A retomada do mercado ferroviário brasileiro, impulsionada por novas concessões, projetos estruturantes e pela reativação da indústria de material rodante, recoloca no centro do debate uma questão significativa para o setor: a escassez de mão de obra técnica especializada. Trata-se de um gargalo que extrapola as necessidades de uma única concessionária e afeta operadoras públicas e privadas em todo o país, tornando-se um dos principais desafios para a sustentabilidade do novo ciclo de investimentos em ferrovias de passageiros.
É nesse contexto que se insere o lançamento do programa Estação Aprender, iniciativa da TIC Trens em parceria com o Senai de São Paulo, voltada à formação profissional de jovens aprendizes para o sistema metroferroviário paulista. O programa busca recompor competências técnicas perdidas ao longo de décadas de retração do setor e contribuir para a reconstrução de uma base de capital humano capaz de sustentar a expansão da atividade ferroviária.
Segundo o CEO da TIC Trens, Pedro Moro, a parceria nasceu de uma constatação prática. Após o período inicial de estruturação das equipes da concessionária, tornou-se evidente a dificuldade de encontrar técnicos formados no mercado. “Quando você vai buscar profissionais, simplesmente não há formação disponível”, afirma. Para ele, a origem do problema é estrutural e remonta ao fechamento de fábricas ferroviárias, à paralisação de encomendas e à redução de investimentos ao longo das décadas de 1990, 2000 e parte dos anos 2010, período em que o país perdeu um volume expressivo de mão de obra qualificada.
Aquecimento
Esse cenário começa a se modificar com o aquecimento recente do mercado. Pedro Moro destaca que o avanço das concessões, a perspectiva de novos projetos regionais e metropolitanos e a retomada da indústria ferroviária criaram um ambiente mais dinâmico. Fábricas de trens voltaram a se instalar no Brasil, subfornecedores retornaram à cadeia produtiva e empresas que operavam com baixa capacidade já acumulam encomendas para os próximos anos.
“O mercado voltou a ficar estruturado, mas sem profissionais formados não há como sustentar esse crescimento”, avalia o executivo. A dificuldade de preenchimento de vagas técnicas, segundo ele, não é exclusiva da TIC Trens e vem sendo relatada por diferentes operadoras ferroviárias, reforçando a necessidade de soluções de longo prazo e de caráter estruturante.
Diante desse quadro, a TIC Trens buscou o Senai como parceiro estratégico. Além de sua reconhecida atuação na formação técnica industrial, a instituição possui histórico consolidado na capacitação de profissionais ferroviários, especialmente em parcerias com a CPTM, e mais recentemente passou a atender também concessionárias privadas. “O mercado precisa apoiar instituições sérias de formação profissional, e o Senai é uma das mais sólidas que temos no Brasil”, afirma Moro.
Começou em janeiro
O lançamento do Estação Aprender ocorreu oficialmente em janeiro de 2026. No dia 26, a TIC Trens recebeu a primeira turma de jovens aprendizes da concessionária, marcando o início do programa. Nesta edição inaugural, 40 alunos foram selecionados entre mais de mil inscritos e passaram a atuar nas áreas de Manutenção e Atendimento, combinando formação técnica oferecida pelo Senai com atividades práticas no dia a dia da empresa.
Para José Luiz Bastos, diretor de Operação e Manutenção da TIC Trens, o programa tem papel estratégico na construção da companhia. “O Estação Aprender é um passo importante na estruturação de iniciativas voltadas à formação de jovens talentos na TIC Trens”, afirma. Segundo ele, a proposta vai além da capacitação imediata. “Nossa visão de longo prazo é formar profissionais que iniciem suas carreiras em contato direto com a cultura ferroviária e com os valores que estamos construindo como companhia.”
Composição da turma
A primeira turma é dividida em dois grupos. Vinte aprendizes iniciaram as atividades na área de Manutenção em 26 de janeiro, enquanto os outros vinte, destinados à área de Atendimento, começaram no dia 2 de fevereiro.
Na área de Manutenção, os alunos cursam o programa Técnico em Sistemas Metroferroviários, com carga horária de 1.500 horas e contrato de dois anos. A formação abrange frentes como via permanente, oficinas, veículos auxiliares, laboratório, material rodante, restabelecimento, sinalização e telecomunicações, com rodízio entre áreas para proporcionar uma visão ampla do funcionamento ferroviário. Inicialmente, esses jovens atuam nas bases de manutenção da TIC Trens, com destaque para o Pátio Lapa, em São Paulo.
Já os aprendizes da área de Atendimento realizam o curso Técnico Administrativo, com carga horária de 1.200 horas e duração de um ano e seis meses. As atividades envolvem rotinas administrativas ligadas à operação, além do contato direto com os passageiros nas plataformas e linhas de bloqueio. Entre as atribuições estão o apoio à movimentação de pessoas com deficiência e a prestação de orientações básicas aos usuários. Esses jovens ficam alocados em diferentes estações ao longo da Linha 7-Rubi, também em sistema de rodízio.
Ambiente escolar
Durante todo o programa, os aprendizes contam com o acompanhamento de tutores capacitados pelo Senai, responsáveis por garantir orientação contínua, tanto do ponto de vista técnico quanto comportamental. As atividades de formação são desenvolvidas na Escola Senai Mariano Ferraz, na Vila Leopoldina, em São Paulo — unidade que concentra atualmente os cursos ferroviários da instituição e que carrega um histórico simbólico relevante para o setor, tendo formado, ao longo de décadas, gerações de profissionais ligados à ferrovia paulista.
Nesse novo arranjo, a cooperação com a TIC Trens representa mais um passo na reconstrução da base técnica do setor. Para a concessionária, o Estação Aprender não atende apenas às suas necessidades imediatas, mas dialoga com um desafio sistêmico do mercado ferroviário brasileiro: recompor, de forma estruturada e sustentável, a mão de obra especializada necessária para operar, manter e expandir sistemas ferroviários cada vez mais complexos. Responsável pela implantação, operação e manutenção do Trem Intercidades (TIC) Eixo Norte — primeiro trem de média velocidade do Brasil —, a TIC Trens atua em um dos projetos mais relevantes da atual agenda ferroviária nacional. O serviço expresso conectará São Paulo a Campinas, com velocidade de até 140 km/h e capacidade aproximada de 860 passageiros por viagem. A concessionária também será responsável pela operação do Trem Intermetropolitano (TIM), entre Jundiaí e Campinas, além da operação, manutenção e modernização da Linha 7-Rubi de trens metropolitanos, entre Palmeiras-Barra Funda e Jundiaí, em um trecho de 57 quilômetros.
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