A inércia será mortal

Jurandir Fernandes é presidente da seção da América Latina da União Internacional de Transportes Públicos (UITP) e aborda as implicações da pandemia do Covid-19 para o setor

– A pandemia afetou fortemente o setor de transporte público devido às medidas de isolamento social. Quais devem ser os efeitos para o setor nos próximos meses?

Jurandir Fernandes – Os efeitos continuarão sendo de forte queda de demanda, ao menos, até fins de julho. A partir daí, a demanda crescerá sem voltar aos níveis pré-pandemia devido ao alto desemprego e a mudanças de comportamento da população.

As incertezas quanto à reincidência da gripe sobre os que passaram pela primeira contaminação ainda persistem. O temor de novas ondas da pandemia fará com que, em curto prazo, as aglomerações sejam temidas. Isto continuará afetando nosso setor certamente até o anúncio de uma vacina contra o Covid-19. Cenários otimistas apontam o início da vacinação somente a partir de maio de 2021. 

– O que fazer para reduzir esses impactos?

Jurandir Fernandes – As normas que regulam o setor deverão ser modernizadas para dar mais flexibilidade ao gerenciamento da oferta e da demanda pelos operadores. O gerenciamento da oferta deverá ocorrer durante todo o dia. Deverá ser reforçado o uso de aplicativos on-line, dando aos passageiros a posição e o tempo de chegada do ônibus nos pontos, baixando o tempo de espera. A oferta sob demanda deverá ser implantada principalmente nas regiões, nos dias e nos horários de fraca demanda. 

A demanda também pode e deve ser gerenciada. Para evitar o colapso da Saúde, gerenciar os picos de demanda por hospitais foi o que mais se fez durante a pandemia. Medidas semelhantes se aplicam no caso dos transportes públicos. Tarifas cheias nas horas de pico e com desconto nos vales ou bilhetes pré-pagos econômicos válidos durante determinados horários do dia. A bilhetagem eletrônica permite dezenas de possibilidades. 

– Em termos de mobilidade, a pandemia deve trazer mudanças profundas na forma como as pessoas se locomovem?

Jurandir Fernandes – Diria que a pandemia dará continuidade às mudanças que já estavam em curso. A diferença será de velocidade e de aprofundamento. Explico: até outro dia, os jovens estavam à frente em relação ao uso de aplicativos de compras, de entrega de produtos, de bancos eletrônicos, de comunicação através das mídias sociais e muito mais. A pandemia fez com que seus pais e avós entrassem de cabeça nestas novas tecnologias. De repente, tudo se acelerou: home office, coworking, cohome, delivery, e-commerce, webinar, lives, podcasts, streaming, e-meetings…..Tão rápido que em muitos casos ainda nos faltam palavras em nosso idioma.

Após a pandemia não dispensaremos toda esta experiência. Por que ir até Brasília para uma reunião com dois assessores de um ministério? Por que ir até ao supermercado se posso fazer toda a compra em casa via internet? Por que alugar todo o andar de um prédio comercial se posso deixar algumas equipes em home office em regime de rodízio? Por que morar longe do emprego se posso alugar em 24 horas um flat num cohome ao lado do meu local de trabalho?

Creio que as reuniões executivas passarão a ser totalmente on-line. As plataformas digitais de suporte a estas reuniões melhoram a cada dia. Muitas já comportam até 250 pessoas online, com participação e votação muito mais efetivas do que se fossem presenciais. 

As inovações não se resumem a estes aspectos acelerados pelo coronavírus. Nas indústrias de produtos, a robotização continuará se acelerando. A indústria se moderniza ou fecha. Na indústria de serviços, dezenas de empregos e de funções serão extintos. Atendentes de call centers, caixas de supermercados, bancários, vendedores do comércio, corretores de seguro e de imóveis, seguranças e porteiros já estão em processo de extinção. 

Fica óbvio o impacto sobre a demanda de viagens, sejam urbanas ou não. Já sentimos isto de dez anos para cá, principalmente nos últimos cinco anos. Teremos que reinventar nossas ofertas de transporte público. Não da noite para o dia. Mas a inércia nesta nossa área será mortal. 

– O que o poder público pode fazer para ajudar os operadores de transporte?

Jurandir Fernandes – Em primeiríssimo lugar, o poder público tem que passar a ser um agente de transformação. Hoje exerce o papel contrário. Bloqueia, penaliza, impede, retarda e desmotiva qualquer iniciativa. As autoridades têm um mantra: só podemos fazer o que a lei nos permite. Infelizmente, pouco é feito para mudar leis arcaicas que protegem os setores mais atrasados da mobilidade urbana. As autoridades, por um lado, pouco fazem por inépcia e medo dos órgãos de controle, que aliás existem em demasia. De outro lado, pela atuação política de forças atrasadas.  Em muitas cidades e estados, há lobistas encastelados nas câmaras municipais e assembleias legislativas. Alguns destes lobistas chegam a definir os secretários e diretores da área de transportes públicos. Isto ocorre às claras mesmo nas cidades mais importantes do país e o pior, noto um conformismo inacreditável de grande parte do setor.

– Como a UITP está atuando nessa situação?

Jurandir Fernandes – Advogando noite e dia a favor do transporte público coletivo como espinha dorsal da mobilidade urbana, em mais de 100 países em que atua.  Este é o nosso mantra há 135 anos. Abrindo e conduzindo debates, fazendo publicações de estudos e pesquisas, participando da elaboração de normas e regulamentos no sentido de fortalecer e viabilizar a implantação e ampliação de todas as modalidades de mobilidade urbana sempre em consonância com o planejamento das cidades.

– O senhor acredita que a tecnologia vai ser o fator mais importante para que o setor supere esse período de crise?

Jurandir Fernandes – Não de forma isolada. A tecnologia deve ser considerada como um dos elementos fundamentais. Antes de tudo, a superação desta crise requer a consolidação dos fundamentos para o financiamento do setor. O país até hoje não tem uma política clara para os investimentos e muito menos para o custeio da operação do transporte urbano. Ao contrário, medidas populistas inflaram o setor de gratuidades onde não se leva em conta sequer o perfil econômico do beneficiado. Em todo ano eleitoral dá-se um passo a mais em medidas sem sustentabilidade. A tecnologia por si só não resolve. De nada adianta um sistema de ônibus inteligentes parados num congestionamento de automóveis.

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