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Em reunião da Fenabrave, economista projeta PIB de 1,8% em 2026 e alerta para inflação persistente e deterioração fiscal

A consultora Tereza Fernandes afirma que economia brasileira continuará crescendo, apesar dos juros elevados, graças aos estímulos fiscais, mas adverte que expansão da dívida pública e cenário internacional mais pressionado exigem cautela

Publicado em 08/07/2026 por Alexandre Asquini

Passageiros no metrô de São Paulo (Rovena Rosa/Agência Brasil)
Passageiros no metrô de São Paulo (Rovena Rosa/Agência Brasil)

A economia brasileira deverá encerrar 2026 com crescimento de 1,8% do Produto Interno Bruto (PIB), inflação de 5,8%, taxa básica de juros (Selic) acima de 14%, dólar em torno de R$ 5,50, desemprego de 6,5% e expansão do crédito de 6,8%. Embora não veja um cenário de crise para a atividade econômica, a economista e consultora Tereza Fernandez considera que o país atravessa um período de atenção crescente, marcado por dois vetores principais: a pressão inflacionária internacional e o avanço da deterioração das contas públicas.

As projeções foram apresentadas durante a exposição da consultora na coletiva de divulgação do balanço do primeiro semestre da Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores (Fenabrave), realizada em 1º de julho, quando ela traçou um panorama da conjuntura macroeconômica e discutiu os fatores que deverão influenciar o desempenho da economia brasileira até o fim do ano.

Segundo Fernandez, embora a atividade econômica permaneça resiliente, os fundamentos que sustentam esse crescimento diferem dos observados em outros períodos e exigem uma análise mais cuidadosa.

Cenário internacional

A economista iniciou sua apresentação chamando atenção para o ambiente econômico externo, que, em sua avaliação, voltou a representar um importante fator de risco para países emergentes, entre eles o Brasil.

Ela observou que a inflação norte-americana permanece acima da meta estabelecida pelas autoridades monetárias e pode continuar pressionada pelo aumento dos custos de energia, combustíveis e eletricidade. Esse quadro amplia a possibilidade de manutenção ou mesmo de novas elevações dos juros nos Estados Unidos.

Na avaliação da consultora, juros mais elevados na maior economia do mundo tendem a atrair capitais internacionais, reduzindo o fluxo de recursos para mercados emergentes e pressionando o câmbio brasileiro.

Outro ponto destacado foi o mercado internacional de petróleo. Embora as cotações tenham recuado recentemente, Fernandez afirmou que os estoques mundiais permanecem reduzidos e que a oferta global continua limitada, o que pode provocar novos aumentos de preços mesmo em um cenário de redução das tensões geopolíticas. Para a economista, essa combinação tende a manter a inflação mundial em níveis elevados, com reflexos também sobre os índices brasileiros.

Por que a economia continua crescendo?

 O principal eixo da apresentação procurou responder a uma questão que, segundo Fernandez, tem mobilizado os economistas ao longo dos últimos meses: por que a economia brasileira continua crescendo mesmo convivendo com uma das maiores taxas de juros reais do mundo?

Em sua avaliação, a explicação está menos na política monetária e mais na expansão fiscal observada desde 2024. Ela argumentou que diversos mecanismos têm ampliado a renda disponível das famílias e sustentado o consumo, reduzindo parte dos efeitos normalmente produzidos pelos juros elevados.

Entre esses fatores estão o aumento da arrecadação federal, programas de renegociação de dívidas, como o Desenrola, e outras iniciativas que, embora não apareçam diretamente nas despesas primárias do governo, acabam elevando o endividamento público.

Segundo Fernandez, aproximadamente R$ 280 bilhões foram injetados na economia ao longo do primeiro semestre por diferentes instrumentos de estímulo, ampliando a capacidade de consumo das famílias e impulsionando a atividade econômica.

Ela explicou que programas de renegociação de dívidas reduzem o comprometimento mensal da renda das famílias, liberando recursos que voltam ao consumo e contribuem para sustentar o crescimento do PIB.

Esse conjunto de fatores, afirmou, explica por que a economia brasileira deverá crescer perto de 2% mesmo com a Selic acima de 14%, situação bastante diferente daquela observada em ciclos anteriores de aperto monetário.

Preocupação fiscal

Se, por um lado, esses mecanismos ajudam a manter a atividade econômica aquecida no curto prazo, por outro ampliam a preocupação com a evolução das contas públicas.

Ao longo da apresentação, Fernandez dedicou boa parte de sua análise à trajetória da dívida pública, apontando que o crescimento econômico vem sendo acompanhado por uma deterioração gradual da relação entre dívida e PIB.

Entre os fatores destacados estão despesas financiadas por meio de operações que acabam aumentando o endividamento, a postergação de pagamentos de exercícios anteriores e o crescimento das emendas parlamentares, que elevam os gastos públicos em diferentes esferas de governo.

Segundo ela, parte dessas despesas não transita diretamente pelo resultado primário, mas produz impacto sobre a dívida pública, contribuindo para o aumento da relação dívida/PIB observado desde 2024. Para a consultora, trata-se hoje da principal fragilidade estrutural da economia brasileira.

Embora ressalte que esse quadro não afete diretamente o setor automotivo no curto prazo, Fernandez considera que a sustentabilidade do crescimento dependerá, nos próximos anos, da capacidade de estabilizar a trajetória fiscal.

Crédito e renda

Outro indicador acompanhado pela economista é o mercado de crédito. Ela observou que, após um período de estagnação no fim do ano passado, o crédito voltou a crescer de forma significativa ao longo dos primeiros meses de 2026, refletindo tanto a melhora da renda quanto a redução do comprometimento financeiro de parte das famílias.

 Ainda assim, a consultora acredita que essa expansão deverá perder intensidade durante o segundo semestre. Na sua avaliação, o encerramento do ciclo de estímulos observado na primeira metade do ano, associado ao avanço da inflação e ao período eleitoral, tende a reduzir gradualmente o ritmo de expansão da atividade econômica.

Ela também alertou para a possibilidade de aumento da inadimplência, caso a inflação continue corroendo parte da renda disponível das famílias.

Cenário para o restante do ano

Ao encerrar sua exposição, Fernandez apresentou seu cenário-base para o fechamento de 2026. Sua expectativa é de crescimento de 1,8% do PIB, inflação de 5,8%, manutenção da Selic acima de 14%, câmbio próximo de R$ 5,50 por dólar, taxa de desemprego de 6,5% e expansão do crédito em 6,8%.

Apesar das incertezas, a economista afirmou que não enxerga um quadro de desorganização da economia brasileira no curto prazo. O principal desafio, segundo ela, será administrar simultaneamente os efeitos da inflação internacional e o avanço da deterioração fiscal, fatores que deverão permanecer no centro das atenções ao longo dos próximos meses.

Ao sintetizar sua avaliação, Fernandez afirmou que a economia brasileira continua apresentando capacidade de crescimento, mas sustentada por estímulos que ampliam a dívida pública e em um ambiente internacional cada vez mais desafiador. Para ela, acompanhar esses dois movimentos será essencial para compreender o desempenho da economia e de setores como o automotivo até o encerramento de 2026.

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