Fernanda Caraballo, diretora de desenvolvimento de negócios da Mastercard: “A pandemia reforçou a necessidade de aumento de eficiência e redução de custos operacionais do setor, acelerando a exploração de novas tecnologias”

“Os pagamentos por aproximação cresceram muito no último ano, principalmente por conta do distanciamento social e da necessidade de uma experiência sem contato, rápida e eficiente”, pontua a executiva

Technibus – Como a senhora avalia o potencial do mercado de transporte de passageiros e mobilidade no Brasil? Há muitas oportunidades de negócios para a Mastercard?

Fernanda Caraballo – O mercado brasileiro de transporte de passageiros e mobilidade tem enorme potencial, devido à maior concentração de pessoas vivendo em centros urbanos nos últimos anos. Hoje e cada vez mais, temos a necessidade de desenvolver cidades inteligentes, sustentáveis e inclusivas, e a mobilidade tem papel fundamental neste processo.

Na Mastercard, trabalhamos em conjunto com nossos parceiros, para desenvolver soluções que ajudem os municípios a se tornarem cada vez mais sustentáveis e eficientes, atuando junto aos governos para benefício dos residentes, empresas locais e visitantes. Há alguns anos, temos atuado como agente de mudança, reunindo autoridades governamentais, empresas e ONGs, liderando iniciativas em diferentes países, otimizando recursos e gerando mais transparência na gestão pública.

No Brasil, aproximadamente 30% dos pagamentos no transporte público são feitos em dinheiro, o que gera custos operacionais e logísticos para o operador, além dos problemas com falta de troco e de segurança. Para o consumidor, os desafios também são grandes pelo risco de assaltos e perda financeira também por falta de troco, mas, principalmente, pelo risco de contaminação no contato com o dinheiro físico durante a pandemia.

Os pagamentos por aproximação no transporte público, além de trazerem eficiência para o operador de transporte, trazem conveniência e segurança para a população. Para os operadores, há um importante ganho de eficiência com a redução dos custos operacionais desses sistemas, além de aumentar o nível de satisfação do usuário, que passa a poder utilizar o mesmo cartão que usa em outros lugares também no transporte público.

Além disso, há a conveniência e simplicidade dos pagamentos com cartão tanto para o pagamento direto nas catracas do transporte, quanto para a compra de créditos para a recarga de bilhetes nas máquinas de autoatendimento e bilheterias. A Mastercard ainda contribui com soluções de cibersegurança e inteligência artificial no apoio à digitalização e modernização do setor de transportes, levando mais conveniência, flexibilidade e segurança para todos.

Technibus – Quais as principais tendências em meios de pagamentos para o transporte coletivo? Há novidades previstas?

Fernanda Caraballo – Entre as tendências em meios de pagamento para o transporte coletivo está o uso de cartões bancários. A aceitação nesse setor vem se expandindo de várias formas, com a tecnologia de pagamentos por aproximação como carro-chefe, sendo aceita diretamente nas catracas ou validadores de ônibus. Sua utilização já é uma realidade em várias cidades da Europa, Estados Unidos, Ásia e Austrália e vem se expandindo na América Latina.

Além disso, também tem se expandido para a compra de créditos em apps, caixas eletrônicos ou bilheterias. Nesses casos, a credencial para acesso ao transporte público pode ser o próprio cartão ou um QR Code (impresso ou gerado em um aplicativo no celular).

Os pagamentos por aproximação cresceram muito no último ano, principalmente por conta do distanciamento social e da necessidade de uma experiência sem contato, rápida e eficiente. Somente no primeiro trimestre de 2021, a Mastercard registrou 1 bilhão de transações por aproximação a mais em todo o mundo em comparação com o mesmo período de 2020, com um maior impulso particularmente em mercados emergentes para este método como os EUA e o Brasil.

Uma outra novidade que vem sendo explorada por empresas de diversos países são os projetos de MaaS (do inglês Mobility-as-a-Service, ou Mobilidade como Serviço). Esses projetos combinam ofertas de serviços de transporte público e prestadores privados de serviços de mobilidade por meio de um servidor de acesso unificado, que gerencia a viagem e permite aos passageiros pagar de forma unificada em uma interface amigável.

Além disso, eles podem escolher a rota e a forma de locomoção que melhor atendem à necessidade do passageiro, levando em conta rapidez, custo e conforto. A Mastercard vem colaborando com vários parceiros em iniciativas de MaaS em diversos países.

Technibus – Quais as principais experiências (ou cases) da Mastercard no setor de transporte de passageiros e mobilidade no Brasil?

Fernanda Caraballo – A Mastercard vem apoiando operadores de transporte e autoridades do setor na modernização da experiência de pagamento, trazendo conveniência e segurança aos usuários e estimulando a adesão da população ao transporte coletivo que é fundamental para o desenvolvimento sustentável das cidades.

Temos trabalhado com atores desse setor na implantação da aceitação de pagamentos por aproximação com cartões de débito e crédito diretamente nas catracas, com experiências de sucesso já funcionando nos trens e metrôs do Rio, e em toda frota de ônibus de Jundiaí (São Paulo) e Rio Grande (Rio Grande do Sul), além de várias praças de pedágio no Brasil.

Para facilitar a vida dos passageiros, permitimos o pagamento das tarifas de forma que apenas aproximem do validador cartões de crédito, débito, smartphones, smartwatches ou pulseiras de pagamento, democratizando a alternativa para os moradores das cidades e também para os turistas, já que os cartões emitidos fora do país também são aceitos.

Technibus – Como a senhora avalia a ampliação dos pagamentos por aproximação no setor de transporte coletivo no Brasil? Quais as dificuldades na adesão dos passageiros ao pagamento por aproximação?

Fernanda Caraballo – A adoção de pagamentos por aproximação vem trazendo não só maior agilidade e conveniência na compra das passagens, mas também a flexibilidade e segurança de utilizar no transporte público os mesmos cartões que os usuários estão acostumados a usar nas suas compras do dia a dia. A receptividade dos usuários a essa nova forma de pagamento tem sido muito positiva e a adoção vem crescendo constantemente. A experiência de uso é muito simples e já conhecida dos portadores de cartões bancários.

Temos superado grandes dificuldades nos últimos anos, como o nível de bancarização da população, a inclusão financeira e a disseminação dos cartões com tecnologia NFC. Com relação à bancarização, dados do Bacen mostram que, apenas entre os meses de março e abril de 2020, primeiros meses da pandemia, o número de bancarizados aumentou em cinco milhões de pessoas no Brasil.

Com o pagamento inicial de R$600, muitos especialistas acreditam que o auxílio emergencial foi um grande catalisador da bancarização no país. Pessoas com baixa renda mensal criaram contas bancárias por necessidade, pois necessitavam delas para receberem o recurso. O benefício alcançou as áreas rurais e cidades mais afastadas das capitais e grandes centros metropolitanos. O distanciamento social e o alto número de smartphones contribuíram para a inserção das pessoas nessas áreas.

Quanto aos pagamentos por aproximação, segundo dados divulgados no último relatório da Abecs, em 2020, o método de pagamento contactless totalizou R$ 41 bilhões, superando em cerca 470% o montante transacionado pela modalidade em 2019.

Technibus – Como a pandemia afetou os negócios neste mercado?

Fernanda Caraballo – Por um lado, trouxe sérios desafios devido à redução considerável no número de passageiros, causada pelas medidas de distanciamento e isolamento social impostas pelos governos estaduais. A expectativa era que o crescimento fosse maior, levando-se em consideração o fluxo diário de passageiros nos transportes públicos antes da pandemia, especialmente nas grandes cidades. Com o isolamento e a consequente implantação do trabalho remoto, as pessoas passaram a ficar e trabalhar em casa, eliminando a necessidade de locomoção – e, consequentemente, reduzindo o fluxo de passageiros.

Entretanto, por outro lado, a pandemia reforçou a necessidade de aumento de eficiência e redução de custos operacionais do setor, acelerando a exploração de novas tecnologias, os projetos de disponibilização de novos meios de pagamento, do uso de dados e inteligência artificial. Nossa expectativa é que seja apenas uma questão de tempo para que, muito em breve, esses novos métodos de pagamento sejam uma realidade em todos os lugares nos quais são realizadas transações – e isso inclui o transporte público.

Technibus – Qual a importância da realização de eventos como Semana UITP América Latina 2021? Que temas destacaria?

Fernanda Caraballo – A mobilidade é um tema extremamente importante para a sociedade, o que torna eventos como a Semana UITP essenciais para o desenvolvimento desse setor. A troca de experiências entre empresas de toda a América Latina contribui para a criação de cidades mais conectadas, sustentáveis e inclusivas.

Como uma empresa de tecnologia em meios de pagamentos, a Mastercard trabalha para oferecer soluções simples, seguras e convenientes a todos. Sabendo como a tecnologia gera eficiência e traz benefícios para o desenvolvimento das cidades e bem-estar dos cidadãos, os temas de mobilidade urbana e cidades inteligentes estão na nossa agenda – alinhada com a dos gestores públicos e da sociedade.

Acreditamos que nenhum parceiro sozinho pode resolver os desafios da urbanização em escala. Por isso, investimos em modelos de colaboração que unam o setor público e privado para tornar as cidades mais desenvolvidas e igualitárias. Um dos projetos que desenvolvemos nesse sentido é o City Possible, uma rede colaborativa de apoio ao desenvolvimento de cidades inteligentes fomentada globalmente pela Mastercard.

Por meio da nossa tecnologia, dados e experiência, trabalhamos diariamente para impulsionar o crescimento econômico com sistemas mais eficientes, beneficiando o comércio, o turismo, a mobilidade urbana e a gestão pública.

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