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Setor metroferroviário busca novas gerações em meio à escassez de profissionais

Dirigentes de empresas defendem maior aproximação com jovens engenheiros e apontam a Semana de Tecnologia como instrumento para apresentar as oportunidades de um setor cada vez mais tecnológico

Publicado em 06/09/2026 por Alexandre Asquini

Composição em estação (Divulgação: ANPTrilhos)

A falta de profissionais qualificados já se tornou um dos desafios para o avanço do setor metroferroviário brasileiro. Ao mesmo tempo em que novos projetos incorporam sistemas mais sofisticados e aumentam a demanda por conhecimentos especializados, as empresas encontram dificuldades para atrair e formar pessoas interessadas em construir suas carreiras no transporte sobre trilhos.

Nesse cenário, a 32ª Semana de Tecnologia Metroferroviária ganhou, nas manifestações de dirigentes empresariais durante seu encerramento, uma dimensão que vai além da apresentação de projetos e soluções: a de aproximar as novas gerações da engenharia ferroviária e mostrar que esse é um campo de intensa inovação tecnológica.

A preocupação com a mão de obra apareceu de forma recorrente nos pronunciamentos feitos na sessão final do encontro. Para os executivos, o setor precisa disputar a atenção de jovens profissionais que hoje encontram oportunidades em segmentos novos e altamente associados à tecnologia. A estratégia, portanto, não passa apenas pela abertura de postos de trabalho, mas pela capacidade de apresentar o transporte sobre trilhos como uma atividade profissional atraente, capaz de oferecer desafios técnicos, inovação e espaço para desenvolvimento.

Trilhos e tecnologia

Alexandre Barbosa, diretor técnico da BID Skyrail Brasil, chamou atenção para uma contradição. Embora ainda exista uma imagem associada à ferrovia como uma atividade tradicional, distante da tecnologia, os sistemas atuais incorporam recursos cada vez mais sofisticados. Trens, sinalização, sistemas embarcados, processamento de dados, manutenção e tecnologias como o CBTC exigem conhecimentos especializados e colocam a atividade ferroviária no mesmo universo tecnológico que desperta o interesse das novas gerações.

“A ferrovia” precisa ser apresentada, portanto, a partir dessa nova realidade. Para Barbosa, é necessário aproximar empresas e jovens e criar condições para que profissionais interessados em tecnologia encontrem no setor ferroviário um caminho de desenvolvimento. Ele relatou que a empresa tem buscado jovens engenheiros com disposição para aprender e os preparado internamente para atender às novas demandas.

O problema, segundo ele, é que os projetos estão avançando mais rapidamente do que a disponibilidade de profissionais capazes de atender às novas necessidades. Tecnologias que já estão sendo incorporadas aos sistemas ferroviários exigem competências que ainda não estão suficientemente disseminadas no mercado.

A universidade aparece como um elo importante nessa equação. Barbosa criticou a falta de incentivos para aproximar os estudantes das empresas e do setor ferroviário e defendeu iniciativas capazes de levar os jovens a conhecer melhor essa realidade. Nesse sentido, a Semana de Tecnologia Metroferroviária exerce uma função que considera importante: apresentar, por meio de palestras, trabalhos e demonstrações, um setor que muitas vezes é desconhecido por quem está escolhendo seu caminho profissional.

Espaço influenciador

A experiência de Fábio Juvenal Ferreira, CEO da Transvia, mostra como essa aproximação pode influenciar uma trajetória. Ele contou que participou de uma das primeiras edições da Semana, ainda no começo da carreira, e que aquela experiência contribuiu para definir o caminho profissional que gostaria de seguir.

Décadas depois, Ferreira passou a enxergar o evento também como uma ferramenta para estimular os profissionais que estão chegando ao setor. A Transvia não se limitou a patrocinar a Semana. Durante os quatro dias, profissionais da área de engenharia da empresa se revezaram para acompanhar palestras, apresentações técnicas e discussões.

A iniciativa tem uma razão clara: permitir que os jovens conheçam o setor para além das atividades que desempenham em seus empregos. Ao entrar em contato com trabalhos desenvolvidos por outras empresas, novas tecnologias e diferentes profissionais, eles ampliam a percepção sobre as possibilidades existentes na engenharia metroferroviária.

Para Ferreira, esse é um dos principais diferenciais da Semana. O evento deixou de ser apenas uma oportunidade para as empresas apresentarem seus nomes e produtos e passou a constituir um ambiente de compartilhamento de conhecimento. Por isso, ele defendeu que outras empresas também levem seus jovens engenheiros aos fóruns técnicos e estimulem sua participação na produção e apresentação de trabalhos.

A preocupação com a formação de novas gerações também se relaciona à própria capacidade tecnológica brasileira. Na avaliação do executivo, a quantidade e a qualidade dos trabalhos apresentados ao longo da Semana demonstram que o país possui competência para desenvolver soluções sofisticadas e, em alguns casos, inovadoras em âmbito internacional.

Essa percepção é relevante para a atração de profissionais. Mostrar que a engenharia ferroviária brasileira participa do desenvolvimento de soluções de alta complexidade pode ajudar a combater a ideia de que as melhores oportunidades para quem deseja trabalhar com tecnologia estão necessariamente fora do setor de infraestrutura.

Trabalhos técnicos e experiências

Thiago Nahara Giuliani, diretor de engenharia da IEME Brasil, destacou justamente a transformação pela qual passou a Semana de Tecnologia. Em sua avaliação, o evento não se resume mais à exposição das empresas. A participação de profissionais e parceiros, com apresentação de trabalhos técnicos e experiências, tornou-se uma parte importante da programação.

A própria trajetória da IEME, segundo Giuliani, está associada ao desenvolvimento de soluções e serviços especializados para o setor. Ele destacou a evolução da capacidade nacional de realizar ensaios e desenvolver tecnologias que, no passado, exigiam o envio de materiais para países como Itália, Alemanha ou Estados Unidos.

A mensagem implícita é que existe um campo de trabalho sofisticado sendo construído no país. Para os jovens engenheiros, isso significa a possibilidade de participar de projetos que combinam engenharia tradicional com novas tecnologias.

Concorrência por profissionais

O desafio de conquistar essa geração, entretanto, não é exclusivo do setor ferroviário. Anderson Oliveira Sousa, CEO da BMX1 Engenharia, observou que as empresas de infraestrutura passaram a competir com novos segmentos pela mesma mão de obra. O mercado financeiro e os negócios digitais, por exemplo, ampliaram suas oportunidades de contratação de engenheiros e passaram a disputar talentos que anteriormente poderiam seguir caminhos mais tradicionais da engenharia.

Segundo Sousa, basta observar o ambiente universitário para perceber essa mudança. Empresas de construção e infraestrutura passaram a disputar espaço com um número muito maior de organizações de outros setores interessadas em captar estudantes.

A resposta, em sua avaliação, precisa incluir uma mudança na própria forma de trabalhar. Se os jovens querem tecnologia, as empresas precisam incorporar tecnologia. Inteligência artificial, por exemplo, passa a fazer parte da realidade da engenharia e da construção, e não pode ser tratada como um elemento secundário.

A BMX1 já criou um departamento dedicado à inteligência artificial. A experiência é apresentada como parte de uma transformação mais ampla: a tecnologia precisa estar incorporada à empresa não apenas para aumentar a eficiência, mas também para torná-la mais atraente aos profissionais que estão ingressando no mercado.

Nesse sentido, a Semana de Tecnologia encontra um terreno especialmente fértil. O evento permite que o jovem veja aplicações concretas de tecnologia no setor em que eventualmente poderá trabalhar. A apresentação de projetos, sistemas e soluções ajuda a estabelecer uma conexão entre aquilo que o estudante aprende e as aplicações que encontrará no ambiente profissional.

Para Sousa, porém, a questão da mão de obra está inserida em um desafio ainda maior: a necessidade de ampliar os investimentos em infraestrutura no Brasil. O executivo defendeu um esforço conjunto de governos e empresas para elevar a capacidade de investimento e reduzir a defasagem brasileira em relação a outros países.

Pluralidade de visões

A necessidade de cooperação também apareceu na fala de Antônio Márcio Barros da Silva, diretor de Operações da Motiva. Para ele, uma das características mais importantes da Semana é justamente a capacidade de reunir diferentes empresas e profissionais em torno de problemas comuns.

O executivo rejeitou uma visão do setor baseada exclusivamente na divisão entre empresas públicas e privadas. Para ele, existe uma rede de profissionais e organizações que dependem uns dos outros para que o sistema funcione. Operadores, concessionárias, fornecedores e demais participantes da cadeia precisam compartilhar conhecimento e buscar soluções conjuntamente.

Essa interdependência torna ainda mais preocupante a escassez de mão de obra. A falta de profissionais não é um problema isolado de uma empresa, mas uma questão que afeta diferentes segmentos do setor.

A resposta da Motiva tem incluído programas de formação de profissionais para funções como operação de trens, atendimento e segurança. Barros da Silva destacou que essas iniciativas não devem beneficiar apenas a empresa, mas contribuir para a formação de pessoas para o próprio mercado. A oferta de formação gratuita amplia ainda mais esse caráter.

O raciocínio é semelhante ao que aparece nas demais falas: se o setor precisa de pessoas, precisa também criar caminhos para que elas conheçam esse universo, desenvolvam competências e enxerguem nele uma possibilidade de carreira.

A contribuição da Semana

Pablo Abujordona, gerente executivo de Manutenção da TIC Trens, resumiu a contribuição da Semana a partir de quatro elementos: aprendizado, troca de experiências, construção conjunta de conhecimento e networking. Para ele, os debates, projetos inovadores e boas práticas apresentados durante os quatro dias reforçam o compromisso do setor com a inovação.

A participação da TIC Trens na Semana e no Prêmio Tecnologia & Desenvolvimento Metroferroviários também foi associada à formação de pessoas. A inovação, segundo Abujordona, não se resume à criação de novas soluções: envolve a capacidade de formar profissionais para construir os próximos caminhos da mobilidade sobre trilhos.

É justamente a combinação desses elementos que dá à Semana de Tecnologia uma importância particular em um momento de escassez de profissionais. O evento coloca jovens em contato com engenheiros experientes, empresas, pesquisadores, projetos e tecnologias. Mais do que assistir a palestras, eles podem perceber a dimensão do conhecimento produzido pelo setor e identificar possibilidades de atuação que talvez não conhecessem.

A disputa por profissionais começa muito antes do processo seletivo

Os depoimentos dos dirigentes revelam, assim, que a disputa por profissionais começa muito antes do processo seletivo. Ela começa na universidade e nos primeiros anos de carreira, quando os jovens definem quais áreas consideram atraentes e quais ambientes profissionais desejam frequentar.

Para o transporte sobre trilhos, essa disputa tem uma particularidade. A expansão e modernização dos sistemas dependem de tecnologias cada vez mais complexas, mas também de profissionais capazes de desenvolvê-las, implantá-las e mantê-las. Formar essa mão de obra exige tempo. Por isso, aproximar os jovens do setor não pode ser uma iniciativa pontual.

A Semana de Tecnologia pode contribuir justamente para antecipar esse contato. Ao apresentar uma ferrovia associada à inovação, aos dados, à automação, à inteligência artificial, aos novos sistemas de sinalização e a projetos de elevada complexidade, o evento ajuda a reposicionar a imagem do setor diante das novas gerações.

Os dirigentes também deixaram claro que essa tarefa não deve ser atribuída exclusivamente às entidades organizadoras. As empresas precisam participar mais ativamente, levar seus jovens profissionais aos eventos, estimular a produção de trabalhos técnicos, criar programas de formação e estabelecer vínculos mais fortes com as universidades.

A mensagem que emerge do encerramento da 32ª Semana de Tecnologia é, portanto, que atrair pessoas tornou-se tão estratégico quanto desenvolver tecnologias. Sem engenheiros, técnicos e profissionais preparados, as soluções apresentadas nos eventos permanecem apenas projetos. Sem novos talentos, a capacidade de inovação construída ao longo das últimas décadas corre o risco de não encontrar continuidade.

Nesse contexto, a Semana de Tecnologia ganha um papel que ultrapassa sua programação anual. Ao aproximar profissionais experientes e jovens, empresas e universidades, conhecimento e aplicação, ela ajuda a construir uma ponte entre o presente e o futuro do transporte sobre trilhos.

E, diante da falta de mão de obra apontada pelos próprios dirigentes, talvez uma das tarefas mais importantes dessa ponte seja justamente convencer um jovem engenheiro de que existe, na ferrovia, um caminho profissional tão tecnológico, desafiador e inovador quanto aqueles que hoje disputam sua atenção

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