A mobilidade está diretamente relacionada ao desejo das pessoas por qualidade de vida, lazer e convivência com a cidade. A infraestrutura urbana influencia profundamente as decisões sobre onde morar e trabalhar. Nesse contexto, a mobilidade elétrica se apresenta como uma solução para mais qualidade de vida, uma vez que a substituição do diesel pela eletricidade melhora o conforto, reduz a poluição e impacta positivamente a saúde pública.
Essas considerações foram compartilhadas por Iêda Maria Oliveira, diretora-executiva da Eletra, durante sua participação no seminário sobre eletromobilidade, promovido pelo Lide – Grupo de Líderes Empresariais, em São Paulo, no dia 24 de fevereiro de 2026. O evento contou com a participação de especialistas, políticos e empresários.
A executiva afirmou que a mobilidade elétrica representa mais do que uma simples mudança tecnológica; ela configura uma transformação profunda no modo de viver nas cidades, na economia e no comportamento da população.
Logo na abertura do seminário, Iêda contextualizou o debate, relatando que levou mais de duas horas para percorrer o trajeto entre São Bernardo do Campo e a avenida Faria Lima. O episódio, segundo ela, ilustra como a mobilidade impacta diretamente a qualidade de vida e as decisões cotidianas das pessoas.
“A transformação que estamos vivendo passa principalmente pelo comportamento. As pessoas querem qualidade de vida, querem conviver mais com a cidade, com a família, querem lazer e tempo”, afirmou.

Infraestrutura deixa de ser invisível
Para Iêda, a infraestrutura urbana deixou de ser um tema restrito às políticas públicas e passou a influenciar decisões individuais, como onde morar, trabalhar ou investir. A pandemia e a consolidação do home office intensificaram essa mudança, ampliando a valorização do tempo e do bem-estar.
Nesse cenário, a mobilidade tornou-se estratégica. “Você começa a observar o transporte público, o trânsito, a praça, se está limpa ou não. A percepção da cidade muda. A infraestrutura passou a fazer parte do dia a dia das pessoas”, disse.
Ela destacou ainda que a consciência ambiental está cada vez mais presente. Ao citar a própria mãe, de 86 anos, que se queixa dos efeitos da poluição, a diretora reforçou que o impacto da má qualidade do ar é percebido na prática, independentemente de dados técnicos ou estatísticas.
Mais do que substituição energética
Segundo a executiva, a mobilidade elétrica surge como resposta à demanda por cidades mais saudáveis e confortáveis. Ela ressaltou que a substituição do diesel pela eletricidade não se resume à mudança de combustível.
“Há uma mudança completa no conceito de tecnologia de transporte. O ônibus elétrico é mais silencioso, mais confortável, não dá tranco. A percepção do passageiro vai além da questão ambiental: é sobre conforto”, afirmou.
Iêda citou como exemplo os corredores de ônibus historicamente movidos a diesel, que geraram impactos negativos ao comércio e à saúde pública devido à fuligem e à emissão de material particulado. Também mencionou a experiência de Curitiba, onde os primeiros corredores chegaram a concentrar elevados níveis de poluição antes de ajustes tecnológicos na frota.
De acordo com ela, a eletrificação reduz ruído e emissões, melhora a saúde pública e altera o próprio comportamento dos usuários. “Em um terminal, se o passageiro vê o ônibus elétrico chegando, ele espera. Não quer mais o diesel”, relatou.
Liderança industrial em disputa
Iêda defendeu que a eletromobilidade também deve ser encarada como uma política industrial. O Brasil possui a terceira maior frota de ônibus urbanos do mundo e historicamente liderou o mercado latino-americano. No entanto, segundo ela, o país perdeu espaço para fabricantes asiáticos no segmento elétrico.
“A Eletra se posiciona como líder nacional no mercado de ônibus elétricos. Somos uma empresa 100% brasileira, com 26 anos de experiência, desde os trólebus até híbridos e elétricos puros. Não podemos ficar para trás tecnologicamente”, afirmou.
A executiva destacou que os ônibus desenvolvidos pela companhia são projetados para a realidade brasileira, marcada por vias acidentadas, rampas superiores a 23% e alta lotação. Para ela, fortalecer a cadeia produtiva nacional é fundamental para recuperar competitividade na América Latina e gerar empregos qualificados.
Revolução nas garagens
Outro ponto enfatizado foi o impacto da eletrificação na qualificação profissional. Segundo Iêda, a introdução de ônibus elétricos nas garagens tem provocado uma “avalanche” por capacitação. “Funcionários que estavam há anos na manutenção agora querem fazer faculdade, estudar engenharia elétrica, se especializar. Não é só trocar combustível, é transformar o sistema e as pessoas”, disse. Ela classificou o processo como uma revolução interna no setor de transporte, com reflexos na formação técnica e na valorização da mão de obra.
O papel de São Paulo
Iêda atribuiu à cidade de São Paulo um papel central na expansão da mobilidade elétrica no país. Ela relembrou a aprovação, em 2018, da lei municipal que estabeleceu metas de redução de emissões no transporte público, durante a gestão do então prefeito João Doria.
Segundo a diretora, a implementação efetiva das metas ocorreu na administração de Ricardo Nunes, apesar de resistências e questionamentos sobre custo, tecnologia e infraestrutura energética. “Houve pressão dizendo que não havia energia, que não havia fabricante, que os ônibus não funcionavam. Mas o processo permaneceu. Hoje, não tem volta”, afirmou.
Para Iêda, a consolidação da eletromobilidade é irreversível, impulsionada tanto pela preferência dos operadores quanto pela demanda da população por conforto e sustentabilidade. Encerrando sua participação, a executiva reforçou que a mobilidade elétrica é um instrumento de transformação ambiental, econômica e social. “Se depender de nós, o céu vai continuar azul”, disse.
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