Inteligência operacional transforma ESG em vantagem competitiva no transporte
Conectividade, análise de dados e valorização dos motoristas mostram como empresas de transporte coletivo estão transformando tecnologia em eficiência operacional, sustentabilidade e melhor experiência para o passageiro. Indústria acompanha essa evolução com novas soluções para ampliar os ganhos de produtividade.
Publicado em 02/07/2026 por Alexandre Asquini

A transformação do transporte coletivo não está sendo conduzida apenas por novos motores, combustíveis renováveis ou veículos cada vez mais conectados. Ela acontece, sobretudo, dentro das empresas operadoras, que vêm utilizando inteligência operacional para tomar melhores decisões, desenvolver seus profissionais, conhecer mais profundamente seus clientes e extrair maior eficiência de suas frotas.
Essa foi uma das principais conclusões do segundo painel da nona edição do Fórum Transporte Sustentável, realizado nesta quarta-feira, 1º de julho, no auditório da Scania, em São Bernardo do Campo (SP), dedicado ao tema "ESG e performance operacional: inteligência aplicada à logística e ao transporte". O painel mostrou as experiências relatadas por empresas de transporte que evidenciaram como a transformação digital deixou de ser um projeto tecnológico para se tornar uma estratégia de gestão.
Rapidez da agenda ESG
O moderador do painel, Rodrigo Anitta, gerente de Portfólio de Serviços da Scania, lembrou na abertura da sessão que a agenda ESG evoluiu rapidamente nos últimos anos. Se antes estava fortemente associada à adoção de combustíveis alternativos, hoje incorpora também gestão baseada em dados, conectividade, manutenção inteligente e redução sistemática de desperdícios.
Segundo ele, esse movimento pode ser medido pela própria evolução do mercado. A Scania alcançou em 2026 a marca de 100 mil caminhões e ônibus conectados no Brasil, quatro anos antes da meta inicialmente prevista, evidenciando que transportadores passaram a enxergar valor econômico na inteligência embarcada. O moderador observou que essa inteligência também permite eliminar desperdícios em processos como a manutenção, substituindo peças e fluidos apenas quando os indicadores efetivamente apontam necessidade, com redução de custos e de impactos ambientais.
Ações concretas
Nas apresentações das operadoras, a transformação descrita por Rodrigo Anitta ganhou contornos mais concretos. Presidente da Viação Santa Cruz, Francisco Mazon mostrou como a conectividade passou a fazer parte da rotina operacional da empresa. A renovação permanente da frota, a padronização dos veículos e o uso intensivo dos sistemas embarcados permitiram reduzir custos de manutenção, melhorar o desempenho operacional e elevar os níveis de segurança. "A conectividade gera uma cadeia de vantagens", resumiu.
Segundo ele, os benefícios alcançam praticamente todos os envolvidos na operação. Passageiros contam com uma frota mais confiável e confortável; motoristas trabalham com veículos mais modernos; a manutenção torna-se mais previsível, e a empresa reduz desperdícios de combustível, pneus e componentes.
A produção contínua de dados também mudou a forma de desenvolver os profissionais. Cada viagem gera indicadores que medem aspectos como dirigibilidade, consumo, utilização do veículo e comportamento operacional. Esses resultados alimentam uma classificação permanente dos motoristas, criando uma competição saudável entre eles.
Os profissionais passaram a compartilhar espontaneamente seus indicadores de desempenho, estimulando um ambiente em que a melhoria contínua se tornou parte da cultura organizacional. Quando um motorista apresenta desempenho inferior ao esperado, entram em ação instrutores especializados.
Divididos por regiões de operação, esses profissionais acompanham grupos específicos de condutores, analisam os dados produzidos pela telemetria e, quando necessário, embarcam ao lado do motorista para demonstrar, na prática, técnicas capazes de melhorar consumo, segurança e conforto. "O instrutor acompanha aquele motorista que está no B ou no C e mostra que é possível alcançar resultados melhores", explicou Mazon.
Mais do que operadores dos veículos, os motoristas passaram a ocupar posição estratégica na eficiência da empresa, já que sua forma de condução influencia diretamente consumo de combustível, desgaste de componentes, segurança operacional e emissões.
Questão estratégica
Enquanto Francisco Mazon apresentou exemplos concretos da utilização da conectividade na operação, Gustavo Rodrigues, CEO do Grupo JCA, levou a discussão para um plano estratégico. Segundo ele, tecnologia não transforma empresas sozinha. Ela precisa estar inserida em um processo de mudança cultural.
Rodrigues lembrou que a digitalização do grupo começou há mais de uma década, inicialmente com planejamento estratégico estruturado, posteriormente com sistemas de gestão de frota e, mais recentemente, com aplicações de inteligência artificial em diversos processos internos.
Mas fez questão de destacar que o principal investimento realizado pela empresa não foi tecnológico. "A melhor decisão que tomamos foi deixar de ser uma empresa que transportava passageiros para nos tornarmos uma empresa que conhece profundamente seus clientes."
Essa mudança alterou completamente a lógica de gestão do Grupo JCA. Hoje, pesquisas permanentes de satisfação alimentam decisões operacionais praticamente em tempo real. Indicadores como NPS (Net Promoter Score), que mede a satisfação e lealdade dos clientes, e e-NPS (Employee Net Promoter Score), que mede o engajamento e satisfação dos colaboradores, permitem identificar rapidamente falhas de atendimento, atrasos ou oportunidades de melhoria, criando um processo contínuo de aperfeiçoamento dos serviços.
Segundo Rodrigues, durante muitos anos o setor concentrou seus esforços em discutir o ônibus ideal. A experiência mostrou que o verdadeiro diferencial competitivo está em compreender quem utiliza esse ônibus e quais são suas expectativas.
Essa visão permitiu redesenhar a operação, simplificar a frota, elevar sua ocupação, utilizar veículos de maior capacidade quando necessário, aumentar a produtividade e oferecer um serviço de maior qualidade, demonstrando que conhecer melhor o cliente produz ganhos operacionais e ambientais ao mesmo tempo.
Valorizar os motoristas
Outro aspecto que aproximou as apresentações de Francisco Mazon e Gustavo Rodrigues foi a valorização dos motoristas. Ambos defenderam que o profissional deixou de ser apenas executor da operação para tornar-se protagonista da estratégia de eficiência. Além da produtividade, sua atuação passou a influenciar diretamente indicadores ambientais, econômicos e de governança, consolidando seu papel na agenda ESG das empresas.
Na Santa Cruz, isso ocorre por meio do acompanhamento permanente dos indicadores individuais e da atuação dos instrutores. No Grupo JCA, programas de reconhecimento, encontros periódicos entre dirigentes e motoristas, pesquisas internas e canais permanentes de diálogo procuram fortalecer o engajamento das equipes.
Os melhores profissionais são escolhidos não apenas pelos indicadores técnicos, mas também pelo reconhecimento dos próprios colegas, reforçando uma cultura de pertencimento e valorização.
Outras visões
Cláudio Adamucci, CEO da G10 Transportes e da Transpanorama, mostrou como centros de controle operacional, telemetria, monitoramento em tempo real, manutenção preditiva e câmeras de detecção de fadiga revolucionaram a gestão do transporte rodoviário de cargas.
Segundo ele, a conectividade tornou possível acompanhar continuamente cada veículo, antecipar falhas mecânicas, aumentar a disponibilidade da frota e reduzir significativamente os índices de acidentes. A tecnologia também fortaleceu a governança das empresas ao permitir decisões baseadas em informações coletadas em tempo real.
Complementando essa visão, Victor Dante, responsável pelo marketing da Prometeon para a América Latina, apresentou a evolução tecnológica dos pneus comerciais.
Segundo ele, os pneus deixaram de ser apenas componentes mecânicos para se transformar em importantes fontes de informação operacional. Sensores capazes de monitorar continuamente pressão, temperatura e condições de funcionamento deverão permitir uma gestão muito mais precisa da manutenção, reduzindo consumo de combustível, aumentando a vida útil dos pneus e diminuindo custos operacionais.
Dante observou que o desafio atual não está apenas em desenvolver essas tecnologias, mas torná-las economicamente acessíveis para que possam ser incorporadas em larga escala pelas transportadoras. Também destacou a importância da recapagem e da correta destinação dos pneus como parte das estratégias de sustentabilidade do setor.
Segundo Dante, entretanto, os melhores resultados dependem da combinação entre tecnologia e disciplina operacional, para que as informações produzidas pelos sistemas embarcados sejam efetivamente incorporadas à rotina das transportadoras.
Novo cenário
Ao conduzir o debate, Rodrigo Anitta reforçou que ESG deixou de estar associado exclusivamente à adoção de combustíveis alternativos. Para ele, motores mais eficientes, manutenção baseada em dados, conectividade, planejamento operacional e inteligência de gestão também produzem importantes ganhos ambientais ao reduzir desperdícios e emissões.
O moderador lembrou que a própria Scania alcançou, quatro anos antes do previsto, a marca de 100 mil caminhões e ônibus conectados no Brasil, resultado que demonstra a crescente adesão das transportadoras às ferramentas digitais.
Ao final do painel, tornou-se evidente que a inteligência operacional passou a ocupar posição estratégica na agenda do transporte. Se, no passado, sustentabilidade era medida principalmente pelas emissões dos veículos, hoje ela passa igualmente pela qualidade da gestão, pela utilização inteligente das informações produzidas pelos sistemas embarcados, pela capacitação dos motoristas e pela capacidade das empresas de conhecer melhor seus clientes.
Nesse novo cenário, a tecnologia deixa de ser um fim em si mesma. Ela se transforma em instrumento para operações mais eficientes, empresas mais competitivas e serviços de melhor qualidade — uma mudança que já pode ser observada nas operadoras de transporte de passageiros e que tende a se ampliar por toda a cadeia da mobilidade e da logística.
Atividades do Fórum
O Fórum Transporte Sustentável teve também outros dois painéis. O painel de abertura reuniu representantes da Scania, Suzano, CEVA Logistics, Transjordano e Pacto Global da ONU no Brasil para discutir os caminhos da descarbonização, considerando diferentes rotas tecnológicas, a infraestrutura necessária e os impactos sobre a competitividade.
Esse painel inicial foi precedido de uma apresentação do documento Roadmap for the net zero road transport (ou Roadmap para o Transporte Rodoviário Net Zero), um estudo estratégico lançado pelo Pacto Global da ONU (Rede Brasil), em parceria com a Scania e apoio da Confederação Nacional do Transporte (CNT), que propõe um plano estruturado para zerar as emissões líquidas de carbono do setor de transporte de cargas até 2050.
O painel final abordou a importância de indicadores, métricas e mecanismos de validação das ações ESG, tendo a Transportes Cavalinho compartilhado sua experiência na gestão e comprovação de resultados em sustentabilidade.
Na sessão final houve o lançamento do Prêmio Transporte Sustentável nas modalidades Transporte de Passageiros e Rodoviário de Cargas, que reconhece e certifica empresas de transporte que se destacam em eficiência, sustentabilidade e governança, com base em critérios ESG, e o Prêmio Scania Desempenho Sustentável.
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