Como as cidades brasileiras podem enfrentar as ameaças climáticas?

Estudo do ITDP indica o emprego das Soluções Baseadas na Natureza (SBN), ou seja, abordagens que utilizam recursos naturais para mitigar ou adaptar as cidades aos impactos das mudanças climáticas, promovendo uma mobilidade mais sustentável e inclusiva

Alexandre Asquini

As mudanças climáticas representam uma ameaça crescente para as cidades brasileiras, impactando diretamente a mobilidade urbana e a infraestrutura urbana. Para ajudar a enfrentar essa realidade, o Instituto de Políticas de Transporte e Desenvolvimento (ITDP) lançou a publicação “Mobilidade Urbana e Soluções Baseadas na Natureza (SBN): Integrando Estratégias de Adaptação para as Cidades Brasileiras”. O objetivo é apresentar soluções inovadoras que ajudam a adaptar as cidades aos impactos das mudanças climáticas, promovendo, ao mesmo tempo, uma mobilidade mais sustentável e inclusiva.

A publicação detalha as principais ameaças climáticas que afetam o Brasil e como elas impactam diretamente a mobilidade urbana. Além disso, propõe formas de integrar as SBN no planejamento e na execução de políticas públicas. De acordo com Danielle Hoppe, arquiteta e urbanista, e gerente de projetos do ITDP, a intenção é tornar as ameaças climáticas mais tangíveis para aqueles que lidam com o planejamento e a gestão da mobilidade urbana no dia a dia.

Ameaças climáticas

O estudo lista oito ameaças climáticas que afetam as cidades brasileiras, destacando como cada uma impacta diretamente a mobilidade urbana. Essas ameaças são: calor excessivo, escassez hídrica, inundações, vendavais fortes, queimadas e incêndios florestais, fortes precipitações, deslizamentos de terra e elevação do nível médio do mar.

Esses fenômenos têm consequências diretas na infraestrutura urbana e no transporte. O calor excessivo, por exemplo, torna os deslocamentos mais difíceis, especialmente nas áreas com pouca cobertura verde. Já as inundações, que se tornaram mais frequentes em várias regiões, podem bloquear vias importantes, tornando o trânsito caótico e interrompendo o transporte público. As fortes precipitações e os deslizamentos de terra também causam danos significativos em redes viárias e sistemas de transporte.

Danielle Hoppe explica que, ao focar nessas ameaças climáticas, o ITDP busca oferecer uma visão mais concreta de como esses fenômenos afetam a mobilidade urbana. “Essa identificação surgiu a partir da atualização do índice de vulnerabilidade das cidades, com o objetivo de focar especificamente nas ameaças climáticas e como elas impactam a mobilidade. As mudanças climáticas não são mais um futuro distante; elas já estão afetando as cidades, e muitas vezes, é difícil para os gestores perceberem de forma tangível como isso se reflete no dia a dia da mobilidade urbana.”

Danielle Hoppe, gerente de projetos do ITDP (Divulgação)

Soluções naturais

As Soluções Baseadas na Natureza (SBN) são abordagens que utilizam recursos naturais para mitigar ou adaptar as cidades aos impactos das mudanças climáticas. Para o ITDP, integrar essas soluções ao planejamento da mobilidade urbana não deve ser uma resposta emergencial, mas uma estratégia de longo prazo. A ideia é que as SBN atuem diretamente na melhoria da qualidade de vida nas cidades, ao mesmo tempo em que promovem uma mobilidade mais sustentável e resiliente.

Danielle ressalta que, embora o conceito de SBN não seja novo, ele precisa ser integrado de maneira mais concreta ao planejamento da mobilidade urbana. A publicação apresenta exemplos de como a infraestrutura verde e azul (como áreas de lazer e drenagem natural) pode ser combinada ao transporte, criando um ambiente urbano mais saudável. “Incorporar SBN ao planejamento da mobilidade é um passo fundamental para transformar nossas cidades. Não se trata de uma medida isolada, mas de uma abordagem sistêmica, onde as soluções naturais ajudam a mitigar os impactos climáticos, ao mesmo tempo que melhoram o transporte público e a segurança das pessoas.”

Entre os exemplos práticos apresentados está o uso de áreas verdes urbanas para combater o calor excessivo e melhorar o conforto dos passageiros do transporte público. A integração de árvores e plantas ao redor de estações e terminais de ônibus pode reduzir a temperatura local, criando um ambiente mais agradável e seguro para os usuários.

Contexto regional

Uma das características da publicação é sua abordagem regionalizada. O Brasil possui enorme diversidade climática e geográfica, e as soluções propostas precisam ser adaptadas às particularidades de cada região. As ameaças climáticas não afetam todas as cidades de forma igual. Enquanto algumas regiões enfrentam escassez hídrica e seca, outras lidam com inundações ou com a elevação do nível do mar.

Danielle explica que o ITDP fez um esforço para não se concentrar apenas nas grandes metrópoles do Sudeste, mas também nas realidades de outras regiões, como o Nordeste e a Amazônia. “O conceito de SBN exige uma contextualização muito forte, dependendo do bioma e do clima de cada região. A solução que funciona no Rio de Janeiro, por exemplo, pode não ser a mais adequada para uma cidade do interior do Nordeste, que tem uma realidade completamente diferente. Por isso, nossa publicação busca refletir a diversidade do Brasil e mostrar que cada cidade pode e deve encontrar as soluções mais apropriadas para seus desafios climáticos.”

Um exemplo dado por Danielle é a situação da Amazônia, onde a mobilidade fluvial é muito mais relevante do que nas grandes cidades do Sudeste. As soluções para essa região precisam levar em conta o contexto dos rios e o impacto das mudanças climáticas na navegabilidade.

Governança pública

A implementação de soluções baseadas na natureza no planejamento da mobilidade urbana depende não apenas de boas práticas, mas também de uma governança eficiente e do financiamento adequado. O ITDP destaca a importância de sensibilizar gestores públicos e financiadores para o potencial das SBN, não apenas como uma forma de combater as mudanças climáticas, mas também como uma estratégia para criar cidades mais inclusivas e sustentáveis.

Danielle aponta que, para que as SBN se tornem realidade nas cidades brasileiras, é necessário um esforço conjunto entre governo, setor privado e sociedade civil. A mobilização de recursos é essencial para viabilizar projetos que integrem essas soluções ao sistema de transporte público e à infraestrutura urbana. “As SBN não são apenas soluções ambientais, mas também sociais e econômicas. Elas geram oportunidades de inclusão e desenvolvimento, especialmente em áreas periféricas. A mobilização de recursos é crucial para a construção de uma cidade mais resiliente e justa.”

A publicação também oferece ferramentas técnicas e exemplos de boas práticas, com o objetivo de orientar profissionais e gestores sobre como implementar essas soluções de forma prática e eficaz. A aplicação de SBN no planejamento da mobilidade urbana se mostra um caminho fundamental para transformar o planejamento urbano diante da emergência climática.

Acesse o caderno Mobilidade Urbana e Soluções baseadas na Natureza: Integrando Estratégias de Adaptação para as Cidades Brasileiras

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