Computação inteligente se espalhará por bilhões de dispositivos e transformará carros, robôs e cidades, diz Luiz Tonisi
Presidente da Qualcomm para a América Latina afirma que a inteligência artificial está migrando dos data centers para a borda da rede, impulsionando uma nova economia baseada em agentes inteligentes, processamento local e integração entre mundo digital e físico.
Publicado em 26/06/2026 por Alexandre Asquini
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A computação inteligente deixará de estar concentrada apenas nos grandes data centers e passará a ser distribuída por bilhões de dispositivos conectados. Nesse cenário, a combinação entre inteligência artificial embarcada, agentes inteligentes, conectividade avançada, eficiência energética e processamento local transformará smartphones, automóveis, robôs, óculos inteligentes e diversos outros equipamentos em plataformas autônomas capazes de perceber, decidir e agir sobre o mundo físico. Para o setor automotivo, em particular, essa mudança significa a consolidação do veículo como uma plataforma digital movida por softwares e inteligência artificial.
Essa foi a principal mensagem apresentada por Luiz Tonisi, presidente da Qualcomm para a América Latina, durante sua participação no evento Anfavea Vision, realizado em junho, em São Paulo. Em sua exposição, intitulada “Enabling Intelligent Computing Everywhere” ("Levando a computação inteligente para todos os lugares"), o executivo descreveu a evolução tecnológica que, em sua avaliação, está conduzindo a economia mundial para uma nova etapa, marcada pela disseminação da inteligência artificial em praticamente todos os equipamentos eletrônicos.
Segundo Tonisi, a história recente da transformação digital pode ser compreendida como uma sequência de grandes ciclos tecnológicos. O primeiro foi o da voz, impulsionado pela expansão da telefonia. Em seguida veio a era dos dados, responsável pela criação da internet moderna, das redes móveis e da economia digital. Agora, o mundo estaria ingressando em uma nova fase, na qual o principal insumo econômico deixa de ser o dado e passa a ser o processamento de inteligência artificial.
“Você sai da voz, passa pelos dados e vai para o token”, resumiu. Para o executivo, a nova economia será cada vez mais baseada na capacidade de gerar, processar e utilizar tokens, unidade fundamental dos modelos de IA generativa.
Os tokens funcionam como as peças de um quebra-cabeça linguístico. Em vez de analisar frases completas de uma só vez, a inteligência artificial divide o texto em pequenos segmentos — palavras, partes de palavras, números ou sinais de pontuação — e processa cada um deles para compreender o significado do texto e produzir novas informações.
Nova economia
A ascensão da inteligência artificial tem provocado uma corrida sem precedentes por capacidade computacional. Tonisi lembrou que as maiores empresas de tecnologia do planeta estão investindo centenas de bilhões de dólares em infraestrutura para treinamento e operação de modelos avançados de IA.
Segundo ele, apenas sete gigantes americanas concentram investimentos anuais da ordem de US$ 600 bilhões em data centers e infraestrutura computacional. Trata-se de uma escala de investimentos que, em sua avaliação, supera qualquer transformação tecnológica observada anteriormente.
Essa demanda crescente já começa a produzir efeitos em toda a cadeia global de eletrônicos. O executivo observou que a disputa por componentes voltados à inteligência artificial pressiona a oferta de memórias e processadores, elevando custos mesmo em segmentos que, à primeira vista, parecem pouco relacionados à IA.
Ao mesmo tempo, o executivo argumenta que a expansão da inteligência artificial depende da redução dos custos associados ao processamento desses modelos. Da mesma forma que a popularização da internet exigiu a redução do custo da transmissão de dados, a massificação da IA dependerá da redução do custo por token processado. “Quanto menor o custo do token, maior a elasticidade e maior a penetração dessa nova economia”, afirmou.
Essa nova corrida pela capacidade computacional também está recolocando o hardware no centro da indústria tecnológica. Segundo Tonisi, após anos em que o software concentrou a maior parte da geração de valor, a inteligência artificial voltou a tornar estratégicos componentes como chips, memórias e processadores especializados.
Empresas que antes priorizavam apenas plataformas digitais passaram a investir novamente em infraestrutura física, movimento impulsionado pela necessidade de ampliar a capacidade de processamento. É justamente nesse ponto que surge uma das principais apostas da Qualcomm: transferir parte crescente da capacidade computacional da nuvem para os próprios dispositivos.
Inteligência na borda
A visão apresentada por Tonisi é baseada no conceito de “edge computing” (computação de borda ou computação na extremidade). Em vez de depender exclusivamente de servidores remotos, equipamentos como smartphones, computadores, veículos, câmeras e robôs passarão a executar localmente modelos de inteligência artificial cada vez mais sofisticados.
A mudança traz vantagens importantes. Entre elas estão a redução da latência, o aumento da privacidade, a diminuição do tráfego de dados e a possibilidade de funcionamento mesmo sem conexão permanente com a internet. Segundo o executivo, essa abordagem será essencial para aplicações que exigem respostas instantâneas.
Um carro autônomo, por exemplo, não pode esperar que uma solicitação seja enviada para um data center e retorne alguns segundos depois. Ao detectar um pedestre atravessando a via, a decisão de frear precisa ocorrer em milissegundos. “Ele tem que estar com a capacidade de IA embarcada para ter uma resposta em milissegundos, que pode ser a diferença entre uma fatalidade e não”, observou.
A tendência, segundo Tonisi, é que o futuro seja composto por arquiteturas híbridas, nas quais parte do processamento continuará sendo realizada na nuvem, enquanto outra parcela ocorrerá diretamente nos dispositivos.
Nesse modelo, tarefas rotineiras e respostas de baixa complexidade poderão ser executadas diretamente no equipamento, enquanto consultas mais sofisticadas continuarão recorrendo aos grandes modelos hospedados na nuvem. A distribuição inteligente do processamento deverá reduzir custos, acelerar respostas e diminuir a necessidade de comunicação permanente com os data centers.
Eficiência energética
Outro ponto central da apresentação foi a eficiência energética. Tonisi destacou que o crescimento acelerado da inteligência artificial está elevando a demanda por energia e por infraestrutura computacional em todo o mundo. Nesse contexto, a relação entre desempenho e consumo energético passa a assumir importância estratégica.
Segundo ele, a métrica fundamental da nova economia digital será a quantidade de processamento obtida por unidade de energia consumida — conceito que descreveu como “tokens por watt”.
A experiência acumulada pela Qualcomm no mercado de smartphones, afirmou o executivo, oferece uma vantagem importante nesse cenário. Os dispositivos móveis foram projetados ao longo de décadas para entregar alto desempenho com consumo energético reduzido, característica que agora se torna fundamental para a expansão da inteligência artificial embarcada.
Tonisi observou que esse avanço também depende da expansão da infraestrutura computacional. Embora os investimentos em data centers estejam crescendo em todo o mundo, ele avaliou que o Brasil ainda possui capacidade instalada reduzida para acompanhar esse movimento e necessita de um ambiente regulatório e tributário mais favorável para atrair novos empreendimentos do setor.
Da IA generativa à IA física
Tonisi também apresentou uma visão evolutiva da própria inteligência artificial. Segundo ele, a tecnologia começou com modelos focados em texto, avançou para aplicações multimodais envolvendo imagens e vídeos e, mais recentemente, passou a incorporar capacidades de ação e tomada de decisão.
O próximo estágio dessa evolução seria o chamado Physical AI, ou inteligência artificial física. Nesse modelo, a IA deixa de atuar apenas no ambiente digital e passa a interagir diretamente com o mundo real, controlando máquinas, interpretando sensores, movimentando robôs e tomando decisões em ambientes físicos. “Você traz essa capacidade computacional para a borda e as coisas passam a ter capacidade de tomar decisões de forma local”, explicou.
Entre as aplicações previstas estão sistemas capazes de analisar imagens em tempo real para apoiar operações industriais, reconstruir automaticamente acidentes de trânsito, auxiliar processos de seguros e ampliar a segurança em ambientes urbanos. Essa transformação deverá impulsionar aplicações em robótica, automação industrial, mobilidade autônoma e cidades inteligentes.
O carro como plataforma digital
Grande parte da apresentação foi dedicada ao setor automotivo, área que a Qualcomm vem tratando como uma das principais frentes de expansão da inteligência artificial embarcada. Para Tonisi, os veículos estão deixando de ser definidos por seus componentes mecânicos para se tornarem plataformas computacionais. “O carro virou um computador de quatro rodas”, afirmou.
Na avaliação do executivo, essa transformação altera também o modelo de negócios da indústria automotiva. Assim como ocorre atualmente com os smartphones, os veículos passarão a incorporar serviços digitais comercializados ao longo de sua vida útil, incluindo recursos adicionais de software, novas funcionalidades e assinaturas de aplicações, criando fontes permanentes de receita para fabricantes e fornecedores.
A mudança envolve diversos elementos simultaneamente: conectividade permanente, visão computacional, inteligência artificial embarcada, atualizações remotas, agentes inteligentes, direção assistida e autônoma e venda de serviços digitais. Nesse contexto, o software passa a assumir papel central na geração de valor para fabricantes e fornecedores.
A conectividade entre veículos e infraestrutura também deverá ganhar importância. Tecnologias de comunicação direta entre automóveis e sistemas urbanos permitirão ampliar a segurança, favorecer aplicações de mobilidade inteligente e apoiar futuras operações de condução autônoma.
O executivo observou que os veículos do futuro deverão operar de forma semelhante aos smartphones atuais, recebendo atualizações frequentes e incorporando novos recursos ao longo de sua vida útil.
A era dos agentes
Entre os conceitos mais enfatizados por Tonisi está a ascensão dos agentes de inteligência artificial. Na visão do executivo, a próxima grande transformação digital não será provocada apenas pelos modelos de IA, mas pela forma como eles serão integrados ao cotidiano das pessoas.
Os agentes funcionarão como assistentes digitais permanentes, capazes de acompanhar o usuário em diferentes ambientes e dispositivos. Ao entrar no carro, por exemplo, o motorista não precisará abrir aplicativos ou configurar rotas manualmente. Bastará solicitar uma ação ao seu agente pessoal, que executará automaticamente as tarefas necessárias.
“Quando eu falar para o meu agente que quero ir para casa, não sei qual aplicativo ele está abrindo, não sei o que ele está fazendo, mas sei que ele colocou uma rota para a minha casa”, exemplificou.
Segundo Tonisi, a evolução dos próprios modelos de inteligência artificial deverá acelerar essa tendência. À medida que algoritmos mais eficientes consigam entregar desempenho semelhante utilizando menos parâmetros computacionais, crescerá a capacidade de executar modelos cada vez mais sofisticados diretamente em smartphones, automóveis e outros dispositivos conectados.
O executivo diz que a disputa tecnológica dos próximos anos será fortemente influenciada pela capacidade das empresas de criar agentes capazes de estabelecer relações duradouras e personalizadas com os usuários. Esses agentes estarão presentes em smartphones, computadores, automóveis, óculos inteligentes e outros dispositivos, aprendendo continuamente os hábitos e preferências de cada indivíduo.
Uma transformação inevitável
Luiz Tonisi entende que toda essa transformação também reorganiza o equilíbrio tecnológico mundial. Ele destacou que países como a China vêm obtendo vantagem competitiva por concentrarem uma ampla cadeia de fornecedores de componentes eletrônicos e software, permitindo acelerar o desenvolvimento de veículos definidos por software e outras plataformas inteligentes.
Durante a conversa realizada após a apresentação, Tonisi disse entender que a escala dos investimentos, os ganhos de produtividade e a velocidade de evolução tecnológica indicam que a transformação já está em curso e dificilmente poderá ser interrompida.
Na avaliação do executivo, o desafio para empresas, governos e profissionais não está em decidir se a inteligência artificial fará parte do futuro, mas em compreender como adaptar estratégias, modelos de negócio e competências a uma realidade na qual a computação inteligente estará presente em praticamente todos os lugares.
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