Após comemorar três anos consecutivos de recuperação expressiva, o mercado de ônibus inicia 2026 com muitas incertezas e atento aos fatores que podem sustentar mais um ano de crescimento ou de estabilidade.
“Temos algumas variáveis que precisam ser observadas”, afirma Ruben Bisi, presidente da Associação Nacional dos Fabricantes de Ônibus (Fabus). “Se a taxa Selic permanecerá elevada, se a tarifa de importação de produtos brasileiros imposta pelos Estados Unidos terá alguma volatilidade de preço e se as linhas de financiamento para os ônibus irão continuar no próximo ano.”
Como fatores positivos, que poderão favorecer o mercado de ônibus em 2026, foi listado por Bisi o novo edital do Caminho da Escola, que deverá ser publicado neste mês para a compra de 7.470 ônibus no próximo ano. Tem ainda o reforço do PAC Mobilidade, anunciado pelo governo na COP30, para financiar 10 mil ônibus, incluindo os modelos já comprados neste ano. “A COP30 vai endereçar novas verbas para o financiamento do transporte público e vamos ter uma melhora no financiamento para ônibus descarbonizados”, diz o presidente da Fabus.
“Também vamos ter o Refrota bem potencializado porque mais bancos estão sinalizando que querem entrar neste sistema de financiamento de ônibus urbanos, inclusive o BNDES.” Hoje, o financiamento de modelos urbanos por meio do Refrota é feito pela Caixa Econômica Federal e pelo Banco Mercedes-Benz.
Entre os fatos internacionais, que poderão refletir positivamente no país e no mercado de ônibus, o presidente da Fabus cita a guerra da Ucrânia, com previsões de que poderá acabar. “Isso fará com que o preço do petróleo fique estável ou caia, fazendo com que não aumente os preços dos combustíveis no Brasil.”
Na avaliação de Bisi, se for mantido o recurso do PAC3 para a compra de ônibus urbanos e definida a nova licitação do programa Caminho da Escola, o mercado de ônibus poderá alcançar em 2026 um volume semelhante ao de 2025. Caso contrário, registrará uma queda de até 5%, atingindo cerca de 22 mil unidades.
Como pontos negativos, que poderão afetar o mercado de ônibus no próximo ano, na avaliação do presidente da Fabus, estão a previsão decrescente do PIB para este ano, a taxa de juros, que ainda está muito alta, e o endividamento elevado das famílias. “A economia ainda está positiva, mas a redução no crescimento do PIB, estimado entre 2,2% e 2,3%, é inferior aos 2,4% previsto e abaixo do avanço da inflação, que oscila entre 4% a 4,5%. Isso causa esfriamento da economia e poderemos ter menos transporte de passageiros no fretamento da indústria”, alerta Bisi.
O executivo também considera que a queda nos juros prevista entre janeiro e fevereiro não traz alento ao setor porque a taxa de médio prazo continua elevada e não vai cair muito. O endividamento das famílias, que está muito alto, poderá impactar o setor de turismo. “Se não houver renegociação das dívidas, as famílias não terão dinheiro para viajar no próximo ano.”
Sobre as eleições, que ocorrerão neste ano, o efeito poderá ser positivo e negativo ao mercado de ônibus, segundo Bisi, devido à determinação de as compras poderem ser realizadas até um período.
Em todo o setor de ônibus, há um pessimismo entre as montadoras, que projetam queda de 10% a 15% para o mercado de ônibus. Na avaliação de Bisi, isso ocorre porque, além da diminuição nas entregas de ônibus do Caminho da Escola, a taxa de juros para bem de capital está muito elevada e as fabricantes de chassis avaliam que, assim como o setor de caminhões, isso poderá afetar também o mercado de ônibus.
Anfavea projeta para 2026 um ano igual a 2025
A Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) ainda não tem uma previsão para o mercado de ônibus em 2026, pois apresentará as projeções para todo o setor automotivo ainda neste mês. Mas, Igor Calvet, presidente da entidade, prevê instabilidade devido ao ano eleitoral, mas com indicativo positivo de que as taxas de juros comecem a retroceder no primeiro trimestre. “O que posso dizer é que será um ano igual a 2025.”
Nas montadoras de ônibus, depois de um longo período de forte demanda, o mercado começou a retrair. Em novembro, a produção de chassis atingiu 1.306 unidades, queda expressiva de 37,9% sobre outubro deste ano (2.134 unidades) e de 45,7% em relação a novembro de 2024, quando foram fabricados 2.444 veículos.
“A razão dessa retração é o ambiente macroeconômico desfavorável, com juros elevadíssimos, financiamento limitado, o que levou as montadoras a fazer ajustes na produção para adequar os estoques e enquadrar os volumes de acordo com a demanda atual”, afirma o presidente da Anfavea.
Calvet também atribui essa redução à demora do pregão do programa Caminho da Escola, que fez desacelerar a produção por gerar uma grande instabilidade. “A produção de ônibus em novembro foi o resultado mais baixo desde dezembro de 2023 e o pior novembro que o setor teve desde 2015”, destaca.
A baixa na produção em novembro impactou o acumulado do ano. Até outubro mostrava um aumento de 10,8% e nos onze meses de 2025 o crescimento foi de somente 5,5%, com 27.490 chassis de ônibus fabricados, ante um volume que atingiu 26.055 unidades de janeiro a novembro de 2024.
Do total de ônibus produzidos até novembro deste ano, 22.393 unidades são de modelos urbanos, com pequeno crescimento de 0,3% sobre os 22.226 veículos fabricados de janeiro a novembro de 2024. De modelos rodoviários foram 5.097 unidades, aumento de 37,1% sobre igual período do ano passado, quando foram fabricadas 3.719 unidades.
O presidente da Anfavea ressalta que a projeção para 2025 era que o segmento de ônibus encerraria o ano com 25.300 unidades produzidas, com aumento de 12,8% sobre 2024. “Acredito que haverá crescimento, mas será menor do que prevíamos, pois no mesmo período do ano passado a taxa de juros era de 11% e agora está em 15% ao ano. Temos uma limitação maior, queda acentuada do crédito e índice de inadimplência subindo. E até diria que o mercado tem sido resiliente”, diz Calvet.
As vendas de ônibus tiveram desempenho positivo em novembro do ano passado, com o emplacamento de 2.203 veículos, alta de 11,8% sobre outubro deste ano (1.970 unidades) e de 18,0% sobre novembro de 2024 (1.867 unidades). No acumulado de janeiro a novembro, as vendas de ônibus atingiram 21.863 unidades, crescimento de 8,2% sobre igual período de 2024, segundo a Anfavea.
Mercedes-Benz prevê um ano desafiador em 2026
A Mercedes-Benz vislumbra um ano desafiador em 2026, com efeito menor das renovações pendentes pós-pandemia, que já aconteceram em um bom volume nos últimos dois anos. “Deve ser também um ano de renovações, especialmente por conta das eleições, mas em proporções menores que em 2025 devido à alta taxa de juros de 15% ao ano”, afirma Walter Barbosa, vice-presidente de vendas, marketing e peças & serviços ônibus da Mercedes-Benz do Brasil. “Obviamente, assim que as taxas de juros atingirem patamares mais atrativos, o mercado volta a acelerar. O Refrota sempre ajuda muito, mas não atinge todos os segmentos de ônibus.”
O maior desafio em 2026, segundo Barbosa, está relacionado ao crédito e à infraestrutura. “Tudo leva a crer que haverá continuidade da taxa de juros elevada no país, dificultando os financiamentos e inibindo as renovações de frota. Além disso, teremos de enfrentar as questões de infraestrutura, ainda não totalmente adequadas para as renovações necessárias em São Paulo com ônibus elétricos, por exemplo. Soma-se ainda a questão das eleições, que tanto podem representar uma oportunidade para o mercado de ônibus, como uma ameaça, em função da restrição de verbas destinadas à renovação das frotas.”
A estimativa de Barbosa é que, em todo o Brasil, os modelos com maior penetração seguirão sendo os ônibus a diesel com motor dianteiro. “No caso da Mercedes-Benz, especificamente o OF 1721, nas versões com suspensão a mola e a ar, continuarão tendo destaque no mercado brasileiro.”
Na avaliação do vice-presidente de vendas da Mercedes-Benz,2025 foi um ano bom para o mercado de ônibus, que irá apresentar o maior volume dos últimos 10 anos, com 23.700 veículos emplacados. “No acumulado de janeiro a novembro, foram emplacadas 21.744 unidades no Brasil, crescimento de 8% em comparação a igual período do ano anterior”, revela
Segundo Barbosa, em 2014, o mercado total foi de 26.158 unidades. Depois disso, tivemos um período de mercados menores. “O que ajudou a retomada do mercado, em 2025 e nos últimos anos, foi o movimento de renovações de frotas que ainda estavam pendentes desde o período da pandemia, combinado com a disponibilidade de linhas de financiamento específicas (como o Refrota e o PAC da Mobilidade), que compensaram a alta taxa de juros praticada no mercado.”
Na avaliação de Barbosa, o maior desafio do ano, sem dúvidas, foram as altas taxas de juros e as dificuldades de implementação da eletromobilidade, especificamente em São Paulo. “Devido a questões de infraestrutura, o volume de renovação foi abaixo do esperado.”
Volkswagen celebra o bom momento do setor
A Volkswagen Caminhões e Ônibus está confiante de que 2026 será um ano bom para o mercado de ônibus e comemora a venda de 100 ônibus elétricos e-Volksbus para a cidade de São Paulo.
As primeiras entregas foram para a Transpass, que adquiriu 50 veículos. Os demais ônibus, todos com carrocerias Caio, serão disponibilizados a partir de janeiro para outros operadores do transporte público. Em breve chegarão também a outras cidades do país, entre elas Resende (RJ), onde está a fábrica da montadora, que terá o primeiro e-Volksbus em operação na Viação Princesinha do Vale.
Com o e-Volksbus 22L, a Volkswagen completou a produção de 1.250.000 veículos na fábrica de Resende. “Esse é um grande marco na nossa indústria e evidencia o compromisso da Volkswagen Caminhões e Ônibus com o país e com nossa política ESG”, celebra Roberto Cortes, presidente e CEO da Volkswagen Caminhões e Ônibus.
Com capacidade para transportar até 82 pessoas, o e-Volksbus 22L pode receber carrocerias urbanas de até 13,2 metros de comprimento. O modelo tem 250 km de autonomia tendo sido alimentado por um conjunto com 12 packs de baterias. Com piso baixo na parte central e dianteira, que somados ao sistema de ajoelhamento, de elevação e de agachamento, facilitam e agilizam o embarque e desembarque de passageiros.
Iveco Bus: incertezas econômicas e pressões estruturais
A Iveco Bus tem como expectativa para 2026 um ano marcado por cautela. “Após três ciclos seguidos de crescimento, há uma sinalização da Anfavea de que o mercado de ônibus pode enfrentar uma retração, refletindo variáveis macroeconômicas ainda sensíveis, como juros elevados e instabilidade internacional”, afirma Maurício Yamamoto, head da unidade de negócios de ônibus na América Latina.
Na sua avaliação, a tendência por propulsões alternativas, aliada à busca por maior eficiência energética, continuará guiando investimentos e decisões estratégicas das empresas. “O ano tende a ser de oscilações e exigirá atenção permanente às condições econômicas e políticas. Há também a expectativa de que programas de renovação de frota voltem a ter protagonismo, ajudando a reequilibrar o mercado em um cenário mais complexo.”
O maior desafio do mercado de ônibus em 2026, na visão de Yamamoto, será lidar com a combinação de incertezas econômicas e pressões estruturais que podem frear o ritmo de crescimento observado nos últimos anos. “Outro ponto crítico é a necessidade urgente de programas de renovação de frota, considerados essenciais para destravar vendas e dar previsibilidade ao mercado. Em paralelo, a transição energética continua avançando e exige investimentos robustos, o que representa mais um desafio em um cenário mais restritivo.”
No seu entendimento, o modelo destaque da marca no mercado de ônibus em 2026 deve ficar por conta do BUS 17-280 com suspensão pneumática, que atende requisitos importantes de grandes capitais e vem ganhando espaço pela robustez, conforto e competitividade operacional. “Outra aposta é o BUS 17-210 G, movido a gás natural e biometano, que oferece desempenho equivalente ao diesel, maior eficiência ambiental e uma relação custo-benefício muito atrativa para operações urbanas, especialmente em cidades que já possuem infraestrutura de abastecimento. A linha Daily Minibus também deve manter um ritmo forte, com as versões 30-160 Escolar e 50-180 Sem PLC ampliando o alcance do portfólio em diferentes tipos de operação.”
2025: continuidade de mercado aquecido
Para a Iveco Bus, 2025 foi um ano de continuidade do aquecimento do mercado, impulsionado pelo avanço das entregas e das novas adesões do programa Caminho da Escola, pela retomada das renovações de frota nos sistemas urbanos e pelo crescimento da demanda nos segmentos de fretamento e rodoviário. “De maneira geral, o ano se destacou pela abertura de oportunidades em diferentes nichos e pelo aumento do interesse em soluções sustentáveis, refletindo a evolução do setor e a busca por alternativas mais eficientes e modernas por parte dos operadores”, afirma Yamamoto.
Os principais desafios, segundo Yamamoto, estiveram relacionados ao cenário econômico, marcado por juros elevados e custos operacionais que impactam diretamente as decisões de compra dos operadores. “Além disso, o ritmo acelerado de importações exigiu ainda mais competitividade e agilidade das fabricantes nacionais.”
Yamamoto ressalta que o mercado brasileiro de ônibus apresentou sinais claros de reação em 2025. “Segundo a Anfavea, no acumulado de janeiro a outubro, o setor registrou crescimento de emplacamentos de 7,2% em relação ao mesmo período do ano anterior. O segmento avança em um contexto no qual a renovação do transporte público se torna urgente, e o ônibus assume um papel central nesse processo.”
Volvo Buses: Lat.Bus deve alavancar negócios
A Volvo Buses ainda não tem projeções para o mercado de ônibus e, considerando o cenário macroeconômico, vê indicação de mudanças relevantes. “Há expectativa pela redução da Selic. Mas, dependendo de quando isso irá acontecer, o reflexo no mercado de ônibus pesados não será imediato. As estatísticas oficiais dos emplacamentos Renavam só aparecem muitos meses após o faturamento dos chassis, encarroçamento e entrega para os clientes”, afirma André Marques, presidente da Volvo Buses Latin America.
Como ponto positivo, Marques cita a Lat.Bus 2026, principal feira de negócios de ônibus na América Latina. “É um evento que sempre anima os clientes e alavanca negócios.”
O presidente destaca que a Volvo atua no segmento de pesados de alta tecnologia e segurança, contando hoje com a linha mais avançada de chassis rodoviários do mercado. “Temos também a oferta mais completa do mercado em chassis urbanos elétricos. Nossa linha de produtos, a mesma que oferecemos na Europa e nos principais mercados globais, está bastante atualizada”, diz Marques.
Ao longo de 2026, a Volvo Buses mostrará mais atualizações da plataforma de produtos. “Vamos seguir com a nossa oferta de chassis premium de alta capacidade, tanto em rodoviários quanto em urbanos, a diesel e elétricos”, afirma o presidente.
Em sua avaliação sobre o mercado de ônibus em 2025, Marques afirma que o segmento de ônibus pesado de alta capacidade, no qual a Volvo atua, foi bastante impactado pelas altas taxas de juros em 2025. “Os operadores de transporte ficaram bastante cautelosos em investir em ônibus novos. Como exemplo disso, vemos o segmento rodoviário – um de nossos principais mercados – apresentando volumes inferiores em torno de 10% àqueles alcançados ao longo do ano de 2024.”
O principal desafio em 2025, segundo Marques, foram os juros altos. “Com a Selic em 15%, os juros reais para nossos clientes podem chegar a 20% no ano. Isso inibe a renovação e ampliação de frotas. Em rodoviários, somente operadores que estavam com frotas muito defasadas, com alto custo operacional, investiram em ônibus novos. No segmento de urbanos, alguns negócios foram puxados por força contratual, em cidades que obrigam os operadores a renovar a frota por idade.”
Até outubro de 2025, a Volvo registrou o emplacamento de 429 ônibus. “Esse número, 12% inferior ao registrado no mesmo período do ano passado, é reflexo do nosso posicionamento de produto e preços”, justifica Marques e esclarece: “Nossos chassis têm alto padrão de tecnologia e segurança, o que nos coloca num patamar superior de desempenho e disponibilidade, mas também de custos. Com o crédito mais caro, houve impacto nos volumes de ônibus premium, como os nossos.”
Fique por dentro das principais notícias e novidades do mundo do Transporte Coletivo e da Mobilidade:
Acompanhe o Canal Technibus no WhatsApp
Acompanhe as nossas redes sociais: Linkedin, Instagram e Facebook
Acesse o Acervo Digital OTM Editora



