FIAA 2026: entre a eletrificação e a eficiência do diesel, o transporte busca seu caminho
por Cláudio Nelson C. Rodrigues de Abreu, há 50 anos vivenciando o transporte
Publicado em 05/10/2026 por Redação


A 16ª edição da Feria Internacional de Autobuses y Autocares – FIAA, realizada em Madri, entre 22 e 24 de setembro passado, ocupou 40.000 m2 na Institución Ferial de Madrid - IFEMA (semelhante ao São Paulo Expo), reunindo 110 expositores e exatos 10.859 visitantes. Classificada pelo CEO da Daimler Buses da Espanha e Portugal como a principal vitrine do setor no Sul da Europa, a feira oferece um contraponto interessante quando comparada à nossa Lat.Bus 2026, realizada em agosto.
A Lat.Bus 2026 demonstrou maior peso comercial, com área de 45.000 m2, cerca de 200 expositores, 31.368 visitantes e uma vantagem decisiva: reuniu 100% das montadoras e encarroçadoras com atuação relevante no mercado nacional. Em Madri, por exemplo, notou-se a ausência de gigantes como a MAN/Neoplan, Scania e Volvo.
Falando somente de ônibus (além deles, havia micro-ônibus), especificados na Europa como Classe I (urbanos/semiurbanos, piso baixo), Classe II (interurbanos de média distância, piso alto) e Classe III (rodoviários de longa distância), havia expositores da Alemanha (Mercedes-Benz e Setra), Brasil (Marcopolo), China (BYD, Farizon, Higer, Yutong), Espanha (Ayats, Irizar, Mercedes-Benz novamente, que tem uma fábrica local, e UNVI), Itália (Iveco), Polônia (Solaris) e Turquia (Anadolu Isuzu, Karsan, Otokar e Temsa).
Em um retrato claro da transição energética, nas Classes I e II, a presença de elétricos a bateria foi massiva, ao lado de alguns híbridos, com total ausência de motores a Diesel. Já na Classe III, o cenário se inverte: o motor a combustão Euro VI continua soberano, com pouquíssimos elétricos a bateria. Lá como cá, os desafios de autonomia, peso das baterias e infraestrutura de recarga mantêm o Diesel na liderança nos rodoviários pesados, abrindo espaço para hibridização como rota tecnológica intermediária promissora.
Por terem fábrica no Brasil e atuarem no segmento dos rodoviários pesados, que é o meu foco, merecem destaque a presença na FIAA 2026 de uma importante montadora, a Daimler Bus (Mercedes-Benz / Setra), e duas importantes encarroçadoras, a Irizar e a Marcopolo (em ordem alfabética).
Começando pela Daimler, podemos dizer que consolidou sua estratégia de mobilidade sustentável, pautada pelo conceito do “produto certo no momento certo”. No segmento urbano (Classe I), brilhou o MB eCitaro, com a 4ª. geração de baterias Níquel-Manganês-Cobalto (NMC4), alcançando impressionantes 600 km de autonomia. No interurbano (Classe II), estreou o MB eIntouro M, com baterias Lítio-Ferro-Fosfato (LFP) e autonomia de 500 km. Ainda na Classe II, chamou a atenção o lançamento do chassi MB OC 500 RF 1936 híbrido, ostentando o orgulhoso selo “Fabricado em España”. Na Classe III, foram expostos um MB Tourismo que, ao lado dos impecáveis Setra S531 DT, um double decker, e o Setra S515 HD, um high decker, utilizam o motor OM 470, Euro 6, a Diesel.
A Irizar reafirmou sua vanguarda técnica ao apresentar o inédito elétrico i3 Normal Floor, 6x2, de 15 metros, da Classe II, autonomia superior a 500 km, com capacidade para até 69 passageiros sentados, Sob a ótica da engenharia de ciclo de vida, a Irizar comprova seu compromisso ambiental com Declarações Ambientais de Produto (Environmental Product Declaration –EPD) ancoradas na norma ISO 14025 e em Análises do Ciclo de Vida (ISO 14040/14044, alcançando impressionantes índices médios de reciclabilidade de 92,95% e recuperabilidade de 97,44% em seus veículos. Essa abordagem, considerando o todo, se traduz ainda na ampliação da estrutura de pós-venda e no avanço de ferramentas de diagnóstico dedicado a frotas elétricas, consolidando um ecossistema seguro, rentável e de alto valor agregado para o transporte de passageiros.
A investida da Marcopolo no exigente mercado rodoviário europeu é fruto de uma visão estratégica consistente. A alavanca desse projeto é o modelo G8, com seus refinamentos estruturais. Para o mercado europeu (assim como para o brasileiro), ele já está homologado pela rigorosa norma de segurança internacional ECE R66.2 (resistência ao tombamento). A substituição dos espelhos retrovisores por câmeras digitais reduz o arrasto aerodinâmico e o Custo Total de Propriedade (TCO, na sigla em inglês) para o operador. O Paradiso G8 1200, com design fluido, alia ergonomia aprimorada no cockpit e conforto aos passageiros a uma rede de suporte pós-venda via parcerias estratégicas com montadoras globais, como Volvo e Scania. Aproveitando o fato de o mercado dos ônibus Classe III estar aquecido na Europa atualmente, a Marcopolo, com sua agilidade fabril e prazos de entregas menores do que a concorrência, certamente haverá de conquistar o seu espaço na Europa também.
Para concluir, cabe registrar que a FIAA 2026 foi palco ainda da entrega do prestigioso prêmio Sustainable Bus 2027. Um júri composto por representantes da Imprensa especializada européia atribuiu o Sustainable Bus Awards – SBA, na Classe I, para o Solaris Urbino 18, a hidrogênio, new generation; na Classe II, o SBA foi para a BYD B12.b HF, elétrico; e, para a Classe III, o SBA foi para a Irizar i6s Efficient/Scania Plug-in Hybrid Electric Vehicle – PHEV. Curiosamente, à exceção do ônibus da BYD, os demais não estavam expostos fisicamente na Feira – um lembrete de que, no transporte comercial, a inovação algumas vezes roda à frente das próprias exposições.

Fique por dentro das principais notícias e novidades do mundo do Transporte Coletivo e da Mobilidade:
Acompanhe o Canal Technibus no WhatsApp
Acompanhe as nossas redes sociais: Linkedin, Instagram e Facebook
Acesse o Acervo Digital OTM Editora


