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Crescimento das importações é o maior desafio para a indústria de autopeças em 2026

Com a grande quantidade de marcas e modelos chineses que chegaram ao país nos últimos dois anos, há riscos de que essas importações se intensifiquem nos próximos anos, segundo o presidente do Sindipeças

Publicado em 29/06/2026 por Sonia Moraes

(Arquivo/Divulgação)
(Arquivo/Divulgação)

O crescimento expressivo das importações de autopeças, sobretudo da China, é o maior desafio das fabricantes em 2026. “Não é algo novo, mas com a ‘tsunami’ de marcas e modelos chineses que chegaram ao país nos últimos dois anos, há riscos de que essas importações se intensifiquem nos próximos anos”, afirma Cláudio Sahad, presidente da Associação Brasileira da Indústria de Autopeças (Abipeças) e do Sindicato Nacional da Indústria de Componentes para Veículos Automotores (Sindipeças).

Sahad ressalta que, enquanto as marcas e modelos chineses não estiverem plenamente estruturados no país, ou promoverem localização, terão que importar autopeças para seus veículos, o que deve ampliar as compras feitas naquele país. “Existe também a necessidade de o setor se adaptar aos rumos da descarbonização. Preparar suas estruturas, portfólios de produtos e a busca por cooperação e absorção de novas tecnologias são fundamentais para que essa indústria siga pujante”, diz o presidente.

Ele cita também os problemas internos com juros elevados, sistema tributário complexo (até que a reforma do consumo se consolide), crédito caro, endividamento das famílias e volatilidade cambial. “De um jeito ou de outro, esses fatores acabam afetando as empresas de autopeças.”

De janeiro a maio deste ano, as importações de autopeças da China cresceram 23,3% frente a igual período de 2025. Em valor, o crescimento foi de 271,0%, alcançando US$ 4,5 bilhões no ano passado. As importações provenientes da Índia já começam a incomodar o mercado de máquinas agrícolas e de equipamentos para construção, com a alta de 353% desde 2016 e atingiram US$ 1,0 bilhão em 2025.

A balança comercial fechou o acumulado de janeiro a maio deste ano com déficit de US$ 6,3 bilhões, 2,2% superior aos cinco meses de 2025, quando atingiu US$ 6,17 bilhões. Esse resultado é decorrente da movimentação maior das importações que atingiram US$ 9,39 bilhões, 1,1% abaixo dos cinco meses de 2025 (US$ 9,50 bilhões), enquanto as exportações totalizaram US$ 3,08 bilhões, com queda de 7,3% sobre os cinco meses do ano passado (US$ 3,32 bilhões).

O faturamento das empresas, apurado de janeiro a abril, teve queda de 3,8%, tendo aumento de 1,9% nas vendas para as montadoras e redução de 11,2% nas vendas ao mercado de reposição. As principais causas da retração do faturamento, segundo Sahad, estão associadas ao pior desempenho do mercado de reposição, há anos liderando o rendimento do setor. “Entendemos que a reposição enfrenta algumas adversidades, como o forte aumento das importações de peças e componentes automotivos, vendidas por meio dos marketplaces ou pela da aquisição direta feita pelas distribuidoras. Há também mudança na estratégia das distribuidoras, que passaram a operar com estoques menores; e o desempenho favorável das vendas de veículos novos: no período pós-pandemia os emplacamentos de veículos novos cresceram, em média, 4,9% ao ano.”

Sobre o aumento do déficit na balança comercial, Sahad atribui às fragilidades do mercado automotivo na Argentina, principal parceiro comercial da indústria automotiva. “No acumulado até maio, a produção de veículos no país vizinho caiu 19,3%, o que tem prejudicado nossas vendas para lá. Números atualizados até maio revelam que as exportações de autopeças recuaram 22,4% para a Argentina."


Consolidação maior das empresas

Em sua análise sobre o panorama atual do setor, o presidente do Sindipeças e Abipeças afirma que a alta competitividade trazida pela China levará a uma intensificação da consolidação entre empresas do setor automotivo. Isso ocorrerá porque precisarão adquirir maior musculatura financeira para executar os investimentos necessários e também somar seus volumes, de modo a aumentar sua produtividade.

Segundo Sahad, isso já está acontecendo com montadoras, tiers 1, e é inevitável que tiers 2 e 3 deixem de se consolidar. “Com base nessa previsão, temos promovido mentorias de governança corporativa e formação de conselhos de administração para pequenas e médias empresas, no sentido de prepará-las para essa consolidação.”

O presidente do Sindipeças e Abipeças ressalta que a velocidade de mudança e a resiliência que caracterizam a indústria faz crer que as empresas do setor estão se preparando – em ritmos variados – para as transformações que experimenta o setor automotivo mundial. “As ações no âmbito do Mover são exemplos concretos, apesar da escassez dos recursos disponibilizados pelo programa.”

Sahad salienta que o fato de parcela expressiva dos sistemistas (tier 1) serem multinacionais ou empresas de capital nacional, que aprofundaram seus processos de internacionalização, é natural que se encontrem conectadas às transformações em curso.

“Nosso maior desafio consiste em esparramar para o restante da cadeia (tiers 2 e 3), constituída por empresas menores, várias delas familiares, movimentos de profissionalização da gestão, automação e digitalização dos processos fabris e reorganização do portfólio para atender às demandas da eletrificação da mobilidade.”

Para enfrentar esse novo cenário, estão sendo promovidas discussões com o governo por intermédio da Abipeças e do Sindipeças. “São constantes e regulares as reuniões que mantemos com o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC), agências públicas e outros ministérios, para alertar sobre essas questões. Ao mesmo tempo, levamos propostas que possam fortalecer nossa indústria e melhorar o ambiente de negócios. Em termos comerciais, temos buscado também aproximação com montadoras chinesas que definiram produção no país, para podermos nos tornar fornecedoras locais”, revela Sahad.

 

Segmento de veículos pesados está melhorando

Segundo Sahad, o segmento de veículos pesados está melhorando gradativamente. “A divulgação da segunda edição do programa Move Brasil trouxe algum alento para montadoras e fabricantes de autopeças, mas sabemos que as verbas disponibilizadas se acabarão em alguns meses, como ocorreu na primeira edição. Por essa razão, solicitamos ao governo que esse programa se torne permanente, pelo menos, enquanto tivermos uma taxa básica de juros tão alta como a atual, o que encarece sobremaneira os financiamentos para compra de veículos.”

Ele cita também o lançamento do novo edital do programa Caminho da Escola, com previsão de entrega de 7.470 ônibus aos municípios brasileiros. “Desse total, estima-se que entre 1,0 mil e 1,5 mil unidades sejam entregues ainda este ano”, calcula o presidente.

“Por conta dos estímulos oferecidos, é notória a melhora no ritmo do mercado de pesados. A produção de caminhões passou de 6,8 mil unidades em janeiro para 10,5 mil unidades em maio deste ano. A produção de ônibus avançou de 1,9 mil unidades para 3,0 mil unidades nos meses destacados. Acreditamos que, ainda que lentamente, o mercado de pesados continuará melhorando nos próximos meses.”

Sobre o fornecimento de componentes para o mercado de ônibus, Sahad ressalta que o segmento de ônibus elétricos vem experimentando incremento interessante, porém é ainda um mercado pequeno e concentrado regionalmente. De acordo com a Associação Brasileira de Veículo Elétrico (ABVE), a frota em circulação estimada está entre 1.500 e 1.600 ônibus elétricos (incluindo modelos a bateria e trólebus). “É um mercado que tende a crescer, embora existam importantes desafios à frente, sobretudo para a recarga dos veículos nas garagens. Estudo feito pelo Instituto de Políticas de Transporte & Desenvolvimento (ITDP Brasil) mostra que mais de 14 mil ônibus a diesel podem ser substituídos por modelos elétricos até 2030, o que representaria um crescimento de 775% em relação à frota atual de ônibus elétrico.”

 

Revisão das perspectivas

Devido alguns fatores que mudaram ao longo do primeiro semestre deste ano, o Sindipeças revisou suas projeções para o setor. O faturamento de R$ 286,8 bilhões esperado para este ano reduziu 4,9% para R$ 272,2 bilhões em 2026, mas ficará 2,5% superior a 2025. “Em termos macroeconômicos, acreditávamos em inflação menor (ao redor de 4,0%) e, consequentemente, uma queda mais acentuada da taxa de juros, baixando para 12,25% ao ano. Esperávamos também que o câmbio se mantivesse mais desvalorizado, ao redor de R$ 5,20 e 5,30, porém a guerra no Oriente Médio e a disparada do preço do petróleo alteraram radicalmente esse cenário”, diz Sahad.

Em relação ao resultado das empresas, o presidente do Sindipeças e Abipeças acreditava em uma recuperação (ou retração menor) do faturamento do mercado de reposição e em uma retração menor das exportações para o mercado argentino. “O faturamento da reposição encolheu quase 3,0% no ano passado. Por isso, considerávamos que poderia haver uma modesta recuperação. No entanto, não é o que estamos assistindo. No acumulado até abril, o faturamento se retraiu 11,2%.”

No caso das exportações, a estimativa era de que haveria dificuldades, mas jamais na magnitude que está ocorrendo. “Em 2025, a produção na Argentina recuou 3,1%, o que nos autorizava imaginar que a retração pudesse ser maior que a de 2025, mas não da forma como vem se dando.”

As projeções para a balança comercial também foram revisadas, com déficit de aproximadamente US$ 15,0 bilhões, um pouco menor do que a previsão anterior (US$ 16,8 bilhões). “Embora pareça contraditória a informação, considerando-se que as exportações devem recuar quase 10%, a questão é que as importações também devem sofrer redução, da ordem de 4,0%. Antes, esperávamos crescimento de 5,0%. No acumulado até maio, as importações já caíram 1,1%”, compara o presidente.


Divulgação Sindipeças


 

 

 

 

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