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Mais que subsídio, transporte público precisa de um novo modelo de financiamento

Um dos cinco painéis do Seminário Nacional da NTU, realizado no contexto da LAT.BUS 2026, mostrou que ampliar os recursos públicos não basta para superar a crise do transporte coletivo: é preciso diversificar fontes, separar tarifa do custo do serviço, corrigir distorções, melhorar a qualidade e fazer com que toda a sociedade participe do financiamento.

Publicado em 19/08/2026 por Alexandre Asquini

Jurandir Fernandes, Flávio Chevis, Paula Manoela dos Santos e Diego Fuentes (Foto: Márcio Bruno)

O problema do financiamento do transporte público não é apenas encontrar mais dinheiro para os sistemas. É, sobretudo, redefinir quem paga, por que paga, como o recurso chega ao transporte e o que a sociedade recebe em troca.

Essa foi a principal conclusão do painel do Seminário Nacional da NTU, realizado durante a LAT.BUS 2026, que reuniu Flávio Chevis, CEO da Addax e presidente do Comitê Global de Economia e Financiamento de Transportes da UITP; Jurandir Fernandes, engenheiro e professor, ex-secretário estadual paulista de transportes metropolitanos e vice-presidente honorário da UITP; Paula Manuela dos Santos, gerente de mobilidade urbana do WRI Brasil, e Diego Fuentes, gerente de planejamento e desenvolvimento da empresa chilena de transporte público Metbus S.A.

Ao longo do debate, os participantes convergiram para uma mudança de paradigma: o transporte coletivo não pode mais ser tratado como um serviço cujo custo deve ser predominantemente coberto pelo passageiro, mas como uma infraestrutura essencial que produz benefícios econômicos, sociais e ambientais para toda a cidade.

A discussão também mostrou que a mudança no financiamento não pode ser dissociada da qualidade. Mais recursos somente terão sentido se forem capazes de produzir sistemas mais rápidos, frequentes, abrangentes, confiáveis, confortáveis e eficientes, capazes de recuperar passageiros que migraram para o automóvel, para motocicletas e para os aplicativos.

A questão, portanto, não é simplesmente ampliar o subsídio ao ônibus. É construir um modelo em que diferentes beneficiários da mobilidade contribuam para o financiamento e em que os recursos sejam vinculados a uma política pública capaz de transformar a experiência do usuário.

Da tarifa ao financiamento do serviço

Flávio Chevis abriu a discussão destacando a transformação que ocorre internacionalmente na forma de financiar o transporte público. A tarifa paga pelo passageiro vem deixando de ser vista como mecanismo suficiente para equilibrar financeiramente a operação. O desafio passa a ser separar o preço cobrado do usuário do custo efetivo de produção do serviço e encontrar fontes extratarifárias capazes de cobrir a diferença.

Segundo ele, dados do Global Economic Outlook 2026, da UITP, baseado em mais de uma centena de respostas, mostram que, em média, metade do custo operacional dos sistemas pesquisados já é coberta por fontes extratarifárias. São Paulo estaria acima dessa média.

A questão brasileira, entretanto, não é simplesmente adotar uma fórmula estrangeira. Para Chevis, falta ao país uma cultura institucional de financiamento permanente do transporte público. Em diversos países europeus, governos incorporaram historicamente o financiamento do transporte como parte de suas responsabilidades. No Brasil, a discussão ainda costuma aparecer como uma solução emergencial para cobrir déficits municipais.

Chevis também chamou atenção para a necessidade de separar Capex, associado à infraestrutura e à expansão, de Opex, relacionado à operação e à manutenção cotidiana. O Brasil consegue mobilizar recursos de instituições como BNDES, BID, Banco Mundial, AFD e KfW para grandes investimentos, mas encontra mais dificuldades para garantir fontes permanentes para o custeio.

Uma alternativa mencionada foi a utilização de mecanismos de captura da valorização imobiliária provocada pelos investimentos em transporte. A experiência da Elizabeth Line – linha sobre trilhos de alta capacidade que atravessa Londres e arredores, inaugurada em maio de 2022 – foi citada como exemplo de utilização de recursos associados à valorização de empreendimentos beneficiados pela nova infraestrutura. A lógica é fazer com que parte do valor econômico criado pela mobilidade retorne ao próprio sistema que produziu esse benefício.

O automóvel também é subsidiado

Paula Manuela dos Santos ampliou a discussão ao questionar uma premissa frequentemente presente no debate público: a de que somente o transporte coletivo é subsidiado.

As cidades destinam recursos públicos à construção e manutenção das vias utilizadas pelos automóveis e também arcam com custos relacionados à poluição, aos sinistros de trânsito e a outras externalidades provocadas pelo transporte individual. Ou seja, há um volume significativo de recursos públicos sustentando um modelo de mobilidade que não é o transporte coletivo.

Paula citou estudo do WRI que analisou uma cidade brasileira de aproximadamente um milhão de habitantes. Segundo ela, os gastos com infraestrutura viária, manutenção e fiscalização correspondiam a uma fração dos custos gerados pelas externalidades do transporte individual. No exemplo apresentado, para cada unidade investida haveria cerca de três unidades de custos associados às externalidades.

O exemplo não foi apresentado como proposta específica de política tributária, mas como forma de demonstrar a ordem de grandeza envolvida. A questão central, segundo Paula, é que os custos do transporte individual são socializados, enquanto os benefícios do transporte coletivo não são adequadamente incorporados à conta pública.

O ônibus produz benefícios que ultrapassam o usuário que está dentro do veículo: reduz emissões, diminui sinistros, amplia o acesso ao emprego, à educação e à saúde e permite que a cidade funcione com menor dependência do automóvel.

Daí a necessidade de mudar o paradigma: o transporte público deve deixar de ser entendido apenas como um serviço para quem o utiliza e passar a ser reconhecido como um benefício para toda a sociedade.

Diversificar as fontes

A consequência dessa mudança é a necessidade de diversificar as fontes de financiamento. Paula apresentou três grandes grupos. As fontes diretas incluem tarifa, estacionamento e pedágio urbano. As indiretas podem envolver empregadores e atividades econômicas ou imobiliárias beneficiadas pela mobilidade. E há as fontes gerais, provenientes dos governos, fundos e programas públicos.

A ideia não é encontrar uma fonte única capaz de resolver todos os problemas, mas construir uma combinação que torne o sistema menos vulnerável a oscilações de demanda, crises fiscais e mudanças econômicas.

A diversificação, entretanto, precisa estar associada à melhoria da qualidade. Se a sociedade for chamada a contribuir, deverá perceber resultados em frequência, eficiência, conforto e qualidade do serviço. Essa conexão entre financiamento e qualidade apareceu como uma das principais convergências do painel.

O passageiro deixou de ser cativo

Jurandir Fernandes levou a discussão para o lado da oferta. Para ele, não basta resolver a equação financeira se o transporte continuar oferecendo um serviço pouco competitivo.

A experiência internacional mostra, em sua avaliação, que qualidade precisa ser traduzida em atributos concretos: tempo de viagem, velocidade comercial, frequência, cobertura, confiabilidade, conforto, acessibilidade e informação.

Um dos problemas é que muitas redes continuam estruturadas para uma configuração urbana que já mudou. A expansão de novas centralidades, o crescimento do comércio e dos serviços nos bairros e a transformação dos padrões de deslocamento alteraram a geografia das viagens.

Os dados de bilhetagem, segundo Fernandes, oferecem instrumentos para compreender essa nova realidade e redesenhar os sistemas. Em vez de depender exclusivamente de pesquisas domiciliares tradicionais, os gestores podem utilizar informações reais de deslocamento para identificar como a população está se movimentando.

Jurandir chamou atenção ainda para a diferença entre frequência e cobertura. Há usuários que não têm dificuldade em pagar a tarifa, mas não utilizam o transporte coletivo porque a rede não chega aos lugares onde precisam ir. Para ele, o desafio não é apenas aumentar a oferta nos corredores de maior demanda, mas encontrar o equilíbrio entre frequência e cobertura territorial.

A modernização da bilhetagem também faz parte dessa transformação. Ao citar experiências europeias, Jurandir destacou a integração entre redes e sistemas de pagamento e o avanço do chamado ‘account-based ticketing’. A tendência, segundo ele, é que o cartão tradicional perca espaço para o celular e o próprio cartão bancário como instrumentos de acesso ao transporte.

Essa adaptação tornou-se ainda mais urgente porque, para Fernandes, acabou o mito do passageiro cativo. O usuário passou a contar com múltiplas alternativas. Aplicativos, transporte sob demanda e outros serviços introduziram uma concorrência que não existia na mesma intensidade.

Ele citou o caso de Itajubá (MG) como exemplo de cidade média em que um serviço local de transporte sob demanda consegue disputar diretamente com o transporte público convencional. Segundo Jurandir, corridas de cerca de R$ 10 a R$ 12 podem ser compartilhadas por três passageiros, reduzindo o custo individual para algo entre R$ 3 e R$ 5. O serviço, baseado em plataforma local, cobra uma taxa muito inferior à de grandes aplicativos. A experiência, para ele, mostra como o transporte porta a porta já entrou na disputa pelo passageiro mesmo em cidades de menor porte. A consequência é direta: um serviço ruim pode perder até mesmo o passageiro de menor renda.

A nova geografia urbana exige novas redes

Fernandes também chamou atenção para uma transformação menos evidente: a geografia econômica das cidades está mudando.

O avanço de atividades econômicas nos próprios bairros — comércio, prestação de serviços, cuidados pessoais, pequenos negócios e trabalho autônomo — reduz a necessidade de deslocamentos exclusivamente radiais em direção ao centro. Esse fenômeno exige redes mais flexíveis e adaptadas às novas centralidades.

Para o especialista, isso demanda coragem política dos municípios. Alterar sentidos de circulação, implantar binários, retirar espaço do automóvel e reorganizar a rede podem gerar resistência, mas são medidas necessárias para adaptar a cidade. Jurandir criticou a hesitação de gestores diante até de mudanças simples na circulação viária e defendeu que os municípios tenham coragem para testar soluções e enfrentar resistências quando elas forem necessárias para melhorar a mobilidade.

A prioridade ao transporte coletivo, porém, precisa ser acompanhada de cuidado com os efeitos urbanos. Fernandes alertou para o risco de gentrificação associado a investimentos de mobilidade que valorizem excessivamente determinadas áreas e acabem expulsando moradores de menor renda.

Recursos precisam chegar ao sistema

No fechamento do debate, Jurandir retomou a dimensão institucional do financiamento. Para ele, o Brasil já acumulou diagnósticos suficientes. O marco legal, os estudos do BNDES e o levantamento da CNT oferecem informações e projeções que poderiam ser transformadas em programas e projetos. O desafio agora é sair da fase de diagnóstico e entrar na execução.

Um dos obstáculos apontados é a ausência ou fragilidade das autoridades metropolitanas em grande parte das regiões urbanas. Sem uma estrutura capaz de coordenar municípios, redes e fontes de financiamento, torna-se difícil transformar investimentos isolados em política integrada.

Outro ponto é a necessidade de fontes vinculadas. Na avaliação de Jurandir, não basta criar uma fonte de recursos para o transporte se o dinheiro puder ser incorporado ao caixa geral do Tesouro e disputar recursos com as demais despesas públicas. É necessário criar mecanismos que garantam que os valores destinados ao setor sejam efetivamente preservados para a operação e os investimentos, inclusive por meio de fundos específicos.

A preocupação não é apenas com a existência do dinheiro, mas com sua governança. Jurandir relacionou ainda essas mudanças ao novo marco legal da mobilidade, que, segundo ele, já incorpora questões como qualidade e velocidade do serviço, integração e transparência de dados, previstas, respectivamente, nos artigos 31, 9º e 14. Para o especialista, o novo arcabouço articula regras pelas quais o setor vem lutando há anos.

Financiamento como política de justiça social

Paula acrescentou uma dimensão política à discussão. Se o transporte coletivo é uma infraestrutura da qual toda a sociedade se beneficia, seu financiamento deve ser tratado como uma política de justiça social.

Ela estabeleceu uma comparação com o Sistema Único de Saúde (SUS): mesmo quem não utiliza diretamente o sistema reconhece que existe um benefício social em sua existência e aceita que ele seja financiado coletivamente. A mesma lógica, em sua avaliação, deveria ser aplicada ao transporte público.

A mudança de narrativa é fundamental para criar legitimidade para novas fontes de recursos. Em vez de apresentar o subsídio como um favor ao passageiro ou como uma transferência para empresas operadoras, é necessário mostrar o retorno que o transporte coletivo produz para toda a cidade.

Paula também defendeu projetos demonstrativos que combinem financiamento, eficiência operacional e tecnologia embarcada e produzam resultados visíveis. Experiências concretas podem demonstrar o valor social dos investimentos e ajudar a impulsionar projetos maiores.

Chile mostra como separar tarifa e remuneração

A experiência chilena apresentada por Diego Fuentes deu ao debate uma dimensão prática. Segundo Fuentes, o transporte coletivo passou por uma transformação que envolveu formalização, organização empresarial e criação de mecanismos permanentes de financiamento.

Em Santiago, a remuneração do operador deixou de depender diretamente da quantidade de passageiros pagantes. O poder público estabelece o plano operacional e remunera a prestação do serviço de acordo com parâmetros como frequência e cumprimento da programação. Essa separação permite que a tarifa seja uma decisão de política pública, enquanto a remuneração do operador esteja associada à prestação efetiva do serviço.

Fuentes também destacou o papel da escala. A organização empresarial permite racionalizar operações, melhorar condições de trabalho, incorporar tecnologia e criar condições para investimentos de maior porte.

Para Fuentes, essa transformação depende também da formalização do setor. Sistemas baseados em pequenos operadores informais podem atender a determinados mercados, mas não oferecem a mesma capacidade de planejamento, padronização, cumprimento de normas, organização trabalhista e acesso a financiamento de estruturas empresariais de maior escala. A profissionalização, portanto, aparece como parte da própria construção de um sistema financiável e capaz de evoluir tecnologicamente.

O modelo também ajudou a viabilizar a eletrificação. A experiência da Metbus, apresentada por Fuentes, chegou a cerca de 950 ônibus elétricos, mostrando como escala e estrutura empresarial podem facilitar o financiamento de veículos e infraestrutura.

Um dos elementos decisivos é que o financiamento pode considerar o conjunto do projeto — ônibus, carregadores, manutenção, operação e infraestrutura — e não apenas a aquisição do veículo. A participação pública reduz riscos e, ao reduzir o risco do projeto, pode melhorar suas condições financeiras.

A experiência também mostra que a eletrificação não pode ser tratada apenas como compra de ônibus. Para Fuentes, é necessário considerar simultaneamente veículos, infraestrutura de recarga, manutenção, operação, capacitação e desenho dos serviços. A escala e soluções de infraestrutura adaptadas às condições locais são determinantes para reduzir custos e permitir que a transição avance.

O “fundo espelho” e a descentralização

Outra experiência chilena citada por Fuentes foi a criação de um fundo espelho para evitar a concentração dos recursos de transporte em Santiago.

A legislação estabeleceu que, para cada recurso destinado ao financiamento do transporte público da capital, deveria haver valor equivalente destinado às demais cidades. O mecanismo ajudou a levar projetos de eletrificação a municípios menores, com frotas de dezenas de ônibus.

A experiência é particularmente relevante para o Brasil porque demonstra que a discussão sobre financiamento também envolve equidade territorial. Uma política nacional de transporte público não pode concentrar recursos apenas nos maiores sistemas.

Fuentes também destacou a importância da prioridade viária. Em Santiago, corredores segregados praticamente dobram a velocidade comercial em determinados contextos e tornam o tempo de viagem mais previsível. Mas retirar espaço do automóvel para destiná-lo ao transporte coletivo continua sendo uma decisão politicamente difícil.

 

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