ANPTrilhos defende agenda integrada para o transporte público
A diretora-presidente da ANPTrilhos, Ana Patrizia Lira, destaca que o desenvolvimento dos sistemas sobre trilhos depende da integração com ônibus e outros modos, de novas fontes de financiamento e de uma participação mais efetiva da União
Publicado em 02/09/2026 por Alexandre Asquini
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A agenda do transporte sobre trilhos precisa ultrapassar os limites dos sistemas metroferroviários e ser tratada como parte de uma política mais ampla de mobilidade urbana. Essa é uma das principais avaliações de Ana Patrizia Lira, diretora-presidente da Associação Nacional dos Transportadores de Passageiros sobre Trilhos (ANPTrilhos), ao analisar para a Technibus os resultados do encontro Conexão ANPTrilhos, que sua entidade realizou no final de agosto, em Brasília.
Para a dirigente, a integração entre trilhos e pneus é essencial para que os diferentes modos atuem de forma complementar e ofereçam um serviço melhor ao passageiro. O encontro teve a participação de representantes de três candidatos a presidente da República bem situados nas pesquisas.
"No Trilho Certo"
Em sua segunda edição, o Conexão ANPTrilhos reuniu operadores, indústria, especialistas e autoridades para discutir as prioridades do setor. A intenção, segundo Ana Patrizia, é consolidar esse evento como um evento anual de articulação do segmento.
Neste ano, diante do contexto eleitoral, a entidade reuniu suas principais reivindicações sob a campanha “No Trilho Certo”. Embora formulada a partir das demandas do setor metroferroviário, a proposta deve ser compreendida, na avaliação da dirigente, dentro de uma visão abrangente do transporte público.
“Quando eu falo de transporte, não estou falando só de trilhos”, afirmou. Ana Patrizia defende o conceito de transporte estruturante, envolvendo sistemas sobre trilhos e serviços por ônibus. A articulação entre os modos, segundo ela, é necessária para a construção de uma rede mais eficiente.
A necessidade de integração ganha importância diante da fragmentação que ainda caracteriza diversos sistemas urbanos e metropolitanos. Em muitas cidades, observa, os sistemas de trilhos e ônibus funcionam de maneira pouco articulada. “O sistema de trilhos não conversa com o sistema de ônibus”, resumiu.
Importância do Marco Legal
Para a diretora-presidente da ANPTrilhos, o novo Marco Legal do Transporte Público Coletivo, instituído pela Lei 15.432/26, pode contribuir para enfrentar esse problema e reorganizar os sistemas. Essa lei, em sua avaliação, introduz instrumentos relacionados a regras de desempenho, novas fontes de financiamento e integração entre os modos.
Entre os pontos destacados está a separação entre a tarifa técnica, relacionada ao custo da prestação do serviço, e a tarifa paga pelo passageiro. A medida pode contribuir para reorganizar o modelo de financiamento e reduzir o peso da tarifa sobre o usuário.
O financiamento constitui, justamente, um dos três pilares da campanha “No Trilho Certo”. O primeiro é o financiamento do custeio. Ana Patrizia considera necessário buscar novas fontes de recursos para permitir tarifas mais módicas e, dessa forma, trazer passageiros de volta aos sistemas.
O segundo eixo é o financiamento dos investimentos. A expansão dos sistemas de média e alta capacidade exige recursos em volume suficiente e, principalmente, previsíveis. “Para crescer e para alcançar mais pessoas, é preciso que haja financiamentos previsíveis”, afirmou.
Como referência, citou o Estudo Nacional de Mobilidade Urbana, desenvolvido pelo BNDES e pelo Ministério das Cidades, que apontou a necessidade de cerca de R$ 20 bilhões anuais em investimentos para sistemas de transporte de alta e média capacidade. Para a ANPTrilhos, a previsibilidade dos recursos é fundamental para transformar projetos de expansão e modernização em uma política contínua.
O terceiro eixo é a coordenação federativa. Na avaliação da dirigente, não basta garantir recursos se estados e municípios continuarem atuando de maneira desarticulada. A organização dos sistemas metropolitanos, com autoridades responsáveis pela coordenação, integração física e integração tarifária, é necessária para que os investimentos produzam resultados.
Participação da União
Ana Patrizia defende uma atuação mais efetiva da União em todo o processo de expansão e qualificação do transporte público. Segundo ela, o novo Marco Legal amplia as possibilidades de participação federal na política de transporte público.
A expectativa da entidade é que o governo federal participe, junto com estados e municípios, da construção de fontes para o custeio, estimule projetos de infraestrutura de transporte urbano e contribua para a coordenação entre os diferentes níveis de governo.
Mesmo reconhecendo que as competências do transporte metropolitano e urbano permanecem distribuídas entre estados e municípios, a dirigente entende que a União pode induzir mudanças por meio de incentivos e das condições associadas aos financiamentos. Os recursos federais poderiam, assim, estimular a integração e a reorganização dos sistemas.
A proposta encontrou, segundo Ana Patrizia, convergência entre diferentes correntes políticas representadas no Conexão ANPTrilhos. No painel de encerramento, Daniela Marques, representando Flávio Bolsonaro; Adriano Rocha Lima, representando Caiado; e Jean Carlo, representando o governo Lula, reconheceram, de acordo com ela, que a União pode fazer mais pelo transporte público.
Razões da convergência
A convergência observada entre os representantes dos candidatos ocorre diante de problemas como congestionamentos, poluição e aumento dos acidentes. Para a diretora-presidente da ANPTrilhos, o cenário reforça a necessidade de novas políticas públicas e de uma atuação federal mais estruturada.
Nesse contexto, o transporte sobre trilhos passa a ser visto como componente de uma rede mais ampla. A expansão de metrôs, trens e outros sistemas de alta capacidade deve ocorrer em articulação com os serviços por ônibus e demais elementos da mobilidade urbana.
A avaliação sobre o Conexão ANPTrilhos aponta, assim, para uma agenda baseada em três movimentos: garantir recursos para custear os serviços, estabelecer financiamento previsível para os investimentos e criar mecanismos de coordenação capazes de integrar modos e níveis de governo.
O objetivo é fazer com que trilhos e ônibus deixem de ser tratados como sistemas isolados e passem a funcionar como partes de uma mesma rede. Nesse modelo, a política de transporte público deixa de estar centrada exclusivamente na infraestrutura ou na tarifa e passa a considerar a organização integrada do serviço e a experiência do passageiro.
É nessa perspectiva que a campanha “No Trilho Certo” amplia seu alcance. Embora formulada a partir das prioridades do setor metroferroviário, a proposta busca colocar em discussão uma questão mais abrangente: como estruturar, financiar e coordenar uma rede de transporte público capaz de responder aos desafios de mobilidade das cidades brasileiras.
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