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Eletricidade garantirá tarifa zero em capitais nordestinas, prevê ex-presidente da Petrobrás

Jean-Paul Prates acredita que em duas décadas a tarifa zero será impulsionada pela eletromobilidade e geração local de energia renovável

Publicado em 03/03/2026 por Alexandre Asquini

Divulgação/ARQUIVO
Divulgação/ARQUIVO

Jean-Paul Prates, ex-presidente da Petrobras e ex-senador pelo Partido dos Trabalhadores, previu que em até 20 anos algumas capitais do Nordeste poderão alcançar a tarifa zero no transporte público sustentada por geração local de energia.

Durante o seminário sobre Eletromobilidade promovido pelo Grupo Lide, em São Paulo, na última semana de fevereiro, Prates, curador do encontro, destacou que a eletromobilidade não se limita à redução de emissões, mas traz uma série de benefícios adicionais, como a melhora da qualidade do ar, a redução de custos operacionais, a valorização da engenharia e ciência nacional, e a geração de empregos qualificados.

“O desafio tecnológico se resolve com demanda, financiamento e políticas públicas eficazes”, afirmou, enfatizando que a transição energética é um processo irreversível e que o Brasil precisa se posicionar ativamente para liderar essa transformação.

Jean-Paul Prates (Foto: Lula Marques/Agência Brasil)

Potencial regional

No campo energético, Prates sublinhou o potencial do Nordeste e do Norte do Brasil, regiões que apresentam excedente de geração de energia, principalmente na área que vai de Pernambuco ao Amapá, que chamou de “Brasil equatorial”. Segundo ele, essa abundância cria condições para uma eletrificação acelerada da frota de veículos.

Cidades planas, com predominância de casas com telhados aptos à geração solar, poderiam formar uma base de consumidores que também se tornariam produtores de energia. “A maior parte das pessoas será cidadã autônoma e geradora da própria energia para a própria mobilidade”, afirmou.

Prates também disse que nesse contexto os postos de combustíveis teriam que se reinventar, passando a funcionar como pontos de recarga de veículos e oferecendo novos serviços adaptados à nova lógica de mercado.

Com mais de 40 anos de experiência em consultoria e gestão nas áreas de petróleo, gás, biocombustíveis e energia renovável, Prates está à frente do Centro de Estratégias em Recursos Naturais e Energia – Cerne.

Trata-se uma entidade independente, sem fins lucrativos, que afirma a dedicação ao desenvolvimento sustentável, inteligência setorial e políticas para recursos naturais e energia. Caracterizado como um ‘think tank’ ou ‘núcleo de reflexão’, o Cerne atua uma associação empresarial no campo da transição energética, conecta empresas, governo e academia nas regiões Norte e Nordeste do país.

Era do petróleo

Em uma declaração enfática, Jean-Paul Prates afirmou: “A era do petróleo acabou para a mobilidade”. Ele observou que, embora a indústria de petróleo ainda tenha relevância no cenário global, a mobilidade elétrica já ocupa um papel dominante na transição energética.

Para ele, essa mudança não é um processo gradual, mas algo já consolidado. “Não está acabando, não está transitando. Ela acabou”, disse, apontando que, no Brasil, a eletromobilidade deve seguir esse caminho, não apenas acompanhando a tendência global, mas liderando-a.

Futuro é elétrico

Prates também ressaltou que o combustível do futuro será a eletricidade, e não importa a fonte de geração — solar, eólica, hídrica ou outra local. Ele observou que o modelo ideal é aquele em que cidades, empresas e residências gerem sua própria energia para abastecer veículos e sistemas urbanos. Ele reconheceu o papel dos biocombustíveis, do gás natural e do biometano como “combustíveis de transição”, mas afirmou que esses são combustíveis de etapas intermediárias e não do futuro.

Desafio regulatório

Entre os principais desafios para a transição, Prates destacou a necessidade de um novo arcabouço regulatório. Ele defendeu a criação de uma estrutura que garanta segurança jurídica para a eletrificação da mobilidade, incluindo a definição do que chamou de “direito à recarga”.

Para ele, esse conceito jurídico deveria ser integrado ao conjunto de direitos públicos assegurados ao cidadão, como o direito à locomoção. Além disso, defendeu maior integração entre técnicos especializados e formuladores de políticas públicas para enfrentar os desafios regulatórios da transição.

É importante lembrar que dias antes do seminário Eletromobilidade, o Estado de São Paulo garantiu legalmente o “direito à recarga” por meio da Lei Estadual nº 18.403/2026. Essa lei traduz a garantia jurídica de que condôminos residenciais ou comerciais têm o direito de instalar pontos de recarga para veículos elétricos ou híbridos em suas próprias vagas de garagem, sem que o condomínio possa proibir – a não ser que haja razões técnicas –, arcando com os custos de instalação. Essa lei pode impulsionar a venda de veículos elétricos.

Indústria nacional

Jean-Paul Prates também falou sobre o papel da indústria nacional na eletromobilidade, que envolve uma cadeia produtiva ampla, incluindo baterias, carregadores, sistemas urbanos e componentes eletrônicos. Ele mencionou o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) como um agente importante no financiamento dessa indústria e comparou a atuação do Brasil à de instituições estrangeiras que condicionam o crédito ao uso de fornecedores locais. Segundo ele, o Brasil tem capacidade de desenvolver produção própria em diferentes elos dessa cadeia produtiva.

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