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Mobilidade avança para ecossistemas inteligentes, mas infraestrutura e fator humano seguem decisivos

Veículos sem motorista já operam em algumas cidades do mundo, mostrando que a discussão deixou de ser apenas tecnológica para se tornar regulatória e jurídica

Publicado em 22/06/2026 por Alexandre Asquini

Ônibus autônomo em circulação na China (Arquivo/Divulgação)
Ônibus autônomo em circulação na China (Arquivo/Divulgação)

A mobilidade está evoluindo de veículos mecânicos operados por pessoas para ecossistemas inteligentes baseados em software, dados e inteligência artificial. Mas o sucesso dessa transformação dependerá da infraestrutura disponível, da evolução regulatória e da capacidade de manter o ser humano no centro da experiência.

Essa foi a principal mensagem do painel “A nova arquitetura da mobilidade: conectividade, dados, cibersegurança e o futuro do veículo inteligente”, realizado durante o Anfavea Visions, evento promovido pela Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) na primeira quinzena de junho.

Mediado pelo jornalista Felipe Ciani, o debate reuniu Igor Calvet, presidente da Anfavea; Daniel Pitta, presidente da Allianz Partners, e Eduard Folch, presidente da Allianz Brasil, para discutir como a digitalização está redefinindo veículos, serviços e modelos de negócio em toda a cadeia automotiva.

Três etapas

Ao abrir a discussão sobre as transformações dos últimos dez anos, Eduard Folch destacou que a evolução da segurança veicular pode ser dividida em três grandes etapas. A primeira foi marcada pelos avanços da segurança passiva, como airbags e cintos de segurança. Em seguida vieram os sistemas avançados de assistência ao condutor (ADAS), capazes de alertar e auxiliar o motorista. Agora, segundo ele, a indústria ingressa em uma nova fase, em que os veículos passam a tomar decisões de forma autônoma para reduzir riscos.

“O carro freia sozinho, corrige a trajetória, identifica sinais de fadiga do motorista e pode até antecipar necessidades de manutenção”, observou o executivo. Ele citou estudos realizados pela Allianz na Alemanha indicando que uma parcela significativa dos acidentes poderia ser evitada com as tecnologias atualmente disponíveis.

Folch explicou que as análises foram realizadas a partir de estudos conduzidos pelo centro tecnológico da Allianz na Alemanha, que avaliou milhares de casos de acidentes para estimar o impacto dos sistemas avançados de assistência ao motorista. Segundo o executivo, cerca de dois terços das ocorrências analisadas poderiam ter sido evitadas caso os veículos contassem com as tecnologias atualmente disponíveis.

Lógica preditiva

Para Daniel Pitta, a principal mudança está na passagem de uma lógica reativa para uma lógica preditiva. Se antes os serviços eram acionados após a ocorrência de um problema, agora os dados gerados pelos veículos permitem antecipar situações de risco e necessidades de manutenção.

Segundo ele, a integração entre montadoras, seguradoras e empresas de assistência está criando uma jornada mais fluida para o consumidor. “O cliente não quer apenas um produto. Ele busca tranquilidade e uma experiência sem atritos”, afirmou.

Nesse contexto, a inteligência artificial passa a atuar não apenas na operação dos veículos, mas também nos serviços que os cercam. A tendência, segundo Pitta, é que os serviços de assistência evoluam de uma atuação reativa para uma abordagem cada vez mais proativa, com o próprio veículo contribuindo para identificar necessidades de manutenção e suporte antes que o problema aconteça.

Mercado de seguros

A transformação também alcança o mercado de seguros. Pitta explicou que a crescente disponibilidade de dados de telemetria permite uma compreensão muito mais precisa do comportamento do veículo e do condutor, alterando a forma como os riscos são avaliados e precificados. A consequência é o desenvolvimento de produtos cada vez mais personalizados e adaptados aos diferentes níveis de autonomia dos veículos.

O executivo destacou ainda que essa mudança amplia a necessidade de integração entre montadoras, seguradoras, empresas de assistência e consumidores, já que os dados gerados pelos veículos passam a ser fundamentais para definir novos modelos de serviço e avaliação de risco.

Condução autônoma

O avanço da condução autônoma foi outro dos temas centrais do painel. Folch lembrou que veículos sem motorista já operam em algumas cidades do mundo, mostrando que a discussão deixou de ser apenas tecnológica para se tornar regulatória e jurídica.

Ele citou exemplos de veículos autônomos em operação em cidades como São Francisco, mostrando que a tecnologia já deixou o campo experimental em alguns mercados e passou a fazer parte da mobilidade urbana. A questão central, segundo ele, passa a ser a definição de responsabilidades em situações envolvendo sistemas autônomos.

“Historicamente havia um motorista, um veículo e uma responsabilidade claramente atribuída. Agora, entram em cena fabricantes, desenvolvedores de software, operadores de frota e provedores de tecnologia”, destacou.

O tema da infraestrutura

Representando a indústria automotiva, Igor Calvet chamou atenção para um desafio recorrente no Brasil: a infraestrutura. Embora os veículos estejam incorporando níveis cada vez mais sofisticados de conectividade e inteligência embarcada, a realidade das estradas brasileiras ainda impõe limitações importantes.

Calvet observou que a cobertura de conectividade em rodovias permanece reduzida segundo ele, presente em menos de 15% das estradas brasileiras e que problemas básicos de infraestrutura, como sinalização e manutenção viária, continuam afetando o desempenho de tecnologias avançadas. “A inteligência embarcada ajuda, mas não elimina a necessidade de infraestrutura adequada”, afirmou.

O executivo também destacou a velocidade com que as transformações tecnológicas vêm ocorrendo. Ao recordar discussões realizadas poucos anos atrás sobre eletrificação e condução autônoma, observou que muitas projeções consideradas ambiciosas já se tornaram realidade. Para ele, isso dificulta qualquer tentativa de prever com precisão o cenário da próxima década.

Transição energética

Outro eixo importante do debate foi a transição energética. Calvet apontou que a eletrificação continuará avançando globalmente, mas ressaltou que o Brasil possui características próprias, especialmente pela disponibilidade de biocombustíveis como etanol e biodiesel. Nesse contexto, a descarbonização da mobilidade deverá ocorrer por múltiplas rotas tecnológicas, combinando eletrificação e combustíveis renováveis.

Os participantes ressaltaram que a infraestrutura tem papel decisivo nessa transição, citando países como Noruega e Portugal como exemplos de mercados em que a expansão da rede de recarga contribuiu para acelerar a adoção de veículos eletrificados.

O fator humano

Apesar do forte protagonismo da tecnologia ao longo de toda a discussão, os participantes convergiram em um ponto: o fator humano continuará sendo essencial. Pitta observou que, em momentos críticos — como uma pane ou um incidente em viagem —, muitos consumidores ainda valorizam o contato humano como elemento de confiança e acolhimento.

A avaliação compartilhada pelos debatedores é que a digitalização não elimina a necessidade de interação humana. Pelo contrário, quanto mais automatizada se torna a jornada do usuário, mais importante é identificar os momentos em que a presença humana agrega valor à experiência.

Ao final do painel, ficou evidente que a mobilidade do futuro será construída sobre uma combinação de conectividade, inteligência artificial, dados e automação. No entanto, a consolidação desse novo ecossistema dependerá não apenas da evolução tecnológica dos veículos, mas também de investimentos em infraestrutura, avanços regulatórios e da capacidade de equilibrar inovação com as necessidades reais das pessoas.

 

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