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ABtec Mobilidade nasce para dar voz às desenvolvedoras de tecnologias e acelerar o amadurecimento do mercado

Idealizada a partir de uma conversa entre especialistas de empresas durante a Lat.Bus 2024, nova associação reúne fornecedores de tecnologia para promover padronizações e maior maturidade do mercado. O lançamento oficial ocorre no contexto da Lat.Bus 2026, e a nova entidade já projeta realizar um evento próprio na próxima edição da feira internacional, em 2028

Publicado em 07/08/2026 por Alexandre Asquini

Uma conversa de poucos minutos nos corredores da Lat.Bus 2024 acabou dando origem a uma iniciativa que promete influenciar os rumos da tecnologia aplicada ao transporte coletivo no país. O que começou como uma reflexão entre representantes de empresas concorrentes sobre a necessidade de ampliar o diálogo técnico evoluiu, ao longo de dois anos, para a criação da ABtec Mobilidade, associação que será oficialmente apresentada no contexto da Lat.Bus 2026.

Diretores da nova entidade – Rafael Teles, diretor de produto da Transdata; Felipe Leoni, diretor técnico da Prodata Mobility Brasil, e Gustavo Balieiro, diretor da Bus2 – mostraram com exclusividade à Technibus que a ABtec Mobilidade nasce reunindo empresas desenvolvedoras de tecnologias para mobilidade urbana com um propósito que vai além da representação institucional.

Seu objetivo é construir um ambiente permanente de cooperação técnica, capaz de desenvolver padrões, estimular a interoperabilidade entre sistemas, produzir conhecimento e contribuir para o aperfeiçoamento de políticas públicas, regulamentações e processos de contratação relacionados à tecnologia aplicada ao transporte.

Convergência no surgimento

A própria história da associação traduz essa proposta de convergência. Segundo Felipe Leoni, a ideia surgiu logo após um painel sobre bilhetagem realizado durante a Lat.Bus 2024. Embora os participantes discutissem praticamente os mesmos desafios, cada empresa apresentava sua própria visão sobre o tema, sem que existisse um espaço permanente para construir entendimentos comuns.

"Quando terminou o painel, eu conversei com o Rafael Teles e disse que estávamos tentando falar sobre o mesmo assunto, mas cada um olhando para uma direção diferente. Era natural que cada empresa defendesse sua solução, mas faltava um ambiente para discutir tecnicamente os temas que são comuns a todos. Foi ali que surgiu a ideia de criar uma associação nos moldes do que já existe em outros segmentos da indústria eletrônica."

A proposta foi imediatamente bem recebida. Entretanto, transformar aquela conversa informal em uma entidade representativa exigiu praticamente dois anos de trabalho. Foi necessário definir objetivos, construir consensos, elaborar um estatuto, estabelecer critérios de participação e compreender como deveria funcionar uma associação voltada especificamente às empresas de tecnologia para mobilidade.

Nesse processo, a iniciativa também ampliou seu alcance. Inicialmente pensada como um espaço de discussão sobre bilhetagem eletrônica, a proposta rapidamente passou a incorporar outras áreas tecnológicas presentes na operação do transporte coletivo, reunindo empresas que atuam com sistemas inteligentes, gestão de frotas, integração tecnológica, coleta e tratamento de dados, monitoramento operacional e soluções digitais para a mobilidade.

Para Gustavo Balieiro, essa mudança foi decisiva para dar identidade à nova entidade. Ele afirmou: "Houve tentativas anteriores de criar uma associação voltada apenas às empresas de bilhetagem, mas elas nunca prosperaram. Quando começamos essa construção entendemos que o desafio era muito maior. Não faria sentido reunir apenas empresas de bilhetagem. O objetivo passou a ser criar uma associação das empresas de tecnologia para a mobilidade, capaz de discutir tecnicamente os grandes desafios do setor."

Essa visão ampliada também coincidiu com um momento de profundas transformações no ambiente regulatório da mobilidade urbana brasileira. O avanço das discussões sobre o novo marco legal do transporte coletivo, a crescente digitalização dos sistemas operacionais e o fortalecimento das políticas públicas voltadas à gestão baseada em dados evidenciaram a necessidade de uma interlocução técnica mais estruturada entre empresas, operadores e governos.

Segundo Felipe Leoni, foi justamente durante esse processo que os fundadores perceberam que a futura associação teria um papel muito mais abrangente do que o inicialmente imaginado. "A ideia nasceu muito focada na padronização e na construção de convenções técnicas. Mas, ao mesmo tempo, começaram as discussões nacionais sobre o marco regulatório e outros temas relacionados à tecnologia. Percebemos que a associação poderia contribuir orientando operadores, órgãos públicos e gestores na especificação de soluções tecnológicas, ajudando a evitar custos desnecessários e levando mais eficiência para quem realmente importa, que é o cidadão."

Além da produção de referências técnicas, os fundadores entendem que a entidade deverá atuar como um espaço permanente de mediação entre empresas, operadores, governos e demais agentes do setor. A intenção é construir consensos em temas complexos, conciliando diferentes visões tecnológicas para produzir orientações capazes de amadurecer o mercado e reduzir conflitos decorrentes de interpretações divergentes sobre inovação e transformação digital.

Espaço para o desenvolvimento

Embora represente empresas concorrentes, a ABtec Mobilidade pretende atuar justamente sobre aquilo que seus integrantes consideram ser um patrimônio comum do setor: o desenvolvimento tecnológico.

Na avaliação de Rafael Teles, o mercado brasileiro já alcançou maturidade suficiente para dar esse passo coletivo. "As empresas que fundaram a associação possuem décadas de atuação. São organizações que acumularam enorme experiência e hoje entendem que existe um interesse comum acima da concorrência comercial. Precisamos construir padrões reconhecidos pelo mercado, ampliar a transparência, fortalecer a governança e criar referências técnicas que beneficiem todo o setor."

O diretor compara esse processo ao surgimento de outras entidades que contribuíram para consolidar segmentos industriais do transporte. Segundo ele, organizações como a Fabus desempenharam papel decisivo na construção de referências técnicas e padrões de qualidade para a indústria de ônibus. Ele avalia que, da mesma forma, a ABtec Mobilidade poderá exercer função semelhante na área das tecnologias aplicadas à mobilidade.

Para Teles, a tecnologia não deve ser encarada como um fim em si mesma, mas como instrumento para produzir melhores informações e apoiar decisões mais qualificadas por parte de operadores e gestores públicos. "O que todas essas empresas fazem, no fundo, é transformar dados em informação para melhorar a gestão do transporte. Esse é o ponto de convergência entre nós. A tecnologia existe para resolver problemas reais, não para criar complexidade."

Padronização tecnológica

A construção dessa maturidade passa, na avaliação dos fundadores da ABtec Mobilidade, pela padronização tecnológica. Longe de representar limitação à concorrência, eles entendem que a definição de normas comuns amplia a capacidade de inovação, reduz custos de integração, aumenta a liberdade de escolha dos operadores e beneficia diretamente os usuários do transporte coletivo.

Para explicar esse conceito, Rafael Teles recorre a exemplos presentes no cotidiano. Ele disse: "Houve um tempo em que cada fabricante de telefone celular utilizava um carregador diferente. A indústria percebeu que isso não fazia sentido e construiu um padrão. O mesmo aconteceu com o Wi-Fi, com os cartões de crédito, com as redes de telefonia e agora acontece também na eletromobilidade. Os padrões não eliminam a concorrência; ao contrário, permitem que ela aconteça sobre inovação e qualidade, e não sobre incompatibilidades tecnológicas."

Felipe Leoni observa que esse foi justamente o ponto de partida da conversa ocorrida na LAT.BUS 2024. "A primeira ideia da associação não era representação institucional. Era criar padrões para que pudéssemos trabalhar numa direção comum. Cada empresa desenvolvia soluções de forma independente e reagia às exigências de cada projeto. Percebemos que precisávamos participar da construção desses padrões e não apenas nos adaptar a eles."

Segundo ele, essa atuação conjunta permitirá construir recomendações técnicas capazes de orientar tanto fornecedores quanto operadores e gestores públicos. "A padronização facilita a vida do operador, amplia sua liberdade para integrar soluções e evita que ele fique dependente de um único fornecedor. No fim das contas, quem ganha é toda a cadeia da mobilidade."

Combater entraves à inovação

Essa preocupação também se estende à forma como a tecnologia vem sendo contratada pelo poder público. Na avaliação dos dirigentes da associação, muitos editais ainda especificam detalhadamente como determinada solução tecnológica deve ser construída, quando deveriam concentrar-se na definição dos resultados esperados.

Na visão de Rafael Teles, esse modelo acaba restringindo a inovação. "Frequentemente o edital diz qual tecnologia deve ser utilizada, como ela deve funcionar e até como determinados recursos precisam ser implementados. O correto seria estabelecer quais resultados o sistema deve entregar. A partir daí, cabe ao mercado apresentar as melhores soluções tecnológicas. Quando se descreve excessivamente a tecnologia, corre-se o risco de contratar hoje uma solução que já nascerá ultrapassada durante a execução de um contrato de dez ou quinze anos."

A associação pretende justamente oferecer subsídios técnicos para que esse processo evolua, contribuindo para a elaboração de especificações mais modernas, neutras e orientadas por desempenho.

Os dirigentes da ABtec Mobilidade observam que a padronização não busca limitar a inovação, mas justamente ampliar a liberdade dos operadores para integrar soluções de diferentes fornecedores. Segundo eles, a inexistência de padrões frequentemente faz com que empresas precisem adaptar continuamente seus produtos às exigências particulares de cada projeto, retardando a evolução tecnológica do setor.

Produção de conhecimento

Outro campo de atuação será a produção de conhecimento. Além da elaboração de documentos técnicos, recomendações e propostas de padronização, a ABtec Mobilidade pretende organizar fóruns de discussão, seminários, cursos e grupos permanentes de trabalho voltados aos diferentes segmentos da tecnologia aplicada à mobilidade urbana.

Essa perspectiva já inspira um objetivo concreto: realizar, dentro da programação da Lat.Bus 2028, um evento próprio dedicado exclusivamente ao debate tecnológico. "A gente não teve tempo de fazer isso já nesta edição, mas essa é uma meta da associação", afirma Felipe Leone. "Queremos construir um espaço permanente para discutir tecnologia, compartilhar experiências, apresentar boas práticas e reunir operadores, indústria, especialistas e gestores públicos."

Os grupos de trabalho já começaram a sair do papel. Leone informa que uma das primeiras iniciativas acompanha a implantação do Sistema Nacional de Informações sobre Mobilidade Urbana, desenvolvido pelo Ministério das Cidades. O grupo reúne empresas associadas e também organizações que não integram formalmente a entidade, mas possuem conhecimento técnico relevante para contribuir com a construção das propostas.

"Nossa intenção é reunir quem efetivamente produz tecnologia e dados para colaborar tecnicamente com iniciativas que interessam ao setor como um todo. Os grupos de trabalho poderão contar inclusive com empresas que não fazem parte da associação, desde que possam contribuir para determinado projeto."

Essa abertura reflete outro princípio estabelecido pela entidade. A associação representa fornecedores de tecnologia, mas restringe a participação de operadores de transporte entre seus associados permanentes, justamente para preservar sua independência técnica e evitar conflitos de interesse. Ao mesmo tempo, pretende manter diálogo permanente com operadores, órgãos públicos, entidades setoriais e instituições de pesquisa.

Para Gustavo Balieiro, a ABtec Mobilidade deverá funcionar como um espaço de convergência entre diferentes visões existentes no setor. "O nosso papel é ser uma referência técnica. Precisamos construir consensos, conciliar diferentes entendimentos e produzir orientações que ajudem o mercado a amadurecer. Quando uma posição é construída coletivamente, ela deixa de representar o interesse de uma empresa específica e passa a refletir uma visão técnica do setor."

Essa atuação também deverá alcançar temas que frequentemente geram interpretações divergentes, como inteligência artificial, digitalização e inovação. Na avaliação de Rafael Teles, cabe à associação separar tendências tecnológicas consistentes de movimentos motivados apenas por estratégias de marketing.

"Muitas vezes o mercado passa a discutir o nome da tecnologia e não o resultado que ela entrega. O importante não é se determinada solução utiliza inteligência artificial ou qualquer outro recurso da moda. O importante é saber qual problema ela resolve, que benefício produz e como melhora a mobilidade."

Para ilustrar esse raciocínio, Teles observa que muitas soluções tradicionais passaram recentemente a ser apresentadas como se utilizassem inteligência artificial, embora executem exatamente as mesmas funções há anos. Na avaliação dele, esse tipo de abordagem desloca o debate para o marketing da tecnologia, quando o que realmente interessa ao transporte coletivo é a qualidade dos resultados produzidos.

Imprensa especializada

Nesse processo, Teles atribui papel igualmente relevante à imprensa especializada. "A comunicação técnica ajuda a orientar o mercado, esclarecer conceitos e qualificar o debate público. Muitas vezes o foco acaba sendo colocado na tecnologia em si, quando ela deveria ser tratada apenas como o meio para alcançar melhores resultados."

Como exemplo, Rafael Teles lembra discussões recentes em torno da substituição de sistemas de bilhetagem apresentadas como solução para problemas de transparência na gestão do transporte público. Para ele, muitas vezes o debate público atribui à tecnologia responsabilidades que pertencem à governança ou à gestão contratual. Nesses casos, afirma, a imprensa especializada exerce papel importante ao distinguir limitações tecnológicas de questões administrativas ou institucionais.

Essa visão resume a filosofia que orientou a criação da ABtec Mobilidade. Mais do que representar empresas, a entidade pretende consolidar conhecimento técnico, estimular a cooperação entre concorrentes, promover a interoperabilidade entre sistemas e contribuir para que operadores, gestores públicos e usuários disponham de soluções tecnológicas cada vez mais eficientes.

Esse trabalho coletivo, dizem os fundadores da ABtec Mobilidade, também permitirá que as empresas apresentem posicionamentos técnicos conjuntos diante de temas controversos. Em vez de cada fornecedor defender individualmente determinada solução — o que frequentemente pode ser interpretado como interesse comercial — a associação pretende construir manifestações institucionais baseadas em consenso técnico.

Dois anos depois de nascer em uma conversa informal durante a Lat.Bus 2024, a iniciativa chega oficialmente ao público na edição de 2026. Se os planos de seus fundadores forem concretizados, o ciclo iniciado nos corredores da feira internacional terá um novo capítulo em 2028, quando a associação espera integrar a programação do evento com um fórum próprio dedicado ao futuro da tecnologia para a mobilidade urbana — um espaço criado para discutir menos produtos e mais padrões, menos disputas comerciais e mais desenvolvimento coletivo do setor.

 

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