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Bonde São Paulo vem aí. Mas com que tecnologia?

Projeto é defendido pela São Paulo Urbanismo como elemento articulador de intervenções urbanas, habitação, mobilidade e recuperação de espaços públicos, enquanto a tecnologia do veículo é tratada como uma escolha subordinada aos objetivos de transformação da região central

Publicado em 01/07/2026 por Alexandre Asquini

Imagem referencial Praça Princesa Isabel (REPRODUÇÃO SP URBANISMO)
Imagem referencial Praça Princesa Isabel (REPRODUÇÃO SP URBANISMO)

O projeto do Bonde São Paulo deve ser compreendido menos como uma iniciativa de transporte e mais como uma ferramenta de requalificação urbana do centro da capital paulista. Essa foi a principal mensagem apresentada pelo presidente da São Paulo Urbanismo, Pedro Martin Fernandes, durante debate realizado no início de junho na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Presbiteriana Mackenzie, na capital paulista.

Segundo ele, o novo sistema de transporte tem como objetivo articular diferentes intervenções urbanas em andamento, melhorar a qualidade dos espaços públicos, fortalecer a ocupação residencial da região central e reorganizar a circulação de ônibus. Nesse contexto, a tecnologia a ser utilizada — seja um Veículo Leve sobre Trilhos (VLT), um sistema guiado sobre pneus ou outra solução — aparece como uma decisão associada aos objetivos mais amplos de transformação urbana.

Pedro Martin Fernandes disse à Technibus que a definição da tecnologia a ser adotada no Bonde São Paulo será definida em 90 dias – ou seja, até setembro de 2026 -, quando o projeto deverá estar sacramentado.

A abertura dos trabalhos foi feita pelo diretor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da Universidade Presbiteriana Mackenzie, Carlos Leite. O encontro sobre o Bonde São Paulo foi organizado pelo Laboratório de Projetos e Políticas Públicas, que tem como coordenador e fundador o arquiteto, urbanista e professor Valter Caldana.

Estratégia da SP Urbanismo

Ao longo de sua apresentação, Martin procurou situar o bonde dentro de uma estratégia mais abrangente de atuação da São Paulo Urbanismo. Segundo ele, o centro da cidade constitui um dos três principais eixos de intervenção atualmente conduzidos pelo órgão, ao lado de projetos relacionados à recuperação de cursos d’água e à urbanização de comunidades vulneráveis.

Para o urbanista, a discussão sobre a região central passa por uma mudança de paradigma. Historicamente estruturado como ponto de convergência dos deslocamentos metropolitanos, o centro acabou se transformando em um espaço predominantemente de passagem, marcado pela intensa circulação de veículos e pela concentração de linhas de transporte coletivo.

“O grande desafio hoje é transformar o centro em um lugar de permanência”, afirmou. Na avaliação de Martin, esse conceito orienta diversas políticas atualmente em curso, incluindo programas de retrofit de edifícios, recuperação de espaços públicos e iniciativas voltadas à ampliação do uso residencial da região.

Mobilidade integrada

Embora tenha insistido que o projeto não deve ser reduzido à discussão sobre modais, Martin destacou a importância da integração com a rede de transporte existente. O sistema foi concebido para conectar estações de metrô, linhas da CPTM e terminais de ônibus, funcionando como um distribuidor de viagens dentro da área central. Segundo os estudos apresentados, o traçado se integra a nove estações de metrô, duas estações ferroviárias e cinco terminais de ônibus.

A proposta também prevê uma reorganização da rede de transporte coletivo na região. De acordo com os levantamentos apresentados, 99 linhas de ônibus seriam impactadas pelo projeto, sendo que 65 receberiam algum tipo de alteração operacional. Os estudos indicam a manutenção de parte das linhas, além de desvios, seccionamentos e cancelamentos em alguns casos, resultando em uma redução estimada de 61 ônibus circulando pela área central.

Na avaliação do presidente da São Paulo Urbanismo, a medida contribuiria para diminuir a saturação viária, reduzir ruídos e melhorar a qualidade dos espaços públicos.

Espaço público qualificado

Grande parte da apresentação foi dedicada às intervenções urbanísticas associadas ao corredor. Pedro Martin Fernandes ressaltou que o projeto contempla a ampliação e requalificação de calçadas, implantação de pisos táteis, renovação da iluminação pública, incremento da arborização e criação de áreas permeáveis.

Entre os números apresentados estão o plantio de 709 árvores, a implantação de 6.700 metros quadrados de áreas permeáveis e a instalação de 20 quilômetros de piso tátil ao longo do percurso.

Segundo ele, a mobilidade deve ser entendida desde o momento em que o cidadão deixa sua residência e acessa o espaço público. Por isso, as melhorias para pedestres e usuários do transporte coletivo ocupam posição central na concepção do projeto.

Debate tecnológico permanece aberto?

A etapa final da apresentação foi dedicada ao debate sobre a tecnologia a ser adotada. Pedro Martin Fernandes afirmou que o projeto foi desenvolvido de forma a permitir diferentes soluções tecnológicas, incluindo VLT convencional, sistemas alimentados por hidrogênio, alimentação pelo solo, supercapacitores, baterias com recarga de oportunidade e o chamado Digital Rail Transit (DRT), sistema guiado sobre pneus.

O DRT corresponde ao que em Curitiba está sendo chamado de Bonde Urbano Digital (BUD) – um sistema cujo veículo é guiado no asfalto por meio de indução magnética, dispensando trilhos físicos; trata-se de um modelo fabricado pela gigante chinesa CRRC.

Segundo o presidente da São Paulo Urbanismo, todas essas alternativas foram analisadas ao longo dos estudos e permanecem tecnicamente viáveis dentro da infraestrutura prevista.

Apesar de dar a entender que existe certa equidade de oportunidades, o presidente da São Paulo Urbanismo destacou que uma eventual adoção do DRT poderia representar redução significativa nos investimentos em infraestrutura, chegando a aproximadamente R$ 1 bilhão em comparação com determinadas soluções ferroviárias tradicionais.

Na sua avaliação, a decisão final deve considerar não apenas aspectos tecnológicos, mas também os impactos urbanísticos, operacionais e financeiros do projeto. “A tecnologia tem sido sempre vista como uma aliada possível para cumprir os conceitos que estão colocados desde o começo”, afirmou.

Confira a reportagem completa na 173ª edição da Technibus

Acervo OTM Editora




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