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Ônibus elétricos avançam, mas escala exige novos modelos

Debate no Fórum Transporte Sustentável durante a Lat.Bus 2026 mostra que expansão das frotas depende de financiamento, infraestrutura e capacitação, com inclusão feminina entre os novos desafios

Publicado em 17/08/2026 por Valeria Bursztein

Painel “Benefícios da eletromobilidade no transporte coletivo: da redução de emissões à inclusão de gênero nos projetos" (Márcio Bruno Photo)
Painel “Benefícios da eletromobilidade no transporte coletivo: da redução de emissões à inclusão de gênero nos projetos" (Márcio Bruno Photo)

A eletrificação do transporte coletivo começa a avançar no Brasil, mas transformar projetos-piloto em frotas de maior escala exigirá mais do que a compra de ônibus. Financiamento, infraestrutura de recarga, capacidade técnica das cidades e novos modelos de operação estão entre os principais desafios apontados no painel “Benefícios da eletromobilidade no transporte coletivo: da redução de emissões à inclusão de gênero nos projetos”, promovido pelo C40 Cities, rede internacional de cidades voltada à ação climática, durante o Fórum Transporte Sustentável, na Lat.Bus 2026.

O debate reuniu representantes do governo federal, prefeituras e operadores e mostrou que a transição também começa a produzir efeitos que ultrapassam a redução das emissões, como melhoria da qualidade do serviço, impactos sobre saúde pública e abertura de novas oportunidades profissionais para mulheres.

A diretora do departamento de Regulação da Mobilidade e Trânsito Urbano da secretaria nacional de Mobilidade Urbana (Semob), do ministério das Cidades, Danielle Costa de Holanda, afirmou que o governo federal pretende ampliar o apoio técnico e financeiro aos municípios. Entre as iniciativas em desenvolvimento está um modelo de compra agregada de ônibus, que busca dar escala à demanda e contribuir para a redução do preço dos veículos.

Segundo Danielle, a eletromobilidade deve ser tratada dentro de uma agenda mais ampla de transição do transporte coletivo. “Para além da redução de emissões”, disse, “há efeitos sobre saúde pública, qualidade do serviço e inclusão social, além da possibilidade de ampliar a presença feminina no planejamento, manutenção, operação, gestão e tomada de decisão”.

Municípios enfrentam barreiras diferentes

Um dos pontos levantados no painel foi a dificuldade das cidades menores para estruturar projetos e acessar financiamento. Segundo Danielle, desde 2023 o ministério das Cidades vem oferecendo capacitação e assistência técnica associadas às demandas recebidas pelo Novo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) e ampliando parcerias para apoiar a modelagem dos projetos.

A avaliação é que não há um único desenho aplicável a todos os municípios. Capacidade financeira, tamanho da frota, características operacionais e infraestrutura disponível interferem na escolha do modelo e no ritmo da transição.

Belo Horizonte, por exemplo, está concluindo o processo para adquirir 100 ônibus elétricos em uma frota urbana próxima de 2,8 mil veículos. Para o secretário de Mobilidade da prefeitura, Marco Antonio Silveira, o número deve ser entendido como parte de uma trajetória gradual.

Segundo ele, cada cidade terá sua própria curva de aprendizado. Questões como capacidade da rede elétrica, autonomia das baterias, manutenção e preparação das equipes ainda precisam ser incorporadas à rotina dos sistemas. “Estamos aprendendo a fazer”, afirmou.

Salvador prepara salto de oito para 108 ônibus

Salvador seguiu estratégia semelhante, começando em pequena escala. A cidade colocou os primeiros oito ônibus elétricos em operação em 2022 e implantou um terminal público capaz de realizar 20 recargas simultâneas. Agora, segundo a vice-prefeita Ana Paula Matos, a prefeitura busca financiamento de US$ 94 milhões junto ao Banco Mundial para adquirir mais 100 veículos.

O aumento da frota exigirá nova infraestrutura. O terminal existente não será suficiente para atender aos novos veículos, e a prefeitura estuda, com apoio do C40, alternativas para ampliar a capacidade de recarga.

Para a vice-prefeita, o custo inicial continua sendo uma das principais barreiras, mas não é o único fator a ser enfrentado. Ana Paula relacionou o avanço da eletromobilidade à formação de parcerias e ao planejamento de longo prazo. Salvador começou a estudar o tema em 2018, incorporou a eletrificação ao planejamento de mobilidade e articulou com as operadoras a entrada dos primeiros oito veículos.

A experiência, segundo ela, mostra também que a expansão não pode depender apenas dos recursos municipais. “Não conseguiremos avançar pensando apenas em recursos próprios, porque os desafios da gestão pública são diários”, afirmou. No caso de Salvador, o investimento em infraestrutura é municipal, apoiado por financiamento internacional.

Operação revela ganhos e gargalos

Do ponto de vista das empresas, a experiência da MobiBrasil, operadora de transporte coletivo urbano com atuação em São Paulo e Pernambuco, mostra que a infraestrutura elétrica ainda é um dos principais limites da expansão. Vice-presidente da companhia, Niege Chaves afirmou que a empresa já opera 150 ônibus elétricos e trabalha com veículos de diferentes fabricantes. A implantação exigiu treinamento das equipes, intercâmbio de experiências e adaptação progressiva da operação.

Apesar dos obstáculos iniciais, a avaliação da executiva é positiva. Segundo Niege, os ônibus elétricos têm menor número de componentes, apresentam menos quebras e são bem avaliados pelos motoristas. A empresa também iniciou uma pesquisa para comparar a percepção dos passageiros em relação aos veículos elétricos e a diesel. “Tem muitos ganhos: redução de custo, melhoria na qualidade de vida, melhoria na saúde pública, melhoria para o nosso motorista”, afirmou.

Mulheres ganham espaço na operação

A transformação tecnológica também está sendo usada para enfrentar outra dificuldade do transporte coletivo: a falta de motoristas e a baixa presença feminina em funções operacionais. Na MobiBrasil, um programa de formação iniciado há dois anos começou com 20 mulheres. Hoje, segundo Niege, a companhia tem mais de 140 motoristas mulheres entre cerca de 1,4 mil profissionais da função. Elas já representam aproximadamente 10% dos motoristas da empresa, enquanto a participação feminina no quadro total da operação de São Paulo chega a 35%.

Salvador adotou estratégia semelhante com o programa Mulheres no Volante. Segundo a vice-prefeita da cidade, a iniciativa inclui apoio para mudança da categoria da carteira de habilitação, capacitação e ações para enfrentar barreiras culturais e situações de assédio. A prefeitura registra aumento de 130% no número de mulheres motoristas e de 50% na presença feminina na manutenção.

A experiência ajuda a ampliar o alcance da discussão sobre eletromobilidade. Para os participantes do painel, substituir o diesel pela eletricidade é apenas uma parte da transformação. A mudança envolve a forma de financiar as frotas, preparar a infraestrutura, organizar os contratos, capacitar trabalhadores e incorporar ao sistema grupos historicamente pouco presentes em sua operação e gestão.

 

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