Anfavea Visions marca os 70 anos da entidade com debate sobre o futuro da mobilidade, da indústria e da tecnologia
O evento reúne em São Paulo executivos de montadoras, empresas de tecnologia, instituições financeiras e especialistas para discutir os desafios econômicos, energéticos e tecnológicos que deverão influenciar a mobilidade nas próximas décadas
Publicado em 10/06/2026 por Alexandre Asquini

A realização da primeira edição do Anfavea Visions marca as comemorações pelos 70 anos da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea). Inaugurado nesta terça-feira, 9 de junho, o encontro de dois dias acontece no Hotel Unique, em São Paulo.
Com a participação de lideranças empresariais, especialistas, representantes do setor financeiro, organismos internacionais e autoridades públicas, o Anfavea Visions foi concebido como um fórum de reflexão sobre o futuro da economia, do mercado e do setor.
Estruturado em quatro trilhas temáticas, o encontro discute economia, transformação do mercado, competitividade industrial, inteligência artificial, conectividade, transição energética, financiamento, inovação e mobilidade urbana.
Entender a transformação
Na exposição que abriu o encontro, o presidente da Anfavea, Igor Calvet, assinalou que a indústria automotiva vive uma transformação sem precedentes e que o Brasil precisa assumir uma posição ativa na construção da mobilidade do futuro.
Ao explicar a escolha do nome do evento, Calvet afirmou que o termo “Visions”, no plural, reflete a convicção de que o futuro não será definido por uma única tecnologia, empresa ou país, mas pela convergência de diferentes perspectivas. Segundo ele, desafios complexos exigem diálogo entre indústria, academia, setor financeiro, formuladores de políticas públicas, empresas de tecnologia e consumidores.
O dirigente destacou que a mobilidade está se tornando cada vez mais conectada, digital, automatizada e inteligente, em um contexto marcado pelo surgimento de novos modelos de negócio, pela reorganização das cadeias globais de produção e por mudanças na geopolítica industrial. Para Calvet, o setor não enfrenta apenas uma evolução tecnológica, mas uma verdadeira mudança de paradigma.
Nesse cenário, o presidente da Anfavea defendeu a necessidade de ampliar o horizonte dos debates no país. Por isso, temas como inteligência artificial aplicada ao desenvolvimento de veículos e à manufatura, conectividade, uso de dados, software embarcado e integração entre veículos e infraestrutura estão entre os assuntos centrais do encontro.
Calvet também lançou uma reflexão sobre o papel do Brasil na nova configuração global da indústria. Segundo ele, o país precisa transformar inovação em desenvolvimento, tecnologia em empregos qualificados e transição energética em competitividade. Para isso, ressaltou ativos como a robustez da cadeia automotiva nacional, a qualificação da engenharia brasileira, a relevância do mercado consumidor e a liderança do país em biocombustíveis.
Economia e investimentos
A programação de debates do primeiro dia foi aberta pelo jornalista William Waack e pelo economista Eduardo Giannetti da Fonseca, que fizeram considerações convergentes sobre as tendências globais irreversíveis que vêm moldando o cenário internacional e o ambiente de negócios.
“O mundo em que crescemos acabou! Não volta mais”, disse Waack, acrescentando que não é mais a racionalidade econômica vigente no pós-guerra, em especial após 1980, mas a geopolítica que impera nas decisões tomadas pelas potências hegemônicas.
Na sequência, ambos participaram, ao lado de Ana Paula Vescovi, economista-chefe e sócia do Santander Brasil, de um painel que analisou o que os indicadores econômicos e financeiros sinalizam sobre os próximos ciclos de investimento. A última sessão da manhã teve a participação de Gilson Finkelsztain, CEO da B3.
A indústria em transformação
A segunda metade do primeiro dia foi dedicada às transformações em curso na indústria automotiva. Herlander Zola, da Stellantis South America; Evandro Maggio, presidente da Toyota do Brasil, e Ariel Montenegro, presidente e diretor-geral da Renault Geely do Brasil, participaram de uma discussão voltada às estratégias globais das montadoras e aos caminhos da indústria automotiva brasileira em um cenário de mudanças tecnológicas e reorganização dos mercados.
A questão da competitividade também ocupou espaço de destaque. Gaston Diaz Perez, CEO e presidente da Bosch América Latina e Tiago Tasso, da Moura Participações, junto com Igor Calvet, discutiram fatores que deverão influenciam a capacidade competitiva da indústria nacional, com foco em desenvolvimento tecnológico, cadeia de valor e posicionamento estratégico.
Inteligência artificial e a humanidade
Desde Londres, em diálogo com Igor Calvet, participou do primeiro dia do Anfavea Visions o professor israelense Yuval Noah Harari, autor de diferentes livros, dentre os quais o mais conhecido é Sapiens: Uma Breve História da Humanidade. Respondendo a perguntas, o historiador fez ponderações sobre o papel que começa a ter a inteligência artificial para o futuro da humanidade.
Ele disse que a inteligência artificial não representa apenas mais uma inovação tecnológica, mas uma transformação civilizatória capaz de redefinir a economia, a política, o trabalho e as relações sociais.
Segundo Harari, diferentemente de ferramentas criadas ao longo da história, a IA pode atuar como agente autônomo, tomando decisões e desenvolvendo novas tecnologias sem supervisão humana direta.
Ele destacou o potencial da IA para reduzir acidentes no trânsito por meio dos veículos autônomos, mas alertou para os complexos dilemas éticos envolvidos nessas decisões. Também chamou atenção para o surgimento de corporações administradas exclusivamente por IA, levantando questões sobre responsabilidade jurídica e cumprimento das leis.
Para o filósofo e escritor, a rápida evolução tecnológica exige marcos regulatórios capazes de equilibrar inovação e proteção social. Em um cenário marcado pela disputa tecnológica entre Estados Unidos e China, Harari defendeu maior cooperação entre países e advertiu que a preservação do julgamento humano, da reflexão e do descanso será fundamental em um mundo cada vez mais acelerado pela inteligência artificial.
O encerramento do primeiro dia ficou a cargo de Roberto Cortes, CEO da Volkswagen Caminhões e Ônibus e presidente de honra desta primeira edição do Anfavea Visions. Ele apresentou uma visão sobre os próximos passos da indústria de veículos comerciais.
Programação desta quarta-feira
A programação do segundo e último dia do Anfavea Visions, nesta quarta-feira, 10 de junho, discutirá inteligência artificial, conectividade, digitalização da mobilidade, indústria inteligente, transição energética e cidades conectadas, reunindo executivos dos setores de tecnologia, automotivo, energia e infraestrutura para debater os desafios do futuro.
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