Começou dia 11 e vai até 14 de novembro, em Medellín, na Colômbia, o Fórum UITP América Latina 2025 — um espaço de diálogo e troca de experiências sobre os principais desafios e oportunidades da mobilidade na região. O Metrô de Medellín, membro da UITP América Latina, que este ano celebra 30 anos de operação, é o anfitrião do evento.
Segundo Eleonora Pazos, chefe do escritório da América Latina da União Internacional de Transportes Públicos (UITP), Medellín é um dos sistemas mais amplos em termos de integração e multimodalidade que existe na América Latina. “O sistema de transporte era típico de uma cidade latino-americana da época, baseado na informalidade e em empresas familiares. E em 1995, eles implementam o metrô que acabou sendo esse o condutor, tanto de desenvolvimento da cidade, como também de ordenamento do transporte do transporte local.”
O Metrô contribuiu para uma transformação social da cidade, dentro de uma série de políticas públicas, que passaram também pela questão de segurança. “Quando o metrô inaugurado em 1995 já havia uma política de valorização do espaço urbano e um projeto de colocar um sistema de transporte que apoiasse esse movimento. Nos anos 1990, começou uma política muito forte de transformação do espaço urbano e de combate aos cartéis para realmente mudar e transformar a cidade. Foi uma política ampla, mas o transporte foi um dos grandes propulsores. O sistema criou uma ‘blindagem social’, que é essa capacidade de estar inserido em áreas onde talvez as regras da sociedade não sejam tão claras”, avalia Eleonora.
A representante da UITP conta que o transporte coletivo se expandiu e se integrou, inclusive com meios de pagamento integrados. “O sistema de metrô foi se ampliando com os famosos teleféricos. Esses sistemas de Metrocable têm mais de 20 anos e levaram realmente uma acessibilidade a áreas que tinham uma necessidade e uma carência muito grandes. Eles se integraram com um BRT, também, com um sistema de VLT. Então existe uma multimodalidade espalhada pela cidade, o que é um fundamental.”
A Colômbia não é uma federação, então o governo central decide esse tipo de política, o que facilita a implementação de políticas públicas, na visão de Eleonora. “Mas há as autoridades da cidade e da região do Vale de Aburrá, que engloba toda a área metropolitana. Ainda há questões relativas aos ônibus alimentadores e aos ônibus das linhas convencionais, mas a estrutura de transporte conseguiu ter esse papel fundamental de ordenamento do solo e de ocupação do espaço urbano de uma maneira única. Medellín é o ápice do resultado que um bom sistema de transporte integrado, pensado da maneira que a cidade necessita que os moradores necessitam”, detalha.
Outro diferencial do sistema da cidade colombiana é a chamada “cultura metro”, que valoriza o sistema de transporte coletivo da cidade. “Isso leva a essa blindagem social, que citei. Porque atinge qualquer tipo de comunidade, e as pessoas têm absolutamente o mesmo comportamento dentro dos sistemas, o mesmo reconhecimento como uma infraestrutura de uso público, tanto numa área carente como numa área nobre. Obviamente, é uma cidade da América Latina com as suas dimensões e os seus dramas, como temos em toda a região”, sublinha a especialista.
O transporte coletivo é bastante respeitado em Medellín. Eleonora observa que, mesmo em momentos de convulsão social e grandes manifestações, todo esse sistema integrado de transporte permanece preservado. “As pessoas realmente têm uma relação completamente diferente com o sistema, e muito por essa ‘cultura metro’, que inclui diversas políticas, de assistência e educação e apoio social. É um programa extenso. Essa cultura ultrapassa o papel é convencional do ir e vir.”
Na opinião da executiva da UITP, não basta fazer grandes investimentos em infraestrutura nos sistemas de transporte, se a população não reconhecer como um espaço público. “Claro que eles estão fazendo isso há 30 anos com o Metrô e há mais de 20 anos com os com os teleféricos, mas não pode ser só a inserção da infraestrutura, é necessária essa mudança de comportamento, uma mudança de mindset. É um trabalho social intenso. Não pode faltar essa conexão social com o usuário”, acredita.

Cúpula internacional –
A UITP também participa da COP 30, e as discussões relativas ao transporte devem abordar principalmente a mudança de matriz energética e a eletrificação da frota de ônibus. “A América Latina realmente é um celeiro em relação aos ônibus elétricos. É a região do planeta, fora da Ásia, com a maior frota de ônibus elétricos. A eletrificação veio por diversas políticas públicas, sendo que os países da região que tiveram êxito foram aqueles que tiveram uma política estabelecida em nível nacional. Não só com metas, mas com uma estrutura de financiamento e de contrato. É crucial a determinação de uma política de estado”, afirma Eleonora.

Ela lembra o processo de eletrificação do transporte, com essa visão de mudança de matriz energética, começou em Santiago, no Chile, que também é um estado unitário. A participação da indústria também foi fundamental para o avanço dessa política. “Além do benefício da ecológico, foi fundamental o ganho econômico. Foi feita a conta e foi comprovado que a eletrificação traria benefícios financeiros. Era obviamente um custo inicial maior, mas que se pagava num prazo bastante razoável. Então, se criou um modelo de negócio, colocando novos players como os provedores de energia elétrica e a indústria assumiu um novo papel com a responsabilidade operacional, garantindo que as baterias e todo o sistema vai funcionar”, relata.
E o modelo se espalhou pela região. “Santiago conta com mais de 2.000 veículos elétricos. Na Colômbia, temos Bogotá, e outras cidades. Outro exemplo é Montevidéu, no Uruguai, que tem 50% da frota de ônibus elétrico e tem metas para os próximos cinco anos de chegar a 100% elétrico”, informa.
Eleonora destaca que no Brasil a elaboração de uma política nacional seria importante para alavancar a eletrificação nas cidades brasileiras. “Existe a questão de infraestrutura de recarga, que a gente sabe o que é um gargalo em São Paulo e em outras cidades. Eu realmente considero que a questão da política nacional é fundamental, porque você teria diretrizes maiores e mais poderosas, reunindo os provedores de energia do país inteiro.”
Em 2023, na Assembleia Geral da ONU foi aprovada e declarada a primeira década das Nações Unidas pelo transporte público, que se inicia no ano de 2026. “Será uma oportunidade para aumentar ainda mais a conscientização sobre o papel que o transporte público para o avanço dos objetivos de desenvolvimento sustentável. A ONU propõe de fortalecimento de ligação entre os modos de transporte”, comenta.
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