“O momento é de incerteza”, avalia Walter Barbosa da Mercedes-Benz
Em entrevista à Technibus, o vice-presidente de Vendas, Marketing e Peças & Serviços Ônibus da Mercedes-Benz do Brasil analisa o mercado de ônibus neste ano e comenta as expectativas em relação a 2027
Publicado em 23/10/2026 por Márcia Pinna

O ano de 2027 tem sido desafiador para o mercado de ônibus. Até setembro, foram 17 mil ônibus emplacados, o que representa uma queda de 4% em relação ao mesmo período do ano passado, de acordo com os números divulgados pela Anfavea. Walter Barbosa, vice-presidente de Vendas, Marketing e Peças & Serviços Ônibus da Mercedes-Benz do Brasil, destaca que este ano foi diferente do ponto de vista de comportamento de mercado.
“Se você analisar pela questão de volume, não é ruim. Tivemos dois anos excepcionais, que foram 2024 e 2025. Em 2025, tivemos o maior mercado dos últimos 10 anos, com 23.700 unidades. Então, tivemos dois anos muito bons, e este ano, em termos de volume, não é ruim por estar 4% abaixo desse patamar. Devemos terminar o ano entre 19.500 e 20.000 unidades. É uma queda em relação ao ano passado, mas, em termos de volume, também não é um resultado ruim”, avalia.
O que chama a atenção do executivo é que praticamente 35% das vendas foram compras governamentais, em programas como "Caminho da Escola" e "Caminho da Saúde", além de licitações pontuais de menor volume espalhadas pelo Brasil. O governo comprou aproximadamente cinco mil ônibus este ano.
Por outro lado, os demais segmentos que normalmente são os pilares do mercado de ônibus — urbano, fretamento e rodoviário — tiveram quedas importantes de volume. Por ordem de queda, o fretamento caiu 12%, o urbano caiu 17% e o rodoviário caiu 27%.
“O ano eleitoral gera muitas incertezas, especialmente quando há uma polarização alta. Ninguém sabe para que lado o país vai e todos seguram os investimentos. Isso gera insegurança para qualquer novo investimento. O outro lado é a taxa de juros. Quando falamos em algo entre 13,75%, 14% ou até 15%, como chegamos este ano, é muito alto e não justifica para os investidores e operadores fazerem renovações de frota, que fica muito cara”, observa.
O terceiro fator que afetou a renovação das frotas, segundo Walter Barbosa, é a incerteza sobre as tecnologias para descarbonização do transporte coletivo. Cada município quer discutir uma nova tecnologia, mas sem o devido planejamento. “Determinada prefeitura exige ônibus elétrico, outra quer a gás, outra discute se pode ser Euro 6 ou não. Cada município toma uma direção muito mais com propósito político, infelizmente. As novas tecnologias são muito bem-vindas, mas se não houver um planejamento de longo prazo, se não houver estrutura de financiamento e infraestrutura, o tiro pode sair pela culatra”, alerta.
A Lat.Bus 2026 foi um dos acontecimentos que marcaram o mercado de ônibus neste ano de forma positiva. Na opinião do executivo, a feira foi um sucesso, com grande visitação ao estande da Mercedes-Benz. “As pessoas vão para se planejar, conhecer novidades, entender as tendências e tecnologias, além de se relacionar com os operadores para entender a demanda. Não é normalmente um local onde se fecham negócios, a menos que haja obrigatoriedade ou necessidade imediata de renovação. Consideramos a feira excepcional, com um volume de visitação estratosférico”, comenta.
Incógnitas em relação a 2027
Para 2027, a expectativa é que as compras governamentais não devam manter o mesmo nível deste ano. “Por outro lado, os segmentos urbano, rodoviário e fretamento, que não performaram tão bem em volume este ano, podem ter uma oportunidade melhor no ano que vem devido à perspectiva de redução da taxa Selic”, diz.
Na visão do executivo, os riscos no horizonte envolvem perguntas sem resposta exata no momento. Por exemplo: o fim da escala 6x1 e a mudança para 5x2 terá impacto nas empresas de transporte, que pode representar cerca de 17% de aumento na folha de pagamento, que já equivale a 40% do custo operacional do transporte. “Não há como isso não afetar o custo do transporte se nada for feito para compensar”, afirma.
Outro ponto é se o subsídio do governo ao diesel vai continuar. “Também há a reforma tributária, com a transição do PIS/Cofins para a CBS (Contribuição sobre Bens e Serviços), que pode gerar impactos no setor. Meu feeling é de que as compras governamentais devem cair, enquanto o urbano e o micro-ônibus devem ter um desempenho melhor, dependendo de como essas variáveis vão se comportar”, acredita.
Passe livre
Na última quarta-feira (21), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) anunciou o envio de uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) para implementar a tarifa zero no transporte coletivo aos fins de semana e feriados em todo o país, o que irá alterar o cenário do setor, caso seja aprovada.
Na visão de Walter Barbosa, a proposta de tarifa zero nos finais de semana para o usuário é excelente. Para o operador, é positivo desde que ele receba o repasse adequadamente. “A tarifa zero aumenta a demanda e o número de passageiros, o que exige mais ônibus em circulação e acelera a renovação da frota. Isso favorece o setor de transporte urbano. A grande questão é definir de onde virão os recursos e como garantir a sustentabilidade do modelo ao longo dos anos.”
“Implantar tarifa zero no Brasil todo aos finais de semana exige muito planejamento de infraestrutura e definição orçamentária para não colapsar o sistema com o aumento repentino da demanda. Se houver clareza sobre a origem dos recursos, é uma medida excelente; sem isso, torna-se arriscado”, declara o vice-presidente de Vendas, Marketing e Peças & Serviços Ônibus da Mercedes-Benz do Brasil.
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