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Brasil pode exportar modelos de transição energética ao mundo

Representantes das empresas WEG, Copersucar e Scania afirmam que a combinação entre eletrificação, biocombustíveis e matriz renovável coloca o país em posição estratégica para liderar soluções adaptadas às necessidades do Sul Global

Publicado em 19/06/2026 por Alexandre Asquini

(Arquivo/Divulgação)
(Arquivo/Divulgação)

A principal mensagem do painel sobre energia realizado durante o Anfavea Visions – encontro ocorrido na primeira quinzena de junho, em São Paulo –, foi que o diferencial competitivo do Brasil na transição energética não está na adoção de uma única tecnologia, mas justamente na capacidade de combinar diferentes soluções em um mesmo ecossistema.

Para os executivos da WEG, Copersucar e Scania que participaram do debate, o país reúne condições singulares para integrar eletrificação, biocombustíveis, fontes renováveis, conectividade e inovação industrial, construindo modelos capazes não apenas de atender às necessidades nacionais, mas também de servir de referência para outras regiões do mundo.

Mediado pelo jornalista Leonardo Lara, o painel reuniu Alberto Cubas, CEO da WEG; Tomás Manzano, CEO da Copersucar; e Christopher Podgorski, CEO da Scania América Latina. Ao longo da discussão, os participantes defenderam que a diversidade da matriz energética brasileira deve ser encarada como uma vantagem estratégica e não como um fator de dispersão ou indefinição tecnológica.

Logo na abertura, Lara destacou que o Brasil é um dos poucos países capazes de operar simultaneamente com petróleo, etanol, biometano, energia eólica, solar e hidrelétrica. Segundo ele, essa característica torna a transição energética nacional diferente da observada em muitas outras partes do mundo, onde o debate costuma ser reduzido à substituição dos combustíveis fósseis pela eletrificação.

“Aqui, a transição deixa de ser uma escolha binária entre combustão e elétrico e passa a ser uma grande orquestração entre diferentes matrizes energéticas”, resumiu.

Energia como vantagem geopolítica

Para Alberto Cubas, a disponibilidade de energia limpa tornou-se um dos principais ativos estratégicos das nações no cenário internacional contemporâneo. Em sua avaliação, se no século XX a vantagem geopolítica estava associada à posse de reservas de petróleo, o século XXI tende a valorizar cada vez mais os países capazes de oferecer energia abundante e de baixo carbono.

Nesse contexto, o executivo destacou a posição privilegiada do Brasil. Segundo ele, mais de 85% da geração elétrica nacional já provém de fontes renováveis, resultado da combinação histórica de hidrelétricas com a expansão recente da geração eólica e solar.

Cubas observou ainda que o crescimento acelerado do consumo de energia impulsionado pela eletrificação dos transportes e pela expansão da inteligência artificial cria novas oportunidades para países que dispõem de capacidade energética instalada.

A confiança da WEG nesse cenário tem se refletido em investimentos. O executivo informou que a empresa vem ampliando sua capacidade produtiva para atender ao crescimento esperado da demanda por equipamentos ligados à eletrificação e à transição energética. Segundo Cubas, a companhia investiu cerca de R$ 1,3 bilhão no Brasil no ano passado para expansão de capacidade e preparação de infraestrutura industrial, além de prever novos aportes da ordem de R$ 1,5 bilhão neste ano.

Ao abordar o futuro da mobilidade, Cubas assinalou que o desenvolvimento dos veículos elétricos depende da construção simultânea de uma infraestrutura adequada de recarga e armazenamento de energia. Segundo ele, a evolução das baterias e dos sistemas de carregamento será fundamental para ampliar a adoção dessas tecnologias.

O executivo também destacou uma tendência que considera cada vez mais relevante: a integração entre veículos elétricos e o sistema elétrico. Na visão da companhia, automóveis equipados com grandes baterias poderão funcionar como ativos energéticos conectados à rede, armazenando e fornecendo energia conforme a necessidade.

Além disso, ressaltou que o Brasil vem acumulando experiência em soluções híbridas e eletrificadas que podem ser aplicadas em outros mercados. Para ele, o país desenvolveu modelos de cooperação entre fabricantes, operadores e fornecedores que ajudam a encontrar soluções adaptadas às diferentes realidades econômicas e energéticas.

O papel dos biocombustíveis

Tomás Manzano concentrou sua participação no papel dos biocombustíveis na descarbonização da economia. Segundo ele, o Brasil passou ao longo das últimas décadas de uma lógica predominantemente extrativista para uma estratégia baseada na geração de valor a partir dos recursos naturais.

O executivo argumentou que o país reúne vantagens únicas em um momento em que o mundo enfrenta simultaneamente os desafios da segurança alimentar e da transição energética. Na sua avaliação, a baixa intensidade de carbono da produção brasileira constitui um ativo econômico que tende a ganhar importância crescente nos próximos anos.

Manzano defendeu que a diversidade de fontes energéticas disponível no país deve ser vista como um fator de resiliência. Em vez de apostar em uma única solução tecnológica, o Brasil construiu uma trajetória baseada na coexistência de diferentes alternativas, o que amplia sua capacidade de adaptação às mudanças econômicas e geopolíticas.

Ao falar sobre o etanol, o executivo afirmou que o combustível possui potencial de expansão muito além do mercado brasileiro. Como exemplo, observou que, excluindo Brasil e Estados Unidos, a participação do etanol na gasolina consumida globalmente permanece relativamente baixa. Segundo ele, um aumento modesto dessa mistura em outros países poderia gerar uma demanda equivalente à produção brasileira atual.

O CEO da Copersucar observou que o Brasil já utiliza uma mistura de cerca de 30% de etanol na gasolina, enquanto grande parte dos demais mercados opera com índices muito inferiores. Segundo ele, uma elevação da participação média mundial para apenas 5% já seria suficiente para criar uma demanda adicional equivalente a praticamente toda a produção brasileira atual.

Outro ponto destacado foi a capacidade de o etanol promover redução de emissões sem exigir mudanças profundas na infraestrutura já existente. Diferentemente de outras tecnologias, explicou, sua expansão pode ocorrer aproveitando redes de distribuição e abastecimento já instaladas.

Manzano também apresentou o biometano como uma das oportunidades mais promissoras para o Brasil. Produzido a partir da biodigestão da vinhaça gerada pela fabricação de etanol, o combustível possui intensidade de carbono significativamente inferior à do gás natural fóssil e pode ser utilizado em substituição ao diesel em diversas aplicações de transporte.

Segundo o executivo, a escala da produção sucroenergética brasileira cria uma disponibilidade de matéria-prima difícil de ser replicada em outros países. Por isso, ele acredita que o Brasil reúne condições para liderar o desenvolvimento desse mercado.

O executivo destacou ainda que o biometano produzido a partir da vinhaça pode apresentar intensidade de carbono cerca de 90% inferior à do gás natural fóssil e, em determinadas aplicações de transporte, oferecer custos operacionais entre 20% e 30% menores que os do diesel, mantendo desempenho semelhante. Segundo ele, a escala da produção brasileira de etanol gera um volume de matéria-prima difícil de ser reproduzido em outros países.

“A oportunidade está acontecendo agora. Não é uma agenda para o Brasil do futuro, mas para o Brasil do presente”, afirmou.

Novos ecossistemas para o transporte

Representando a Scania América Latina, Christopher Podgorski destacou que a transição energética precisa ser sustentável não apenas do ponto de vista ambiental, mas também econômico.

Para o executivo, a substituição dos combustíveis fósseis exige a criação de novos ecossistemas de transporte, nos quais infraestrutura, logística, produção de energia e veículos evoluam de forma integrada. Segundo ele, o veículo é apenas um dos componentes dessa transformação.

O CEO da Scania América Latina defendeu que biocombustíveis, eletrificação e outras tecnologias não devem ser encarados como alternativas excludentes. Em sua visão, cada aplicação terá uma solução mais adequada, tornando inevitável a convivência entre diferentes rotas tecnológicas.

Ao longo do debate, os participantes lembraram que essa convivência tecnológica não é uma novidade no país. Cubas, por exemplo, citou iniciativas desenvolvidas ainda na década passada envolvendo veículos híbridos associados a biocombustíveis, experiência que ajudou a formar competências hoje aplicadas em novos projetos de mobilidade sustentável.

Podgorski também ressaltou a importância das políticas públicas para orientar investimentos de longo prazo. Programas como Rota 2030, Mover e outras iniciativas voltadas à inovação ajudam a reduzir incertezas e oferecem previsibilidade para fabricantes e fornecedores. Contudo, observou que a consolidação dos novos ecossistemas de transporte exigirá políticas industriais de horizonte mais longo, capazes de sustentar investimentos que frequentemente demandam muitos anos para maturação e retorno.

Um dos pontos centrais de sua participação foi a defesa do papel do Brasil como laboratório de soluções para mercados emergentes. Segundo Podgorski, as condições encontradas no país frequentemente se assemelham às de outras regiões do chamado Sul Global, o que torna as tecnologias desenvolvidas localmente potencialmente aplicáveis em países da América Latina, África e Ásia.

Nesse sentido, afirmou que o setor vem observando uma mudança gradual de percepção nas matrizes globais das empresas, tradicionalmente influenciadas por demandas europeias. Segundo ele, cresce dentro das organizações internacionais o reconhecimento de que muitas das soluções desenvolvidas para a realidade brasileira podem atender também às necessidades de países do chamado Sul Global. Questões relacionadas à infraestrutura, disponibilidade energética e custos operacionais encontradas no Brasil frequentemente se repetem em mercados da América Latina, África e partes da Ásia.

Ao abordar o futuro do transporte, Podgorski destacou ainda o avanço da conectividade, da digitalização e dos sistemas avançados de assistência ao motorista. Segundo ele, tecnologias de monitoramento, atualizações remotas e automação tendem a desempenhar papel crescente na eficiência operacional das frotas.

Brasil como referência

Apesar das diferentes perspectivas apresentadas pelos participantes, o painel revelou forte convergência em torno de uma ideia central: a transição energética brasileira dificilmente seguirá um caminho único.

Para os representantes da WEG, Copersucar e Scania, o futuro da mobilidade e da energia será construído pela combinação de diversas tecnologias, cada uma ocupando espaços específicos conforme as características econômicas, logísticas e ambientais de cada aplicação.

Mais do que acompanhar tendências globais, os executivos defenderam que o Brasil reúne condições para influenciar esse processo. Ao longo do debate, os participantes argumentaram que a experiência acumulada pelo país na convivência entre diferentes matrizes energéticas, na utilização de biocombustíveis em larga escala e na integração entre indústria, operadores e fornecedores criou um conjunto de conhecimentos que começa a despertar interesse crescente de grupos empresariais e formuladores de políticas públicas em outras regiões do mundo.

Com uma matriz energética diversificada, ampla experiência em biocombustíveis e avanços crescentes em eletrificação, o país pode deixar de ser apenas consumidor de soluções desenvolvidas no exterior e assumir um papel de protagonista na construção dos modelos de descarbonização que serão adotados em outras partes do mundo.


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