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Roberto Cortes defende estratégia nacional para manter competitividade da indústria de veículos comerciais

CEO da Volkswagen Caminhões e Ônibus afirma que descarbonização, digitalização e mudanças geopolíticas estão redefinindo o setor e exigem políticas públicas voltadas à inovação, produção local e renovação da frota

Publicado em 15/06/2026 por Alexandre Asquini

Roberto Cortes, CEO da Volkswagen Caminhões e Ônibus, no Anfavea Visions (Divulgação)
Roberto Cortes, CEO da Volkswagen Caminhões e Ônibus, no Anfavea Visions (Divulgação)

O futuro da indústria de veículos comerciais será moldado pela combinação de sustentabilidade, conectividade e mudanças geopolíticas. Essa foi a principal mensagem apresentada por Roberto Cortes, CEO da Volkswagen Caminhões e Ônibus, durante o encerramento do primeiro dia do Anfavea Visions, do qual foi presidente de honra.

Em uma análise abrangente sobre os desafios e oportunidades do setor, o executivo defendeu uma estratégia nacional capaz de preservar a competitividade da indústria brasileira diante das transformações tecnológicas e do avanço da concorrência internacional.

Para Cortes, a velocidade das transformações em curso torna indispensável uma articulação entre indústria e poder público para que o país preserve sua capacidade produtiva, tecnológica e de inovação. Na sua avaliação, o Brasil está diante de uma disputa global por investimentos e pela ocupação de posições de maior valor agregado nas novas cadeias da mobilidade.

Segundo ele, o transporte rodoviário continuará desempenhando papel central na economia brasileira. O executivo lembrou que cerca de 62% das cargas movimentadas no país são transportadas por caminhões e que os ônibus respondem por aproximadamente 83% do transporte de passageiros. Em um território de dimensões continentais e com infraestrutura ainda insuficiente em muitas regiões, os veículos comerciais permanecem essenciais para garantir a circulação de pessoas e mercadorias.

O executivo destacou ainda a relevância da indústria nacional no cenário internacional. O Brasil figura entre os maiores produtores mundiais de caminhões e ônibus e possui um mercado com características próprias, que exige soluções adaptadas às condições locais de operação, incluindo longas distâncias, diferentes tipos de terreno e uma extensa malha rodoviária com limitações estruturais.

PIB e demanda

Ao abordar as perspectivas de mercado, Cortes ressaltou a forte correlação entre o crescimento econômico e a demanda por veículos comerciais. “O que vende caminhões é o PIB”, afirmou.

Segundo ele, a expansão da atividade econômica gera aumento imediato da movimentação de cargas e passageiros, impulsionando a renovação e ampliação das frotas. Nesse contexto, o desempenho futuro do setor permanece diretamente ligado à capacidade de crescimento da economia brasileira.

Três transformações

Para o executivo, a indústria atravessa um período singular, marcado pela ocorrência simultânea de três grandes transformações. Ele observou que raramente o setor enfrentou mudanças tão profundas ocorrendo ao mesmo tempo. Disse que a combinação entre transição energética, digitalização acelerada e reorganização geopolítica está redefinindo os critérios de competitividade da indústria mundial e exigirá respostas estratégicas dos países que desejam manter capacidade de desenvolvimento tecnológico e produção local.

A primeira das transformações é a transição para modelos mais sustentáveis de transporte. Cortes destacou os avanços tecnológicos obtidos nas últimas décadas na redução das emissões veiculares. Como exemplo, citou que um caminhão equipado com tecnologia Euro 6 emite até 50 vezes menos material particulado do que os veículos produzidos antes da adoção dos padrões modernos de controle ambiental.

Apesar desse avanço, o executivo observou que uma parcela significativa da frota brasileira ainda é composta por veículos antigos, o que reforça a importância de programas de renovação.

Ele remarcou que a renovação da frota representa uma das medidas de maior impacto ambiental imediato. Como exemplo, citou um programa da própria Volkswagen Caminhões e Ônibus que resultou na reciclagem de 440 caminhões e ônibus antigos, os quais emitiam tanto quanto 22 mil veículos atuais.

Na avaliação de Cortes, o Brasil possui uma vantagem estratégica que o diferencia de outras regiões do mundo. Enquanto Europa e Estados Unidos concentram boa parte de seus esforços na eletrificação, o país dispõe de uma ampla oferta de biomassa e pode avançar por múltiplas rotas tecnológicas de descarbonização, combinando diferentes soluções de acordo com cada aplicação. Entre as opções apontadas estão o biodiesel, o biometano, o HVO (diesel renovável), os sistemas híbridos e os veículos elétricos, especialmente adequados para operações urbanas.

O executivo observou ainda que a indústria já dispõe de tecnologias para diferentes rotas energéticas, mas ressaltou que a transição dependerá também de políticas públicas voltadas à renovação da frota, expansão da infraestrutura de abastecimento e recarga, estímulo aos combustíveis renováveis e apoio à inovação industrial.

Veículos definidos por software

A segunda transformação identificada pelo executivo está relacionada à digitalização da indústria e à crescente incorporação de inteligência artificial. Cortes diz que evolução do setor pode ser observada na própria forma de geração de valor. Se no passado o foco estava no produto físico, posteriormente a atenção passou para o TCO (Custo Total de Propriedade), incorporando serviços financeiros, manutenção e pós-venda.

Agora, a indústria caminha para um modelo baseado em soluções completas de mobilidade, incorporando soluções de gestão de frotas, manutenção preditiva, monitoramento remoto e também serviços financeiros – conjunto cujo conceito é frequentemente resumido pela expressão "truck as a service".

Nesse novo cenário, ganha força o conceito de ‘software defined vehicle’, no qual parte crescente do valor agregado está associada aos sistemas digitais embarcados e à conectividade. A inteligência artificial já está presente em diferentes etapas do negócio, desde o desenvolvimento de produtos até os processos industriais, as atividades comerciais e a criação de novos serviços.

Cortes afirma que o caminhão deixou de ser apenas uma ferramenta de transporte para se tornar uma verdadeira plataforma de mobilidade. Nesse novo contexto, o veículo do futuro será conectado, inteligente, integrado, capaz de utilizar diferentes fontes energéticas e cada vez mais apoiado em sistemas digitais, reunindo transporte, conectividade, gestão operacional e serviços em um único ecossistema.

Pressão competitiva

A terceira transformação destacada pelo executivo envolve a reorganização da indústria automotiva global e o fortalecimento da presença asiática, especialmente da China. Em sua avaliação, esse avanço foi resultado de políticas industriais consistentes, investimentos de longo prazo, maior acesso a capital, domínio de matérias-primas estratégicas e forte aposta em tecnologias emergentes, como automação, inteligência artificial e veículos autônomos.

Esse processo, assinala, demonstra que a liderança industrial não é resultado apenas da dinâmica de mercado, mas também de estratégias nacionais de longo prazo voltadas à inovação, à formação de cadeias produtivas e à atração de investimentos. O reflexo desse movimento já pode ser observado no Brasil, onde o número de marcas atuando no segmento de caminhões e ônibus aumentou significativamente nos últimos anos.

Cortes entende que a ampliação da concorrência é positiva e estimula a inovação, mas deve ocorrer em condições equilibradas. Ele defendeu a criação de um ambiente capaz de atrair investimentos produtivos de longo prazo, com segurança jurídica, redução do custo de capital, estímulo à produção efetivamente local e fortalecimento do conteúdo nacional. Também ressaltou a importância da isonomia regulatória e tributária entre fabricantes já instalados e novos entrantes, de forma a garantir uma competição baseada em condições equivalentes.

E alerta que o Brasil disputa investimentos com diversas regiões do mundo e que a manutenção de centros produtivos, de engenharia e de desenvolvimento tecnológico dependerá da capacidade do país de oferecer um ambiente competitivo para a indústria.

Protagonismo

Ao encerrar sua apresentação, Cortes afirma que o setor possui perspectivas favoráveis, impulsionadas pela expansão do agronegócio, do comércio eletrônico e das atividades logísticas.

Segundo ele, a indústria precisa assumir papel protagonista nas transformações em curso, fortalecendo parcerias entre empresas, entidades setoriais e governo para criar um ambiente favorável aos investimentos e ao desenvolvimento tecnológico.

Como exemplo da capacidade tecnológica instalada no país, Cortes citou o caminhão elétrico e-Delivery, desenvolvido por engenheiros brasileiros e lançado a partir do Brasil. Para ele, iniciativas desse tipo demonstram que o país pode participar das transformações globais não apenas como mercado consumidor, mas também como desenvolvedor de tecnologia e soluções para a mobilidade do futuro.

Na avaliação de Cortes, o resultado desse processo dependerá não apenas das decisões empresariais, mas também da capacidade de o país construir uma estratégia de longo prazo para inovação, formação de talentos, desenvolvimento tecnológico e fortalecimento da base industrial.

A combinação entre inovação, sustentabilidade e competitividade industrial será decisiva para que o Brasil mantenha relevância no cenário global de veículos comerciais nas próximas décadas.

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