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Produção de SAF pode impulsionar oferta de HVO para o transporte rodoviário

Combustíveis alternativos para aviação e transporte rodoviário compartilham processos e insumos de produção, mas a expansão do diesel verde no Brasil ainda depende de escala industrial e redução de custos, avalia especialista da ANTP

Publicado em 03/11/2026 por Alexandre Asquini

O avanço da produção de combustível sustentável de aviação (SAF, na sigla em inglês) poderá favorecer a oferta de HVO, o diesel verde, como alternativa para reduzir as emissões de gases de efeito estufa no transporte rodoviário pesado. Os dois combustíveis compartilham processos e insumos de produção, de modo que os investimentos e os avanços tecnológicos voltados ao SAF também podem contribuir para ampliar a disponibilidade do HVO.

A avaliação é de Olímpio Alvares, coordenador da Comissão de Meio Ambiente da Associação Nacional de Transportes Públicos (ANTP). Segundo ele, a perspectiva de crescimento da produção regional de HVO, com investimentos em andamento no Brasil e em outros países da América Latina, poderá ajudar a aproximar seu preço do praticado para o biodiesel convencional nos próximos anos.

O principal entrave, porém, é a escala de produção. O aumento da oferta, a concorrência e o desenvolvimento tecnológico são fatores importantes para reduzir os custos e tornar o combustível mais competitivo. Uma das possibilidades apontadas pelo especialista é a adoção de mandatos graduais de adição de HVO ao diesel comercial, a exemplo do que ocorreu com o biodiesel no Brasil, cuja mistura obrigatória começou em 2008, com percentual de 2%. Hoje o percentual de adição está em 15% - o chamado B15.

Ao estabelecer metas progressivas de incorporação do combustível renovável, o poder público poderia criar demanda e estimular investimentos em capacidade produtiva. A ampliação da escala, por sua vez, contribuiria para reduzir os custos.

Substituição sem adaptações no motor

O HVO apresenta uma vantagem operacional importante em relação ao biodiesel convencional: é um combustível do tipo drop-in, ou seja, pode substituir o diesel fóssil sem exigir adaptações no motor ou alterações de calibração. Segundo Alvares, essa característica também permite seu uso em veículos mais antigos e de diferentes classes tecnológicas, sem a necessidade de criar uma infraestrutura inteiramente nova de armazenamento e abastecimento.

A comparação com o biodiesel B100, utilizado puro, evidencia outra diferença. Esse combustível exige cuidados específicos de qualidade, armazenamento e manejo, enquanto o HVO oferece maior simplicidade operacional na substituição do diesel convencional.

Do ponto de vista ambiental, o uso de HVO puro permite substituir num “estalar de dedos” uma operação baseada integralmente em combustível fóssil por outra com combustível renovável, eliminando as emissões de CO₂ de origem fóssil associadas à combustão do diesel. O especialista também destaca benefícios relacionados à qualidade do ar.

De acordo com Alvares, as emissões de material particulado antes da passagem pelo filtro são cerca de 30% menores com HVO do que na operação com diesel fóssil. Além disso, as partículas emitidas apresentam menor potencial tóxico, por não conterem determinados componentes cancerígenos presentes no diesel convencional, como os hidrocarbonetos policíclicos aromáticos (HPAs).

Nos veículos que atendem à norma Euro 6 e dispõem de filtros de partículas, a retenção dessas emissões supera 99%, segundo o especialista. O que sobra após o filtro a ser lançado na atmosfera, são apenas traços do material particulado; e como mencionado, o uso do HVO acrescenta aos motores do ciclo diesel o benefício essencial de reduzir drasticamente o potencial tóxico das partículas que chegam a ser emitidas pelo motor.

Escala e preço definirão a expansão

Embora apresente vantagens operacionais e ambientais, o HVO ainda precisa superar barreiras econômicas para conquistar maior participação no mercado brasileiro. A ampliação da produção é decisiva para reduzir custos e consolidar o combustível como alternativa comercialmente viável.

O mandato da adição do SAF no querosene de aviação entrará em vigor a partir do ano de 2027. O principal instrumento que instituiu essas metas foi o Programa Nacional de Combustível Sustentável de Aviação (ProBioQAV), criado pela Lei nº 14.993/2024 (Lei do Combustível do Futuro), e recentemente regulamentado pelo Decreto Federal nº 13.094 de 12 de agosto de 2026.

Com o mandato de adição gradual crescente do SAF no querosene de aviação a partir de 1% em 2027 e 2028, a expansão da cadeia de produção de SAF poderá em alguns anos contribuir para esse processo, mas não elimina a necessidade de investimentos específicos e de condições de mercado favoráveis ao diesel verde. A adoção de mandatos de mistura do HVO no diesel comercial, espelhada no que ocorreu no passado com o biodiesel e no que ocorre agora com o SAF, já está sendo discutida; ela é vista como possibilidade concreta para estimular a demanda e dar previsibilidade aos produtores. Na avaliação de Olimpio Alvares, trata-se de uma oportunidade que não pode ser ignorada pelos governantes.

Ele resume a situação, dizendo que além de ser uma excelente oportunidade de criação de mais uma alternativa de diversificação energética no processo de descarbonização dos transportes no Brasil - que é considerado a “Meca dos Biocombustíveis” – o HVO reúne características que facilitam sua utilização na frota existente, sem exigir mudanças nos motores ou uma renovação da infraestrutura de abastecimento. Sua expansão, contudo – diz ele -- dependerá da visão e capacidade das autoridades governamentais no setor de energia e combustíveis de transformar essas vantagens técnicas em competitividade econômica, ampliando a oferta e aproximando os preços dos combustíveis convencionais.

 

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