Os números do mercado automobilístico inspiram otimismo e cautela

O presidente da Anfavea afirmou que a volta da cobrança de impostos sobre a produção de ônibus afetará significativamente os custos e lamentou a suspensão do pregão para aquisição de 7.470 ônibus escolares destinados ao programa Caminho da Escola

Alexandre Asquini

O presidente da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), Igor Calvet, afirmou nesta sexta-feira, 6 de março de 2026, que a volta da cobrança de impostos sobre a produção de ônibus, incluindo o IPI e o ICMS – determinada pela Lei Complementar (LC) nº 224/2025 – afetará significativamente o custo de produção, podendo resultar em aumentos nos preços dos veículos, o que impactaria diretamente as tarifas de ônibus urbanos. Ele explicou que muitos produtos foram vendidos com as regras tributárias anteriores, mas terão que ser entregues com uma carga tributária ampliada, o que complica o mercado.

Calvet também lamentou a suspensão, na primeira semana de março, do pregão para aquisição de 7.470 ônibus escolares destinados ao programa Caminho da Escola, cujo edital foi publicado em fevereiro. O certame não tem previsão de retomada.

As declarações foram feitas durante a apresentação dos dados do mercado automotivo brasileiro referentes ao primeiro bimestre de 2026. Calvet ressaltou que, apesar dos desafios, existem sinais de recuperação, especialmente nos segmentos de veículos leves e eletrificados.

O presidente comentou ainda sobre a influência da alta taxa de juros (SELIC) sobre o mercado automotivo. Em 2025, a Selic foi de 14,3%, afetando negativamente a demanda e reduzindo tanto o consumo quanto os investimentos no setor. O impacto foi especialmente forte no mercado de veículos pesados, que teve uma queda de 29,5% até fevereiro de 2026, em comparação com o crescimento de 8,8% no ano anterior.

Produção e mercado

A produção de veículos no Brasil caiu quase 9% no primeiro bimestre de 2026, somando 368 mil unidades, contra 404 mil no mesmo período de 2025. Essa redução foi fortemente impactada pela queda nas exportações, que desaceleraram o ritmo da produção nacional. Contudo, a situação começou a mostrar sinais de recuperação em fevereiro.

Embora a produção total tenha diminuído, o desempenho mês a mês foi positivo. Em fevereiro, a produção de automóveis e comerciais leves aumentou 25% em relação a janeiro, e a produção de caminhões e ônibus subiu 22%. Esse crescimento é atribuído, em parte, ao efeito sazonal, já que dezembro e janeiro têm menor produção devido às férias e feriados.

Apesar da queda acumulada no início do ano, o desempenho de fevereiro é considerado um sinal positivo para os próximos meses, trazendo um otimismo cauteloso para o setor.

Emplacamentos

O cenário dos emplacamentos foi um pouco mais estável. Em fevereiro de 2026, o Brasil registrou uma média de 10,3 mil unidades emplacadas por dia, o segundo melhor resultado dos últimos 10 anos, ficando atrás apenas do recorde de 2020, que teve 11,2 mil unidades. Esse crescimento de mais de 10% em relação ao ano anterior foi possível graças à recuperação da produção e ao consumo interno, que se mantiveram, mesmo com as altas taxas de juros e um cenário econômico instável.

Já o mercado de caminhões e ônibus ainda enfrenta dificuldades, com uma queda acumulada de 29% no emplacamento desses veículos em comparação com o mesmo período do ano passado. Em fevereiro, houve uma recuperação de 4,5% nos emplacamentos de caminhões, o que gerou algum otimismo no setor.

Veículos eletrificados

O mercado de veículos eletrificados foi uma das grandes surpresas positivas deste início de ano. Segundo Igor Calvet, o Brasil viu um aumento significativo na produção de veículos sustentáveis (elétricos, híbridos e híbridos plug-in), alcançando 43% de veículos eletrificados produzidos nacionalmente – um salto considerável em relação aos 25% registrados no final de 2025.

Em fevereiro de 2026, o número de emplacamentos de veículos eletrificados cresceu 15,9% em comparação com o mês anterior, superando os 9,3% registrados no mesmo período de 2025.

Esse aumento reflete a crescente demanda por tecnologias sustentáveis e a adaptação do mercado automotivo à transição energética. A expectativa é que esse crescimento continue ao longo de 2026, com o lançamento de novos modelos e um interesse crescente por alternativas ecológicas.

Exportações e importações

As exportações brasileiras de veículos tiveram um desempenho fraco no início de 2026, com uma queda de 28% no número de unidades exportadas em comparação ao ano anterior. No primeiro bimestre de 2025, o Brasil exportou mais de 82 mil unidades, enquanto em 2026 esse número caiu para menos de 60 mil unidades.

A Argentina, maior destino das exportações brasileiras, teve uma queda de 7,5% de janeiro para fevereiro de 2026, impactando os números totais. No entanto, as exportações para o México mostraram crescimento, com um aumento significativo de 7.000 unidades em janeiro para 9.100 unidades em fevereiro, impulsionado pelo crescimento de 4% no mercado mexicano.

As importações também apresentaram uma queda de 4,5% no acumulado de 2026, totalizando 71.800 unidades, contra 75.000 unidades no ano anterior. A maior redução foi observada no mercado de comerciais leves, que caiu quase 10%, refletindo a recuperação da produção nacional e a maior oferta de modelos fabricados no Brasil.

Programa MOVE Brasil

O programa MOVE Brasil, que oferece incentivos fiscais para a compra de veículos comerciais e pesados sustentáveis, tem sido essencial para a recuperação do setor, especialmente no mercado de caminhões. Até agora, mais de R$ 4 bilhões já foram liberados pelo BNDES para financiar a compra desses veículos. No entanto, o impacto do programa ainda não é completamente refletido nos números de emplacamento, já que existe um intervalo de tempo entre o faturamento e o emplacamento dos veículos.

Embora o programa tenha sido bem recebido, ele enfrenta desafios. A principal limitação é que ele se destina a transportadores que compram veículos de até R$ 3,9 milhões, o que exclui 35% do mercado potencial. No entanto, tem sido crucial para impulsionar a demanda no varejo e estimular o crédito, especialmente em um contexto de altas taxas de juros.

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