“A Frota precisa ser renovada, mas compra não acontece”, diz executivo da Mercedes-Benz
Com custo de financiamento de até 18%, operadores postergam compras; mercado acumula queda de 35% no ano, enquanto frota mantém elevado potencial de renovação
Publicado em 12/08/2026 por Aline Feltrin

O mercado brasileiro de ônibus rodoviários acumula queda de 35% em 2026, diante de um cenário marcado por juros elevados, crédito mais restritivo e redução da demanda de passageiros. Para Walter Barbosa, vice-presidente de vendas, marketing e peças & serviços ônibus da Mercedes-Benz do Brasil, o principal efeito desse ambiente é o adiamento da renovação das frotas pelos operadores. Segundo Barbosa, foram emplacadas 673 unidades de ônibus rodoviários no país até o momento, considerando todas as marcas. No mesmo período do ano anterior, o volume era 35% maior.
O executivo afirma que a taxa básica de juros, embora tenha recuado de 15% para 14% ao longo do ano, continua sendo um obstáculo importante para os investimentos. Com a incorporação do spread bancário, o custo do financiamento pode chegar à faixa de 17% a 18%, segundo sua avaliação. “Quando você põe spread bancário, que é o custo para o banco, essa taxa vai chegar em 17%, 18%, e isso não é um fator que motiva o operador a fazer renovação”, afirmou Barbosa durante apresentação sobre o mercado de ônibus.
Na avaliação do executivo, o comportamento do operador diante desse cenário é postergar a compra de veículos novos. Ele compara a situação do rodoviário com a do transporte urbano, que conta com o Refrota, programa que oferece condições de financiamento mais competitivas para a renovação de frotas.
“Ele posterga, e esse é um dos principais reflexos da queda de 35% no mercado”, disse.
Potencial de renovação
Apesar da retração nas vendas, Barbosa destaca que existe uma demanda potencial importante para renovação da frota rodoviária. Nas linhas interestaduais e internacionais, regulamentadas pela Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), 43,6% dos veículos têm até cinco anos, 31% estão na faixa de seis a dez anos e 25% têm mais de dez anos.
A distribuição, segundo o executivo, mostra que existe uma parcela significativa da frota que poderá entrar em processo de renovação nos próximos anos.
Barbosa afirma que, nesse segmento específico, normalmente são renovadas cerca de 2 mil unidades por ano. O volume atual, portanto, está bastante abaixo do padrão observado em períodos de renovação mais normalizados.
“Temos um potencial aqui grande para renovar”, afirmou. Além das linhas interestaduais e internacionais, o executivo estima uma frota entre 80 mil e 120 mil ônibus nas operações estaduais e municipais, com idade média entre oito e 15 anos. Segundo ele, a dificuldade de mensuração decorre da existência de diferentes órgãos reguladores estaduais e municipais.
A avaliação da Mercedes-Benz é que existe, portanto, um estoque relevante de veículos que poderá demandar renovação, mas o ambiente financeiro atual dificulta a transformação dessa necessidade em vendas de veículos novos.
Passageiros e crédito pressionam mercado
Além dos juros, Barbosa aponta a queda da demanda de passageiros como outro fator estrutural de pressão sobre o segmento. Segundo ele, nos últimos dez anos, a demanda por transporte rodoviário de passageiros recuou entre 15% e 20%. Parte dos passageiros migrou para o transporte aéreo, enquanto outra parcela passou a utilizar veículos particulares.
O câmbio também interfere nessa disputa. Na avaliação do executivo, dólar mais alto tende a favorecer o transporte rodoviário porque encarece o transporte aéreo, enquanto uma moeda americana mais baixa aumenta a competitividade das viagens de avião.
O endividamento das famílias é outro fator citado por Barbosa. Segundo os dados apresentados por ele, 83% da população brasileira possui algum tipo de dívida e 30% está em atraso.
O crédito bancário também ficou mais seletivo. Em momentos de maior percepção de risco econômico ou político, como o período que antecede eleições, os bancos tendem a restringir as condições de financiamento, ainda que não interrompam completamente a oferta de crédito.
O preço do diesel também entrou na lista de fatores que dificultam a recuperação do segmento. Segundo Barbosa, os efeitos da alta do combustível sobre os operadores variaram conforme a região, chegando a representar aumento de 20% a 25% no custo do diesel.
O cenário combina aumento dos custos operacionais com maior custo financeiro e uma demanda de passageiros que não recuperou os níveis anteriores. Para a Mercedes-Benz, esse conjunto de fatores ajuda a explicar por que a retração das vendas de ônibus rodoviários não significa necessariamente ausência de necessidade de renovação. O problema, neste momento, está na capacidade financeira dos operadores de transformar essa necessidade em novos investimentos.
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