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Saúde mental e riscos psicossociais no transporte coletivo de passageiros

Luciana do Prado, psicóloga com experiência de 30 anos no setor de transporte, avalia que com a nova NR-1, as empresas precisam observar a organização do trabalho, a qualidade da liderança, os processos internos e os indicadores de saúde organizacional

Publicado em 01/06/2026 por Márcia Pinna

(Arquivo/Divulgação)
(Arquivo/Divulgação)

A Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), que estabelece as diretrizes gerais de Segurança e Saúde no Trabalho (SST) no Brasil, passou por uma mudança importante: ela foi ampliada para incluir oficialmente a gestão de riscos psicossociais. Ou seja, as empresas são legalmente obrigadas a criar mecanismos para prevenir o adoecimento mental dos trabalhadores. Essa atualização traz impactos para as empresas em geral, e como não poderia deixar de ser, para o setor de transporte coletivo de passageiros.

Para Luciana do Prado, psicóloga com experiência de 30 anos no setor de transporte, a nova NR-1 não deve ser interpretada como uma obrigação voltada à busca de falhas ou culpados. "Ela representa uma oportunidade para que as empresas fortaleçam seus processos de gestão, valorizem suas equipes e desenvolvam ambientes de trabalho mais saudáveis e sustentáveis. A atenção aos riscos psicossociais passa a ser mais uma ferramenta de gestão, contribuindo para a redução de afastamentos, melhoria do clima organizacional, retenção de profissionais e fortalecimento da operação."

A especialista alerta que a inclusão dos riscos psicossociais na NR-1 representa uma mudança importante para o setor de transporte coletivo porque amplia a compreensão sobre saúde e segurança no trabalho. Fatores relacionados à organização do trabalho, à forma de gestão, às relações interpessoais e às condições emocionais dos trabalhadores passam a integrar oficialmente a gestão dos riscos ocupacionais.

"O motorista, por exemplo, lida simultaneamente com trânsito intenso, responsabilidade pela vida de terceiros, cobranças por horários, conflitos com passageiros, exposição à violência urbana e necessidade permanente de atenção. Essa combinação produz uma carga mental significativa que pode gerar desgaste emocional e comprometimento da capacidade laboral", destaca.

As empresas devem se preparar para a nova regra, começando por um diagnóstico consistente da sua realidade interna. "É necessário avaliar jornadas, escalas, condições de trabalho, recursos disponíveis, qualidade da comunicação, estilo de liderança, clima organizacional e fatores que possam gerar sobrecarga física ou emocional. Também é fundamental revisar o PGR e incorporar os riscos psicossociais ao gerenciamento de riscos ocupacionais", detalha Luciana.

Segundo ela, as empresas precisam observar a organização do trabalho, a qualidade da liderança, os processos internos e os indicadores de saúde organizacional. "No transporte coletivo, a necessidade de manter a continuidade do serviço, lidar com oscilações no quadro de pessoal, administrar períodos de maior demanda operacional e garantir a disponibilidade da frota são desafios legítimos", afirma.

Mas Luciana observa que quando essas situações se prolongam sem planejamento e suporte adequados, podem aumentar a sobrecarga das equipes e impactar o bem-estar e o desempenho dos trabalhadores. Outro aspecto importante é a segurança psicológica, permitindo que trabalhadores relatem dificuldades e proponham melhorias sem receio de represálias.

Em termos práticos, as especialista orienta que as empresas podem revisar o PGR, realizar diagnósticos organizacionais, capacitar lideranças, criar canais seguros de escuta, monitorar indicadores de saúde organizacional, revisar jornadas e fortalecer a integração entre RH, SST, Medicina Ocupacional e áreas operacionais.

Os profissionais em cargos de liderança também precisam estar preparados para lidar com a nova realidade. "O gestor precisa desenvolver competências como escuta ativa, comunicação clara, gestão de conflitos, inteligência emocional e liderança. Também deve estar atento aos sinais de desgaste das equipes e compreender que resultados sustentáveis dependem do equilíbrio entre metas, recursos, treinamento e suporte às pessoas", orienta psicóloga.

Luciana do Prado, psicóloga com atuação no segmento de transportes desde 1996 (Divulgação)


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