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Fim da 6x1 pode exigir 21% mais motoristas no setor de transporte de passageiros

Simulação aponta alta de custos, pressão sobre contratos e maior complexidade operacional no fretamento

Publicado em 13/08/2026 por Valeria Bursztein

Wan Yu Chih, diretor da WPlan & Software (Márcio Bruno Photo)
Wan Yu Chih, diretor da WPlan & Software (Márcio Bruno Photo)

O fim da escala 6x1 pode obrigar empresas de transporte de passageiros a ampliar em cerca de 21% o quadro de motoristas, além de elevar custos e provocar uma rodada de renegociação de contratos no fretamento. A estimativa resulta de simulações apresentadas por Wan Yu Chih, diretor da WPlan & Software, empresa de software especializada em planejamento operacional e escalas de motoristas, no painel Fim da Escala 6x1 e Impactos no Fretamento, realizado no Encontro de Fretamento - Fresp e Anttur, durante a Lat.Bus 2026.

O estudo considerou uma operação hipotética com 100 ônibus nos dias úteis, 90 aos sábados e 60 aos domingos. Na passagem para uma jornada de cinco dias de trabalho e duas folgas semanais, a necessidade de motoristas aumentaria 21%.

O impacto, segundo Chih, não se limita à contratação. A mudança atingiria cinco pontos centrais da operação: custos, quantidade de motoristas, acordos trabalhistas, contratos com clientes e gestão das escalas. “Caso a lei venha a ser aprovada, nós teremos a maior mudança na vida das empresas de transporte desde a criação da CLT, em 1943”, afirmou.

Custo pode subir até 17% na simulação

O tamanho do impacto financeiro dependerá também de como ficará a jornada diária. Chih explicou que foram analisados mais de 100 acordos trabalhistas e que, atualmente, a referência de 44 horas semanais distribuídas em seis dias resulta em jornada diária de 7h20.

Se uma eventual jornada de 40 horas semanais em cinco dias permitir oito horas diárias, o custo dos motoristas subiria 6% na operação simulada. Caso prevaleça a manutenção das 7h20 diárias, o aumento chegaria a 17%.

A discussão cria um desafio adicional para um setor que já convive com escassez de profissionais. Em pesquisa nacional apresentada durante o painel, 62% dos respondentes relataram grande dificuldade para contratar motoristas.

A combinação entre menor jornada semanal e falta de mão de obra preocupa as empresas porque a escala planejada raramente permanece intacta na operação. Faltas, atestados e outras ocorrências exigem substituições ao longo do dia e podem aumentar a pressão sobre os quadros disponíveis. Durante o debate, foi levantado inclusive o risco de que a necessidade de preencher vagas rapidamente fragilize processos de seleção e contratação.

Contratos entram na discussão

Para absorver o aumento de custos, Chih trabalha com três cenários: manutenção da oferta com reajuste do valor pago pelo contratante; redução da oferta para preservar o custo atual; ou uma solução intermediária, combinando as duas alternativas.

Uma pesquisa realizada em conjunto com a Associação Nacional das Empresas de Transportes Urbanos (NTU), com respondentes que representam aproximadamente 34 mil dos 107 mil ônibus urbanos considerados no levantamento, mostrou que 74% esperam que o aumento de custos resulte em pressão sobre tarifas. No fretamento, segundo Chih, efeito semelhante poderia aparecer na forma de renegociação dos contratos. Outros 35% projetaram redução da oferta.

Os números devem ser vistos com cautela porque a pesquisa foi realizada com empresas do transporte urbano, e não especificamente de fretamento. Chih, no entanto, considera que parte dos desafios tende a se repetir no segmento.

ANTTUR vê escala como principal preocupação

Em entrevista à Technibus, o recém empossado presidente da Associação Nacional dos Transportadores de Turismo e Fretamento (ANTTUR), Emerson Imbronizio, afirmou que o setor ainda tenta dimensionar os efeitos de duas mudanças simultâneas: a reforma tributária e uma eventual alteração da jornada de trabalho.

“Agora é a hora de calcular. Todos os associados vêm pedindo: ‘nós precisamos de um estudo melhor’. É isso que a gente está tentando buscar, porque vai impactar muito o nosso segmento”, afirmou.

Para Imbronizio, neste momento, a mudança da escala preocupa mais do que a reforma tributária. “O pior eu ainda vejo com a escala cinco por dois”, disse.

Há ainda uma variável fora das empresas de fretamento: o comportamento de seus clientes. Como parcela relevante da demanda está ligada ao transporte de funcionários da indústria, mudanças nas jornadas e nos dias de funcionamento das fábricas podem alterar horários, número de viagens e dimensionamento das frotas. Zanca observa que as empresas ainda não sabem se seus contratantes manterão a produção atual absorvendo custos maiores ou se reduzirão a atividade.

Folga adicional pode virar segundo trabalho

Outro ponto levantado no painel é se a segunda folga semanal resultará efetivamente em mais descanso. Na pesquisa apresentada por Chih, 73% dos respondentes acreditam que motoristas poderão utilizar o dia adicional para exercer outra atividade remunerada.

Zanca afirma que esse comportamento já pode ser observado entre profissionais do setor. Segundo ele, há motoristas que, após encerrar a jornada, trabalham em plataformas de transporte ou entrega.

A questão ganha peso porque uma das justificativas para a redução da jornada é justamente melhorar a qualidade de vida do trabalhador. Para as empresas, porém, o eventual acúmulo de atividades também coloca em discussão descanso, fadiga e segurança.

Escalas ficam mais complexas

Além de custos e contratação, a mudança exigiria uma reformulação do planejamento operacional. Chih mostrou que modelos hoje utilizados pelas transportadoras trabalham com diferentes sequências de folgas conforme o perfil da operação. No fretamento, há serviços com forte concentração nos dias úteis, enquanto outros têm demanda relevante aos fins de semana.

Com duas folgas semanais e a necessidade de acomodar descansos dominicais, as combinações aumentam significativamente. Em uma das simulações apresentadas, o novo modelo chegou a 27 sequências possíveis, tornando mais complexa a escolha das combinações capazes de atender à operação com o menor número possível de motoristas.

Por isso, a recomendação é não esperar uma eventual aprovação das mudanças para começar os estudos. “As empresas comecem desde agora a se preparar”, afirmou Chih. O trabalho inclui simular diferentes jornadas, calcular a necessidade adicional de profissionais, avaliar o impacto sobre os custos, antecipar negociações trabalhistas e discutir com os clientes como os contratos poderão absorver a nova realidade.

Para o fretamento, portanto, o debate sobre o fim da 6x1 vai além da definição de quantos dias o motorista trabalhará por semana. Dependendo do desenho aprovado, a mudança poderá atingir simultaneamente disponibilidade de mão de obra, custos, preços, contratos e a própria capacidade das empresas de montar e executar suas operações.


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