A intensificação dos eventos climáticos extremos tem tornado mais visíveis as fragilidades da mobilidade urbana nas cidades brasileiras. Alagamentos recorrentes, interrupções no transporte coletivo e longos tempos de deslocamento deixaram de ser exceção e passaram a fazer parte da rotina de milhões de pessoas.
Com essa leitura, o ITDP Brasil (Instituto de Políticas de Transporte e Desenvolvimento ou, em inglês, Institute for Transportation and Development Policy) lançou recentemente a atualização do Índice de Vulnerabilidade às Mudanças Climáticas na Mobilidade Urbana (IVMU), ferramenta que tem como objetivo orientar políticas públicas e investimentos em nível nacional.
Originalmente publicado há quase dez anos, o índice foi criado para apoiar o ministério das Cidades na formulação de estratégias de adaptação. A nova edição, divulgada em novembro de 2025, surge em meio ao fortalecimento da agenda climática no país, impulsionada, entre outros fatores, pela realização da COP-30 no Brasil e pela maior visibilidade internacional do tema.
“O índice tem como forma apoiar o processo de planejamento a nível nacional e o direcionamento de financiamento”, afirma mestre em engenharia urbana e ambiental Iuri Moura, gerente de projetos do ITDP. Segundo ele, a atualização busca identificar grandes regiões, estados, regiões metropolitanas e categorias de municípios prioritários para medidas de política pública e investimentos.
Raio-X da vulnerabilidade
O IVMU foi aplicado a 320 municípios com mais de 100 mil habitantes, que somam cerca de 115,7 milhões de pessoas, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
A vulnerabilidade é medida a partir da combinação de três fatores: sensibilidade da população e das infraestruturas, capacidade de adaptação dos municípios e grau de exposição às mudanças climáticas. Quanto maior a sensibilidade e menor a capacidade adaptativa, maior tende a ser o risco de impactos negativos sobre o funcionamento dos sistemas de mobilidade.
Desigualdades regionais
Os resultados revelam fortes desigualdades regionais. Norte e Nordeste concentram, proporcionalmente, a maior parcela de municípios nas faixas superiores de vulnerabilidade. Já Sul e Sudeste apresentam perfil mais heterogêneo, enquanto o Centro-Oeste tem distribuição mais equilibrada entre as categorias.
O recorte por estados mostra que 80 municípios foram classificados com vulnerabilidade superior, reunindo cerca de 17,45 milhões de habitantes. Parte significativa está concentrada em estados como Rio de Janeiro, Pernambuco, Pará, Minas Gerais, Bahia e Maranhão. Em quase 94% dessas cidades, a combinação é a mesma: alta sensibilidade e baixa capacidade adaptativa. Em sentido oposto, estados como São Paulo, Paraná, Mato Grosso do Sul e Goiás concentram maior participação de cidades nas categorias de menor risco relativo.
Outro dado relevante é que o risco climático não está restrito às grandes metrópoles. Municípios entre 100 mil e 300 mil habitantes apresentam a maior proporção de vulnerabilidade elevada, em geral associada à baixa densidade urbana, precariedade dos deslocamentos a pé e limitações técnicas para planejar sistemas resilientes.
Municípios entre 300 mil e 700 mil habitantes formam o segundo grupo mais vulnerável, influenciados pela maior exposição a eventos climáticos, pela expansão urbana pouco compacta e pela presença significativa de grupos sociais mais sensíveis aos impactos. Já as cidades com mais de 700 mil habitantes registram, proporcionalmente, menor incidência de vulnerabilidade superior, mas enfrentam desafios específicos, como longos tempos de deslocamento e elevada exposição a ondas de calor e chuvas intensas.
Centro e periferia
A análise das regiões metropolitanas reforça desigualdades que nem sempre aparecem em recortes estaduais ou regionais. De modo geral, observa-se um padrão de contraste entre áreas centrais e municípios periféricos.
Enquanto os núcleos centrais tendem a apresentar maior capacidade adaptativa, as bordas metropolitanas concentram maior sensibilidade e riscos mais acentuados, refletindo desigualdades históricas de investimento, infraestrutura e acesso a serviços.
Sem ranking, com prioridade
Apesar de trabalhar com dados municipais, o ITDP optou por não divulgar um ranking público de cidades. Na versão anterior, a exposição individual dos resultados gerou disputas e leituras distorcidas.

“A intenção do índice não é gerar ranqueamento ou competição entre cidades. Mesmo a cidade que teve o melhor resultado comparativo não está super bem do ponto de vista da adaptação. É uma avaliação que remete ao contexto brasileiro”, explica Moura. Segundo ele, o foco da publicação é regional e nacional, justamente para apoiar a definição de prioridades e a alocação de recursos federais. Caso municípios ou parceiros institucionais solicitem os dados detalhados, o instituto se dispõe a compartilhar as informações em diálogo direto.
Diálogo com estudo nacional de mobilidade
O índice passa a dialogar diretamente com o Estudo Nacional de Mobilidade Urbana (ENMU) em andamento, conduzido pelo ministério das Cidades e pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). A iniciativa foca nas 21 regiões metropolitanas do país com mais de um milhão de habitantes, e deve orientar investimentos em corredores e sistemas de transporte coletivo de média e alta capacidade.
“Esse estudo é fundamental para contar essas prioridades a nível de projeto mesmo das principais regiões metropolitanas brasileiras”, afirma Moura. O ITDP vem colaborando no planejamento e na revisão técnica da pesquisa, cujos resultados preliminares já começaram a ser divulgados pelo BNDES. A expectativa é que o Estudo Nacional de Mobilidade Urbana forneça diagnóstico detalhado sobre gargalos de infraestrutura e carências de transporte coletivo, enquanto o IVMU contribua com a incorporação sistemática da perspectiva climática na definição dos investimentos.
“Existe um gargalo gigante de investimento no Brasil, especialmente nas nossas regiões metropolitanas. A ideia do índice é dialogar com essa iniciativa para ajudar o BNDES e o governo federal a incorporar a perspectiva da adaptação nesse processo”, diz o especialista.
Adaptação como agenda do presente
Entre as recomendações do IVMU estão medidas de planejamento e gestão que não exigem necessariamente grandes aportes financeiros, mas demandam capacidade técnica e coordenação institucional, além de investimentos estruturais para tornar os sistemas de transporte mais resilientes a eventos extremos.
O estudo também reforça a necessidade de definir responsabilidades entre entes federativos, criar protocolos operacionais para eventos climáticos, planejar por bacias hidrográficas e fortalecer a governança de dados.
De forma geral, as recomendações do índice apontam a implementação de soluções práticas como microdrenagem e retrofit climático de infraestruturas existentes, além de ampliar redes de transporte público de média e alta capacidade. Essas ações podem ser adaptadas conforme as necessidades e características de cada município, desde os de pequeno porte até as grandes metrópoles.
Em um cenário de agravamento dos riscos climáticos, o índice consolida a adaptação como eixo central do planejamento urbano brasileiro. Mais do que um diagnóstico, o IVMU se apresenta como instrumento estratégico para orientar políticas e investimentos nas regiões metropolitanas — justamente onde se concentram os maiores desafios de mobilidade e, cada vez mais, os impactos das mudanças climáticas.
Acesse o caderno com o Índice de Vulnerabilidade às Mudanças Climáticas na Mobilidade Urbana (IVMU)
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