Novo eCity parte do chassi OF, carro-chefe da marca, e mira cidades pequenas e médias no Brasil e outros mercados da América Latina
Publicado em 11/08/2026 por Aline Feltrin
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A Mercedes-Benz aposta em um ônibus elétrico de menor preço para ampliar a eletrificação do transporte urbano no Brasil e, ao mesmo tempo, responder ao avanço dos fabricantes chineses no mercado latino-americano. Apresentado na Lat.Bus 2026, em São Paulo, o eCity terá preço estimado entre 20% e 30% abaixo dos ônibus elétricos atualmente comercializados, segundo Walter Barbosa, vice-presidente de Vendas, Marketing e Peças & Serviços Ônibus da Mercedes-Benz do Brasil.
O posicionamento é estratégico. O novo modelo parte do chassi OF, principal produto da Mercedes-Benz no transporte urbano brasileiro, com cerca de 5 mil unidades vendidas por ano, segundo a empresa. A fabricante pretende levar a tecnologia elétrica para cidades que ainda não têm escala, infraestrutura ou capacidade financeira para adotar os modelos elétricos convencionais.
“Com esse lançamento, o nosso OF, o campeão de vendas no segmento urbano brasileiro, agora ganha sua versão elétrica à bateria”, afirma Barbosa.
A previsão é que o eCity chegue ao mercado em 2027. A Mercedes-Benz estima que o preço mais baixo poderá reduzir uma das principais barreiras à substituição dos ônibus a diesel por elétricos.
Preço é a arma contra os chineses
O movimento ocorre em um momento de rápida transformação do mercado de ônibus elétricos na América Latina, com a entrada de novos fabricantes, especialmente chineses.
Questionado sobre se o preço mais competitivo do eCity poderia ajudar a Mercedes-Benz a enfrentar a concorrência asiática, Barbosa reconheceu que a disputa tende a ficar mais acirrada nos próximos anos.
“Se você pegar não muito distante, cinco, seis anos atrás, a gente tinha quatro, cinco concorrentes. Hoje tem mais de dez. E daqui a dez, 15 anos vai ter uns 30 concorrentes”, afirma.
Para o executivo, a entrada de novos fabricantes faz parte da evolução natural do mercado e não representa uma ameaça capaz de alterar a estratégia da companhia.
A Mercedes-Benz, porém, aposta em uma combinação de preço, produção local, escala e experiência no mercado brasileiro para disputar espaço com os novos concorrentes.
“Eu acho que esse produto vem com um posicionamento muito interessante para competir com os novos [concorrentes]”, diz Barbosa.
A estratégia ganha importância porque os fabricantes chineses vêm ampliando sua presença no mercado latino-americano de veículos comerciais e elétricos. Ao desenvolver um produto mais barato a partir de uma plataforma já consolidada no país, a Mercedes-Benz tenta reduzir a diferença de preço sem abandonar a produção local.
OF elétrico: fora dos grandes corredores
O eCity tem 12 metros de comprimento, piso alto e interior totalmente plano. A autonomia média é de aproximadamente 150 quilômetros por carga, podendo ser ampliada por meio de recargas realizadas durante a operação.
A arquitetura foi pensada para aplicações diferentes dos grandes corredores de transporte das capitais.
Segundo Barbosa, o modelo pode atender especialmente cidades pequenas e médias, onde muitas vezes não há corredores exclusivos ou infraestrutura viária ideal para ônibus de maior porte.
“A arquitetura desse chassi da linha OF foi desenvolvida especialmente para atender também cidades de pequeno e médio porte que buscam uma solução elétrica prática, econômica e adequada às condições encontradas no Brasil, como também na América Latina”, afirma.
A configuração também permite que o ônibus circule em vias convencionais, sem depender de corredores específicos.
A Mercedes-Benz pretende, portanto, pulverizar a comercialização do modelo. Em vez de concentrar grandes volumes em poucas capitais, a expectativa é conquistar pequenas encomendas em diferentes cidades.
Payback pode cair para seis anos
O preço menor também altera a conta financeira da operação. Segundo Barbosa, a Mercedes-Benz estima que o eCity possa alcançar retorno do investimento em cerca de seis anos, enquanto os ônibus elétricos atualmente disponíveis podem apresentar payback superior a dez anos.
Essa diferença é considerada pela companhia fundamental para convencer operadores a fazer a transição sem depender necessariamente de políticas públicas que obriguem a substituição dos veículos a diesel.
“Por o carro ser mais barato e também por ele ter um payback, um retorno muito interessante em um período de seis anos, a gente acredita que é viável para o operador mudar do diesel para o elétrico”, afirma.
A avaliação contrasta com a realidade de parte do mercado atual, em que o investimento inicial mais elevado dos ônibus elétricos prolonga o prazo necessário para compensar economicamente a troca do veículo convencional.
Recarga em até duas horas
O eCity terá bateria de 190 kWh e, segundo Barbosa, poderá ser recarregado em aproximadamente uma hora e meia a duas horas, dependendo das condições de carregamento.
A Mercedes-Benz também trabalha com o conceito de recarga de oportunidade. Em vez de o ônibus precisar permanecer parado durante todo o período necessário para uma carga completa, o operador poderá aproveitar intervalos da operação para realizar cargas parciais.
Um veículo parado por 30 minutos ou uma hora em um ponto final, por exemplo, poderá receber energia suficiente para ampliar sua autonomia ao longo do dia.
Essa estratégia é particularmente importante para operações com jornadas intensivas e rotas relativamente curtas.
A empresa também desenvolveu a ferramenta eBus Go!, que calcula a autonomia necessária para cada rota e ajuda o operador a avaliar a viabilidade da operação elétrica.
Carroceria será desenvolvida pela Caio
Outra característica do projeto é que o eCity será comercializado já encarroçado, simplificando a aquisição para o operador.
A carroceria será desenvolvida especificamente para o modelo pela Caio, em uma parceria com a Mercedes-Benz, mas a produção da carroceria ocorrerá fora da fábrica da montadora.
A estratégia permite à Mercedes-Benz entregar uma solução completa ao cliente, em vez de comercializar apenas o chassi.
A chegada do modelo ao mercado está prevista para meados de 2027. Para o primeiro ano, Barbosa trabalha inicialmente com uma expectativa de aproximadamente 100 unidades, volume que servirá para colocar o produto em operação e ampliar sua presença entre os clientes.
Mercado de ônibus urbanos muda de perfil
O lançamento também responde a uma transformação que já aparece nas vendas. Segundo Barbosa, enquanto o segmento de ônibus urbanos a diesel apresentou queda de aproximadamente 22% entre janeiro e junho, na comparação com o mesmo período do ano anterior, os ônibus elétricos vêm crescendo entre 40% e 50% ao ano.
A mudança indica que, embora o mercado total esteja pressionado, a demanda começa a migrar para novas tecnologias de propulsão.
Para a Mercedes-Benz, o desafio é ampliar essa migração para além das cidades que já possuem programas estruturados de eletrificação.
Hoje, o eO500U, ônibus elétrico urbano padron da marca, já é um dos principais exemplos dessa expansão. A empresa informa que aproximadamente 400 unidades do modelo estão em circulação na cidade de São Paulo.
Na Lat.Bus, a Mercedes-Benz também inicia as vendas do eO500UA, seu ônibus elétrico articulado, destinado a operações de maior capacidade e grandes corredores urbanos.
Com o eCity, a fabricante passa a atacar uma faixa diferente do mercado: cidades menores, médias e operações pulverizadas, nas quais o preço de aquisição tem peso ainda maior na decisão de compra.
Mercedes tenta ampliar a base da eletrificação
A estratégia da Mercedes-Benz é, portanto, ampliar o mercado potencial dos ônibus elétricos sem abandonar sua linha convencional. O eCity aproveita uma arquitetura já conhecida pelos operadores e combina essa familiaridade com uma motorização elétrica.
A empresa completa 70 anos de produção de ônibus no Brasil em 2026 e alcançou recentemente a marca de 800 mil ônibus produzidos no país, considerando chassis e os antigos monoblocos.
Ao transformar o OF — seu principal chassi urbano — em uma plataforma elétrica de menor custo, a Mercedes-Benz tenta aproveitar essa escala para acelerar a eletrificação justamente na faixa do mercado em que os veículos chineses podem encontrar maior espaço.
O objetivo é colocar a tecnologia elétrica em cidades onde, até agora, o investimento inicial ainda representa uma barreira. E, ao reduzir em até 30% o preço em relação aos modelos elétricos atuais, a fabricante aposta que poderá tornar essa transição economicamente mais atraente para os operadores
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