - O Marco Legal é o nosso divisor de águas. Ele traz a segurança jurídica necessária para que possamos planejar o futuro com menos incertezas. Ao definir claramente as responsabilidades de cada ente e estabelecer diretrizes modernas de financiamento, o Marco Legal retira o peso exclusivo da tarifa sobre o passageiro, permitindo um sistema mais justo, estável e capaz de receber investimentos de longo prazo.

Technibus - Qual a sua opinião sobre a Tarifa Zero?

Tula Vardaramatos - É um conceito instigante que coloca a mobilidade como um direito social básico, mas não existe 'almoço grátis'. A grande questão não é a gratuidade na catraca, mas quem paga a conta da operação. Para ser viável, a Tarifa Zero exige fontes de custeio robustas e perenes, externas ao sistema de transporte. Sem um modelo de financiamento sólido, corre-se o risco de sucatear o serviço por falta de investimento. O foco deve ser sempre a sustentabilidade da operação.


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