UITP destaca que e-BRT exige integração entre energia, operação e tecnologia
Balanço do curso realizado durante a Lat.Bus 2026 mostra que eletrificação de corredores vai muito além da substituição dos ônibus e envolve infraestrutura, contratos, governança e dados
Publicado em 14/09/2026 por Alexandre Asquini
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A UITP América Latina divulgou neste início de setembro, por meio de suas redes sociais, um balanço do curso Bus Rapid Transit System & Electric BRT, realizado nos dias 12 e 13 de agosto, em São Paulo, durante a Lat.Bus 2026. A principal conclusão da entidade é que um e-BRT não pode ser entendido apenas como um corredor operado por ônibus elétricos. A eletrificação modifica o conjunto do sistema e exige a integração entre veículos, energia, infraestrutura, operação, contratos, governança e dados.
Realizado com 28 participantes, entre representantes de autoridades, operadores e especialistas, o curso reuniu experiências da América Latina e de outras regiões e apresentou parte dos conhecimentos produzidos pelo projeto eBRT2030, coordenado pela UITP e financiado pela União Europeia. A proposta foi discutir os desafios que surgem quando um sistema BRT passa a depender também da infraestrutura elétrica e de uma nova camada de informações necessária à operação.
Na avaliação apresentada pela UITP, a eletrificação deve ser planejada como uma transformação sistêmica. Em um BRT convencional, veículo, infraestrutura e operação já são interdependentes. Com a introdução da propulsão elétrica, a bateria passa a influenciar a configuração do veículo, enquanto a potência disponível, a infraestrutura de recarga e a energia consumida passam a fazer parte do planejamento e da rotina operacional.
Recarga depende da operação
Um dos pontos destacados no curso foi a inexistência de uma estratégia única para a recarga. Foram consideradas alternativas como recarga lenta, rápida, de oportunidade, por indução e em movimento. Cada solução produz diferentes efeitos sobre autonomia, peso das baterias, potência, custos, disponibilidade da frota e infraestrutura necessária.
Por isso, segundo a abordagem apresentada no curso, a escolha da tecnologia deve partir das características da operação e levar em conta, desde o início, a capacidade da rede elétrica. A experiência de Santiago, no Chile, mostrou a dimensão que essa questão pode alcançar em operações de maior escala.
Diego Fuentes, da chilena Metbus, apresentou a trajetória iniciada em 2017 com dois ônibus elétricos e que chegou a 950 veículos, dez terminais e 300 carregadores. A escala da operação levou a empresa a integrar recarga, planejamento e despacho. A experiência mostrou também a necessidade de considerar a estrutura de distribuição e fornecimento de energia desde as primeiras etapas de um projeto de eletrificação.
Curitiba e a transformação do sistema
As iniciativas em Curitiba foram apresentadas como um caso de evolução contínua do sistema, dos corredores exclusivos aos ônibus articulados, biarticulados, híbridos e elétricos. Angelo Gulin, da Curitibus e da Autoviação Redentor, apresentou essa trajetória, enquanto Maurício Gulin, do CWBUS e do Grupo Sorriso, detalhou o processo de implantação dos ônibus elétricos, envolvendo avaliação dos pátios, projetos, obras, testes, capacitação e articulação institucional. Segundo as informações apresentadas no curso, os veículos monitorados em Curitiba percorreram 560 mil quilômetros em 2025, evitando a emissão de cerca de 600 toneladas de CO₂.
A experiência curitibana também foi utilizada para mostrar a importância da governança. Marcello Lauer, do IBETA, abordou a relação entre dados, contratos, subsídios, financiamento e verificação contínua dos resultados. A avaliação da mobilidade, nesse contexto, deve considerar não apenas o cumprimento de contratos, mas o acesso efetivamente proporcionado à cidade.
Estrutura empresarial também precisa mudar
A experiência da Cidade do México acrescentou outra dimensão ao processo de transformação. Nicolas Rosales, da Associação Mexicana de Transporte e Mobilidade (AMTM) e do Corredor Insurgentes, um dos principais da Cidade do México, mostrou que a modernização começou antes da eletrificação.
A passagem de operadores individuais para empresas estruturadas permitiu organizar responsabilidades, remuneração e indicadores e criou condições para a eletrificação da Linha 3 do Metrobús. O caso foi apresentado como exemplo de que a mudança da matriz energética pode estar associada a uma transformação da própria estrutura empresarial e operacional do transporte.
Dados passam a fazer parte da operação
Outro eixo do curso foi a crescente importância dos dados. Planejamento, despacho, manutenção e recarga precisam compartilhar informações sobre serviços, localização dos veículos, estado das baterias, falhas, horários e potência.
A integração dessas informações é necessária tanto para a gestão do operador quanto para o acompanhamento do serviço pelas autoridades e para a informação fornecida aos passageiros. Na avaliação da UITP, essa sincronização depende de tecnologias interoperáveis e de padrões capazes de conectar os diferentes sistemas.
A experiência de Chongqing, na China, apresentada por Felicia Wu, mostrou a importância dessa integração em operações de grande escala. Em uma operação noturna de recarga, um mesmo conector pode atender três ou quatro ônibus em uma janela curta. Uma falha pode comprometer os primeiros serviços do dia seguinte. Por isso, não basta saber se um ônibus terminou de carregar: é necessário identificar quais veículos estarão disponíveis, quais rotas poderão ser afetadas e onde existe capacidade alternativa de recarga.
Caminho para o BRT inteligente
A discussão tecnológica avançou para a integração entre sistemas de recarga, despacho, bilhetagem, planejamento e informação ao passageiro. A UITP considera que investir em veículos modernos sem resolver a fragmentação dos sistemas pode limitar os resultados da eletrificação.
Stenio Franco, do Information Technology & Innovation Committee (Comitê de Tecnologia da Informação e Inovação) UITP, apresentou uma arquitetura voltada à integração dessas diferentes camadas, com apoio de inteligência artificial e tecnologias como os gêmeos digitais.
Gustavo Balieiro, da Plataforma de IT da UITP América Latina, destacou ainda o papel de diferentes padrões na organização e interoperabilidade dos dados. Foram mencionados os padrões GTFS (General Transit Feed Specification) e sua extensão GTFS-Realtime; TIDES (Transit Integrated Data Exchange Specification ou Transit ITS Data Exchange Specification), OCCP – Open Charge Point Protocol (Protocolo Aberto de Ponto de Carga) e ITxPT -- Information Technology for Public Transport (Tecnologia da Informação para o Transporte Público)
Nesse contexto, a entidade aponta uma próxima etapa para o desenvolvimento do BRT: a passagem de um sistema apenas eletrificado para um BRT inteligente, no qual os diferentes componentes tecnológicos e operacionais funcionem de forma integrada.
As experiências apresentadas em Curitiba, Cidade do México, Santiago, Buenos Aires e Chongqing mostraram diferentes estágios e caminhos para a eletrificação. Para a UITP, embora as condições institucionais, contratuais, energéticas e operacionais variem entre as cidades, o conjunto dos casos oferece referências para que autoridades e operadores possam tomar decisões mais consistentes.
O balanço divulgado pela entidade sintetiza essa visão ao colocar a eletrificação como parte de uma transformação mais ampla da mobilidade. O e-BRT, portanto, não seria apenas um corredor movido a eletricidade, mas uma oportunidade de combinar eficiência operacional, tecnologia, governança e qualidade do serviço em favor do acesso à cidade e da qualidade de vida.
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