ENTREVISTA: Mauricio Corte, vice-presidente de contas estratégicas da Hitachi Mobility Multimodal Solutions na América Latina
Tecnologia é fundamental na implementação de políticas de tarifa zero, identificando problemas e apoiando intervenções, mas a iniciativa exige recursos, prioridade viária e decisões de gestão
Publicado em 22/10/2026 por Márcia Pinna

Technibus - Do ponto de vista tecnológico, quais os desafios para se implementar a tarifa zero nos sistemas de transporte brasileiros?
Maurício Corte - O primeiro desafio é compreender como a gratuidade modifica a demanda: onde ela cresce, em quais horários e com que impacto nos trechos que já operam próximos da capacidade. Também precisamos distinguir embarques de deslocamentos completos, pois uma viagem com integração pode gerar vários registros e distorcer o dimensionamento. A ausência de cobrança não elimina a necessidade de medir. Precisamos combinar contagem de passageiros, pesquisas de origem e destino, localização dos veículos e informações territoriais, com cadastros e critérios consistentes entre os sistemas. Isso exige infraestrutura tecnológica, governança de dados e capacidade de gestão. Digitalizar processos inadequados apenas torna suas limitações mais visíveis. Implementar a tarifa zero sem preparar essa estrutura pode comprometer a qualidade e a sustentabilidade do transporte público. É uma política que exige maturidade, planejamento e responsabilidade na execução.
Technibus - Como a tecnologia pode dar maior sustentabilidade à iniciativa?
Maurício Corte - A tecnologia permite relacionar custo, oferta e resultado, evitando decisões baseadas apenas em médias. Uma linha pouco ocupada pode ser essencial para determinado território; um custo menor por passageiro pode coexistir com uma despesa total maior.
Precisamos avaliar o custo de atender à demanda adicional. Havendo capacidade disponível, parte do crescimento pode ser absorvida. Se ocorrer nos horários e trechos já saturados, serão necessários mais veículos, profissionais e estrutura. Ferramentas de planejamento e programação permitem simular essas situações e comparar alternativas, preservando cobertura e qualidade.
Também é necessário vincular o serviço programado ao realizado e à remuneração contratual. Na dimensão ambiental, mais embarques não comprovam, isoladamente, redução de emissões: é preciso avaliar a substituição do automóvel e a operação adicional.
Tarifa zero não significa transporte sem custo. Profissionais, energia, manutenção e infraestrutura continuarão sendo pagos. A tecnologia ajuda a qualificar essa despesa, mas não substitui uma fonte estável de financiamento. Essa conta continuará sendo suportada pela sociedade e precisa ser transparente.
3) A tarifa zero pode trazer um aumento significativo de demanda no transporte coletivo. Como dimensionar melhor a frota?
Maurício Corte - Não podemos aplicar um percentual uniforme de crescimento a toda a rede. O dimensionamento deve considerar demanda por trecho, sentido e horário, capacidade dos veículos e parâmetros de conforto. Também precisamos analisar o tempo de ciclo, incluindo percurso, terminais e recuperação de atrasos. Se a velocidade comercial diminui, mais ônibus serão necessários para manter o intervalo, mesmo sem aumento de passageiros. Ampliar a frota sem enfrentar as condições de circulação pode elevar custos sem melhorar proporcionalmente o atendimento.
O caminho é simular cenários com diferentes demandas e tempos de viagem, estabelecer critérios para reforços e ajustar a oferta gradualmente. Veículos, motoristas, manutenção e infraestrutura devem ser dimensionados em conjunto. Nas frotas elétricas, autonomia, consumo, carregadores e janelas de recarga também condicionam a operação. Uma frota suficiente no papel pode ser insuficiente nas ruas.
Technibus - A tecnologia pode ajudar a manter a qualidade do transporte, mesmo com o crescimento da demanda?
Maurício Corte - Sim, desde que conecte planejamento, execução, controle e revisão da oferta. Acompanhar a posição dos veículos não basta: precisamos identificar desvios e ter procedimentos para corrigi-los. Em linhas de alta frequência, por exemplo, controlar os intervalos pode ser mais relevante do que acompanhar horários individuais. Ônibus agrupados geram longas esperas e lotação desigual, mesmo quando a quantidade de viagens parece adequada. Por isso, planejamento e gestão de frota precisam estar integrados.
Os indicadores devem refletir a experiência do passageiro por região, sentido e horário. Médias diárias podem esconder falhas recorrentes de regularidade, ocupação e tempo de espera. A informação ao usuário também depende de dados e previsões confiáveis. A tecnologia não compensa permanentemente uma oferta insuficiente. Ela identifica problemas e apoia intervenções, mas a solução pode exigir recursos, prioridade viária e decisões de gestão.
Technibus - Sistema de Monitoramento e Gestão Operacional (SMGO) que está sendo implementado em São Paulo poderá auxiliar nesse processo?
Maurício Corte - Sim. O SMGO conecta planejamento, programação e acompanhamento operacional, permitindo comparar o serviço previsto com o realizado e utilizar os resultados na revisão da oferta. Em um cenário de ampliação da gratuidade, essa estrutura poderá apoiar simulações, identificar restrições e acompanhar mudanças na demanda, considerando capacidade, regularidade e recursos disponíveis. Para isso, os dados operacionais precisam ser complementados por informações confiáveis sobre passageiros e deslocamentos. O resultado depende da utilização efetiva da plataforma na gestão. Disponibilizar módulos não assegura, por si só, dados completos, integrações validadas ou processos adequados. O valor da solução deve ser demonstrado por melhorias verificáveis, com indicadores de referência e responsabilidades claras.
Technibus - Como está o andamento da implementação da plataforma em São Paulo? Em que fase está atualmente?
A implantação é realizada por etapas, com entregas, integração de dados, testes, capacitação e validação junto à SPTrans e às operadoras. É importante distinguir uma funcionalidade disponibilizada, uma funcionalidade validada e uma funcionalidade incorporada à rotina operacional. O avanço precisa ser avaliado pela consistência dos dados, estabilidade das integrações e capacidade de utilização na escala e na complexidade de São Paulo. O objetivo é consolidar uma base integrada de gestão, utilizada continuamente no planejamento e na operação. Os marcos de conclusão devem refletir as validações e os aceites correspondentes.
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